20 outubro 2005

Alma minha

Z. foi a um sarau de poesia. Eu, que nunca fui a um sarau de poesia, achei a ideia engraçada. mas Z. vinha decepcionado. Z. é professor de português numa comunidade de toxicodependentes e zangou-se por ver alguns conhecidos sonetos mal lidos pelos "diseurs" e pior ainda, alguns alterados em género e número, singulares que eram plurais e vice verso (não, não me enganei).
-Vê lá tu, até o Camões deve ter dado uma volta no túmulo ao ouvir um viciado em drogas leves a ler "De erva vos mantendes em vindo o verão"!

14 outubro 2005

O que seria de mim sem ti?

A. percebe tanto de informática como eu de física nuclear. Mas a vida é assim e pouco há a fazer, quis o destino cruel que A. fosse ocupar um lugar de destaque na indústria informática nacional. A. ganhou uma assistente para seu serviço e quis como é natural que a assistente estivesse pronta a fazer o seu serviço o mais rapidamente possível. Logo por azar nessa semana teria de partir em viagem para o estrangeiro. A. tratou de tudo diligentemente. Mandou P., o IT Manager em part-time abrir uma conta de email nos servidores da empresa. Era tudo quando bastava para começar a ser assistido. Logo trataria das primeiras tarefas através de correio electrónico. Partiu em paz, um senhor o acompanhou mas isso nem vem ao caso. Chegado ao estrangeiro estranhou a falta de notícias. Telefonou a B. um simpático colega a quem incumbiu de pressionar P., o IT Manager no sentido de colocar a assistente ao serviço o mais urgentemente possível. Que ela precisava de ter o seu email configurado. B. assim cumpriu e pressionou P. tanto quanto possível. P. irritou-se e devolveu a B. a pressão. Que já tinha feito tudo quanto era necessário, aberto conta, fornecido password a A. Mas A. não estava na empresa, que P. tinha que repetir a informação da password. Ainda que a contragosto, P. assim fez e para se libertar da tarefa, resolveu até configurar o email da assistente. Assim fez. Tudo configurado e pronta a assistente a assistir. A assistente sentou-se e premiu o botão "Get mail". Lá estava uma mensagem de A. Uma primeira mensagem A. Leu e sorriu.
"Bom dia! A password da tua conta de email é...

11 outubro 2005

Multibanco

Escarranchado na anca da mãe, o miúdo aplicava fortes palmadas no vidro protector do ecran do Multibanco. Os componentes da fila observavam apreensivos as consequências do acto, quem sabe se preocupados com a aparente inevitabilidade de ter de procurar outra máquina se esta se recusasse a trabalhar mais. Um idoso encetou uma atitude paternalista e abordou a criança. "Olha, lá dentro está um senhor que vem cá fora e dá-te umas palmadas se tu continuas a bater no vidro!". A mãe, ocupada com as operações de digitação, nem se voltou e com isso conseguiu apenas fazer arquear ainda mais as sobrancelhas dos circunstantes. "Olha que ele vem cá fora! Olha que ele não gosta que lhe batam no vidro!". O miúdo prosseguiu, aparentemente até com mais vontade... Parou, para satisfação do velhote que mirou em volta com ar de vitória. Mas o puto tinha ainda uma palavra a dizer:

"Tu não sabes que não há homem nenhum lá dentro? Tu não sabes que aquilo é um computador? Caraças! Não p'cebem nada!"

02 outubro 2005

Cheio de penas me deito

A. tem pena de tudo. A. compadece-se de todas as pessoas em todas as situações e é um coração de ouro. Já tinha percebido isso em muitas situações, mas hoje roçou o exagero durante um filme de, imagine-se, Van Damme. A. ficou visivelmente incomodado quando o artista, antes de iniciar uma vertiginosa perseguição automóvel, apontou uma pistola a um condutor para lhe poder usar o carro. "Coitado, já viste isto? Está uma pessoa sentada descansadinha ao volante e fica sem carro assim de um momento para o outro?". Preciso de ter uma conversa séria com A.

Vantagens

Raquel avança para mim ufana, de braço direito estendido, no qual noto uma enorme placa metálica que lhe sobressai do gesso e das ligaduras. Então, o que fizeste ao dedo? "Parti-o ontem". Foi com certeza na brincadeira, não? "Foi, cairam-me em cima da mão". Faço-lhe uma festa, a coisa não parece preocupante. "Mas, sabes, tive muita sorte..." Ah sim? Tiveste? "Sim, tive sorte em ter sido o braço direito, durante semanas não vou fazer trabalhos de casa!"