"Sabes quantos anos eu tenho?" perguntou-me A, que frequentemente me coloca a questão. Decido brincar com ele, o meu coração tão apertado, que o miúdo perdeu o pai há poucos dias e a tenra idade não lhe deixou ainda entender toda a dimensão da tragédia. Ali, sentados no muro, A.e B., apenas amparados pelo braço da avó, vêem o mundo passar sossegado e calmo. Pus-lhe o dedo no nariz, assim ao jeito de "Estás a ver, roubei-to!", truque em que há anos não cai já. De dedo esticado a pressionar-lhe a ponta do nariz, os meus olhos semi-cerrados fingi adivinhar: "Tens seis anos". Arregalou os olhos, espantado com o meu acerto. "Como é que sabes?". "Sei porque tu me dizes que tens seis anos quase todas as semanas. Olha lá, estás bom?". "Estou" respondeu ele enquanto a avó continuava o amparo, uma braçada larga capaz de defender os netos de todos os perigos deste mundo, a névoa nos olhos que não levantou ainda as marcas da recente mágoa. Eu sabia que A. não se calaria, nunca o faz, há sempre mais uma pergunta, uma revelação. "O meu pai foi para o céu...". Olhei para ambos, neto e avó, encurralado pela frase fria e vi a avó fechar os olhos complacente, quem sabe a pedir clemência do que viesse a seguir. "Eu sei A., eu sei. Estamos todos muito tristes". "E sabes que os avós costumam ir primeiro para o céu, antes dos pais?". Não consegui responder de imediato, os meus olhos percorreram o vazio no fundo do muro da casa e acabaram por fixar-se no rosto adulto por detrás dos miúdos sentados no muro. Ela fechou os olhos, apertou-os mais no abraço, não me disse nada mas eu senti-lhe no rosto e na expressão sofrida que facilmente assentiria na troca de lugares. "Nós não escolhemos essas coisas, A., não escolhemos, acontece quando acontece" disse-lhe eu enquanto ele fugia dos braços da avó atrás de uma bola que estava esquecida no jardim.
31 julho 2008
30 julho 2008
Ora toma (e unicamente)
Não é uma descoberta de hoje, mas existe no mercado uma nova classe de antibióticos ditos de "Toma única". Nada de horários de oito em oito horas, mas sim uma única toma com determinada frequência (que pode ter dias de intervalo). Um tipo engole x comprimidos de acordo com a prescrição médica e espera sossegadinho pelas melhoras da maleita. A primeira vez que um medicamento deste tipo me foi receitado foi motivado por um problema de irritação cutânea e foi trigo limpo com o diagnóstico e prescrição a serem acuradas e tremendamente eficazes (um abraço, Luís e boas férias!). Ontem, e a propósito de uma infecção num ouvido que me assalta com uma regularidade impressionante voltei a ser brindado com a toma única. São dez comprimidos, engulam-se dois tijolos daqueles de cada vez durante cinco dias. Admirou-me bastante o facto da farmacêutica que mos vendeu não saber o que é a "Toma única". Abri a boca, espantado, quando ela comentou "Isto agora é uma chatice, receitam-lhe dois comprimidos mas a caixa é de dez. Vai o resto para o lixo, é um desperdício...". Tentei explicar-lhe que não era bem assim mas ela fez um ar sério e disse-me "Está aqui na receita, toma única!".
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Biografia
José Perdigão (Fados do Rock)
Ponham os olhos e ouvidos neste disco: Fados do Rock de José Perdigão. Uma voz de fado, da qual gostei mesmo bastante) a cantar temas que talvez nunca tenham pensado em ser arranjados para fado. O single de lançamento, Fácil de Entender dos The Gift é uma excelente amostra de um disco produzido por José Cid.
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Faits Divers
A mula da cooperativa
Um documento valiosíssimo sobre a memória do trabalho ferroviário em Portugal foi o que a TSF me ofereceu (em reprise) quando ontem me permitiu que escutasse a magnífica peça "A cidade do baú", uma reportagem baseada no centro ferroviário do Entroncamento. Uma autêntica delícia que, estando em arquivo (não confirmei) permite reviver sons e saberes de outros tempos. No meio deste trabalho, uma revelação. A letra da canção popular "A Mula da Cooperativa" imortalizada pelo cantor madeirense Max nasceu no Entroncamento por via de um desfalque praticado pelo tesoureiro da SCAFA, uma cooperativa local. A letra original menciona um muar utilizado pela SCAFA para transporte de abastecimentos e o nome do próprio tesoureiro: "A mula da cooperativa, a mula da cooperativa, deu dois coices na gaveta". Quando a popularíssima melodia se tornou um ícone nacional a letra seria alterada para aquela que toda a gente hoje conhece.
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Faits Divers
Fatal como o destino!
Para quem já leu o meu resumo curricular pessoal não se trata propriamente de uma novidade, é apenas a confirmação de que por onde quer que eu passe, nasce a ruína e o caos... (Na foto a ex-Escola Secundária Dona Maria I que frequentei durante três anos que deixaram alguma saudade).
