Designa-se por Streisand Effect (Ou Efeito Streisand), o reflexo social gerado por uma comunidade, quando uma instituição ou alguém tenta fazer desaparecer ou esconder um pedaço de informação e esse gesto é mal recebido, gerando uma publicidade absurdamente maior e cujo dano ao agente é superior ao causado pela existência do facto em si mesmo. É algo que é dos livros das redes sociais, agora amplificado pela rapidez com que a informação se propaga. Ganhou este nome de baptismo quando, em 2003, Barbara Streisand tentou através de diversas formas, suprimir um conjunto de fotografias feitas na sua residência que cairam entretanto na Web, processando um fotógrafo.
Dizia eu que é dos livros, mas nem tudo o que é dos livros é seguido por quem os devia consultar. É o caso que está desde ontem a suceder, com resultados imprevisíveis para uma empresa de comunicações (Ensitel), que decidiu accionar judicialmente uma sua cliente (Maria João Nogueira), intimando-a a destruir textos relativos à sua experiência enquanto consumidora. Maria João Nogueira teve uma experiência (má, segundo ela) com a empresa Ensitel. Levou o pleito a um Tribunal Arbitral. Perdeu.
Relatou todo o processo que se arrastou por longos meses. Perdeu. Não só perdeu como aceitou a perda. De forma galante e racional. Dois anos volvidos, Maria João Nogueira recebe uma intimação/providência cautelar para que os textos dedicados ao assunto, com grande exposição pública, sejam removidos das páginas do seu blog.
Isto é muito mais do que um telefone Nokia.
Isto diz respeito à Liberdade de Expressão. A comunidade percebeu-o, e ontem à noite, gerou-se o Efeito Ensitel. Em cerca de trinta minutos, aquilo que era um obscuro detalhe de conflito de consumo (já encerrado, recordo), virou pasto de chamas altissimas com evidentes custos de imagem para a Empresa. Milhares de pessoas que nunca teriam ouvido falar deste assunto, passaram a tomar conhecimento do mesmo. As redes sociais viram-se de repente invadidas por milhares de comentários (
que não páram de crescer a cada minuto que passa), e a página
do Facebook da empresa virou campo de batalha entre publicadores e apagadores. A imprensa tradicional,
escrita e
televisiva pegará no assunto, inflamando ainda mais o fogo e amplificando os ecos até patamares nunca imaginados. Os textos que a empresa pretendia ver removidos estão agora disseminados por dúzias de blogs e servidores...
Estou do lado de Maria João Nogueira. Que nos seus textos não encontro base para qualquer acção por difamação. É um relato. Não agradará à empresa, mas não passa disso mesmo, de um relato. É duro. É. Mas mover uma providência cautelar a um cliente pode custar muito mais do que a avença a um advogado. Custará a imagem. E deve, pelo exemplo, custar a perceber...
O que faria eu se tivesse calçados os sapatos da Ensitel? Uma simples comunicação assumindo o gesto como errado e/ou irreflectido, anunciando a desistência da acção judicial, dourando a pílula desse mea culpa e retirando daí alguns dividendos. Não chegarão esse dividendos para cobrir o que já foi permitido que se fizesse, mas é a ÚNICA saída para este momento de crise. Não tenho qualquer dúvida de que este é o primeiro caso de estudo de um movimento web social em Portugal e que chegará longe nos media ou nos bancos das escolas. É, ao mesmíssimo tempo, um teste demonstrativo. Do quê, veremos mais tarde.
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