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Biografia
Bartoon
O grande Luís Afonso, pai do meu muy querido "Touro de Barrancos", cartoonista emérito, mais Mac user do que eu sou capaz de ser benfiquista e uma das pessoas que me faz o favor de ser mais do que um cliente, veio numa das suas visitas a Lisboa visitar-me o que é por si só um prazer. Creio que nunca o terei publicado neste blog mas o Luís Afonso permitiu-me um dia ter o prazer de ver assinado "a meias" um dos seus cartoons, que como não poderia deixar de ser, é sobre Mac.
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Biografia
Esta estranha vontade de ser espanhol
Porque é que eu tenho a inabalável suspeita de que no dia em que houver uma emergência numa estação de Metro e a turba rompa em estampido em direcção à saída, vai haver uma desgraça maior nas cancelas do que na emergência propriamente dita?
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Cidadania
Prova de vida
Ontem tomei um medicamento novo para mim. A bula recomendava que os tomasse antes de dormir para prevenir distúrbios visuais e ou perdas de consciência. Esta gente devia tomar em consideração que depois de ler uma coisa destas um tipo não dorme à espera dos distúrbios e quando finalmente adormece não sabe se pegou no sono ou desmaiou...
P.S.- Foi o primeiro post feito a partir de um iPhone. Não recomendo a experiência.
P.S.- Foi o primeiro post feito a partir de um iPhone. Não recomendo a experiência.
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Biografia
29 julho 2008
De pé oh vítimas da fome!
Como é que é possível que o Director de um grande projecto comercial português não saiba o que é uma factura vencida? Como é que é possível? O defeito será meu?
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Pérolas
28 julho 2008
O Gaspar
Descobri no blog do Neca a história do Gaspar, um roaz corvineiro que se tem divertido que nem um mamífero a socializar com meia Europa atlântica e lembrei-me do Agostinho, um rato que vivia numa fonte de alimentação de um CPU de um cliente. Isto foi no tempo em que uma fonte de alimentação de um CPU tinha espaço para albergar uma família de humanos (se tivessem leques no Verão e se se apertassem um bocadinho) e os clientes tinham tempo, grão e paciência para pegar no Agostinho e metê-lo no bolso quando os técnicos de hardware tinham de fazer manutenções programadas. Lembro-me de que o Agostinho durou três anos e que era preciso avisarmos das visitas de serviço e levar bocados de queijo. O sacana nunca me mordeu, talvez pelo queijo ou pelo bom feitio. No dia em que lhe retirei o cadáver electrocutado de dentro da fonte, tive pena do Agostinho e do seu tratador. Nunca mais tive um Agostinho na minha vida, mas tive muitas baratas em fontes de alimentação. Só que nunca lhes levei queijo.
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Faits Divers
27 julho 2008
Uma coisa em bom
Tenho uma memória auditiva extraordinária. Assim, sem peneiras, classifico-a logo de extraordinária para desanimar qualquer pessoa que se apresente à compita e ainda dou de avanço caso seja necessário. Sou capaz de falar com alguém por telefone e depois de o escutar uns míseros segundos reconhecer-lhe a voz e tratá-lo pelo nome próprio sem me enganar mesmo que não fale com a pessoa há cinco anos. Nunca percebi de onde veio esta habilidade que nunca a treinei mas que isto é fora de comum, lá isso é, não me lixem, a prová-lo estão muitas pessoas que me perguntam "Sabe quem fala?" e a quem eu respondo que sim, mesmo que todas as rodinhas dentadas do cérebro estejam à beira da desintegração física por sobreaquecimento. Deve ser para provar a teoria da compensação universal de qualidades e atributos também conhecida pelo "Deus fecha uma janela mas abre logo uma porta" e se assim não é será porque o Criador odeia correntes de ar o que me parece demasiado picuinhas para um ser que bem podia ter inventado o ar condicionado universal. Tenho uma memória visual péssima. É rara a semana em que não há alguém que me cumprimenta com ar de enorme familiaridade e ali estou eu, tacanho, a tentar ler-lhe os sinais, a conferir fichas mentais, a transpirar por dentro e por fora, porque raramente consigo atinar-lhe com a graça, mesmo que seja a Graça ela mesma, que diz o fado que é tão bela que é tão boa, que até é pecado um tipo não conseguir consumar a identificação. É péssimo, faço interiormente imensas figuras tristes mesmo que cá fora mantenha a serenidade dos sábios e lhes faça uma festa como se o meu interlocutor tivesse sido resgatado de perigos mil e eu estivesse fartinho de lhe conhecer o primeiro e último e quem sabe todas as outras partículas do assentamento baptismal. É uma pena que assim seja. É aborrecido. Quase sempre só para mim que em trabalhos mil me vejo por vezes, tentado quase sempre a mandar cumprimentos a pessoas que ou já morreram ou nunca existiram, dizia apenas tentado que a prática destes momentos de interrogação suprema já me calejaram para múltiplas situações do género. Procuro que seja a pessoa com quem falo e não consigo reconhecer a dar-me pistas. Pareço um burlão primário desses que nada sabendo sobre a vítima a levam a entregar os pontos, o ouro e a informação. Resulta na maior parte das vezes mas alturas há em que o resultado roça o desastre. Como um tipo que encontrei centenas de vezes num dado ano e que no primeiro encontro me inquiriu com particular detalhe sobre o estado de saúde de noventa por cento da minha família que parecia conhecer com enormes pormenores. Que sim, que estavam todos bem, mesmo uma tia que haveria de falecer poucos dias depois em condições que haveriam de me fazer pensar no assunto durante muitos anos. Despachei-o, despachei-o literalmente em poucos minutos, respondendo com evasivas e frases neutras pensando sempre que ele haveria de se perder nos caminhos das nossas vidas e que dificilmente o voltaria a encontrar. Azar dos Távoras, acabei por me cruzar com ele durante centenas de outras vezes, o festival miserável da minha figura a perguntar-me quem seria a criatura, dia após dia venham de lá esses ossos, eu a desfazer-me em banalidades e frases curtas, a fugir para os últimos lugares do autocarro na esperança de que ele não me seguisse e a tortura assim terminasse. Inquiri a família, fiz retratos robot, levei ao local habitual uma pessoa de família na esperança de auxílio ou solução para o puzzle, mas desgraçadamente nunca consegui saber quem era o gajo. É claro que esta situação só se gera porque eu me sinto absolutamente incapaz de confessar à primeira a minha ignorância sobre a pessoa, parece-me mal, assim como assim são só uns minutos, longe de imaginar estava eu que aquela alma haveria de apanhar durante um ano inteiro o mesmíssimo autocarro que eu, capaz de levar um tipo à loucura, assombrar-me os sonhos ou fazer repercutir o trauma pela vida fora em aspectos onde menos se espera que surjam. E convenhamos é muito chato ao terceiro ou quarto encontro confessar-lhe que afinal não tenho a mais ténue ideia de com quem falo, é uma espécie de armadilha que eu mesmo monto e na qual enfio não o pé mas a cabeça e ainda sou mocinho para apertar o nó. Todos temos os nossos esqueletos no armário, aqueles que dizem não ter é porque os arrumaram muito bem, é apenas uma questão de procurar com mais cuidado. Acabei de voltar do café onde fui cumprimentado por um tipo que me interpelou como se tivesse feito a tropa comigo mesmo levando em conta que apenas fiz oito horas de serviço militar. Tratou-me pelo nome, pediu-me desculpa de não me cumprimentar com a mão direita porque a tinha suturada com largas dezenas de pontos e foi capaz de me contar a história da operação, da anestesia ao dreno, o que levou à vontade vinte minutos. Durante todo esse tempo, enquanto revolvia o açúcar no fundo da chávena e poucas vezes um café foi tão bem mexido, eu perguntei a mim mesmo "Mas quem diabo é este cromo?". Quando dei pelos vinte minutos lembrei-me de que o ponto de não regresso já tinha sido ultrapassado, já é impossível dizer a um tipo a quem conhecemos os tendões por dentro "Desculpe lá, mas você chama-se como?". Uma vez mais fiquei danado pela minha própria impotência mas principalmente por ele me ter dito "Eu ainda não fui lá levar-lhe aquilo. Não é desleixo, mas é porque quero levar-lhe uma coisa em bom...". Assim seja.
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Biografia
23 julho 2008
Lá vai Serpa lá vai Pias
"Então, como está? Gostou de Cuba?". Olhei-o surpreso. "Quem, eu?". Ele acenou afirmativamente e eu fiquei ainda mais baralhado. "Mas eu não estive em Cuba...". "Ai não? Eu nem o quis incomodar uma vez que você estava acompanhado e quando lhe quis ir falar já não o consegui encontrar." Tentei desfazer o equívoco, garanti-lhe que nunca estive em Havana mas ele não estava absolutamente nada convencido. "Aquilo é que são umas mulheraças, pá!" disse-me ele enquanto me dava uma palmada amigável nas costas e me piscava o olho de modo cúmplice.
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Biografia
Modus vivendi
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Pérolas
22 julho 2008
Stercus accidit
Enquanto houver homens e gadgets haverá acidentes insólitos e desesperantes. Em quase vinte e três anos de informática já assisti a múltiplos desastres que só são hilariantes porque aconteceram a outros. Já vi telefones recuperados de sanitas menos próprias, iPods que desceram oito andares em queda livre, filtros de piscinas repletos de aparatos tecnológicos (e três dentes!). Hoje registo um iPhone de primeira geração que foi pescado de dentro de um bidon de gasolina. Funciona, mas ficou com uma bela camada gordurosa no interior do vidro.
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