27 fevereiro 2006

O Acácio

O Acácio

Esta é uma história de terror, fica desde já prevenido o leitor para que se não venha queixar posteriormente. É a história de um homem que aterrorizou centenas de inocentes crianças e nunca foi preso, nem sequer uma vez interrogado pelas autoridades a respeito desta matéria. Esta é a história de um homem que já morreu mas cuja terrível memória está profundamente vincada no subconsciente de miúdos e graúdos (mais nestes últimos, entre os quais me perfilo) e dessa fama se nunca livrará, assim eu a saiba escrever com rigor e sentimento, sendo que deste último, o sentimento, caso já se tenha esquecido do que acabou de ler, jamais se desvanecerá da minha mente enquanto eu conseguir sentar-me a uma mesa para comer. Sei que não estou só, sei que um exército de vítimas deste homem se escondem nas sombras do que não querem lembrar de novo, alguns já homens feitos que não vacilam (nem a tal se atrevem!) perante um prato a transbordar de ervilhas ou de outros vegetais não menos repugnantes.

O Acácio era um negociante de adubos e demais fertlizantes. Personagem rural, de enormes botas de cano em borracha negra, era facílimo cruzarmo-nos com ele em qualquer ponto da freguesia. Trajava de acordo com as necessidades da sua profissão, com uma enorme capa de lona pelas costas ou com uma saca de sarapilheira em capuz que o protegia da chuva quando era época da mesma. Acácio tinha um facies hirsuto, que só desbastava aos Domingos, dia em que se aprumava para os ofícios religiosos, apesar de nunca o ter contado entre os seres tementes a Deus. Pouco importa. Ver a sombra de Acácio a descer a rua era o suficiente para me colocar ao fresco rapidamente, mesmo que a personagem estivesse ainda demasiado longe. Uns óculos grossíssimos ajudavam a compor o conjunto da sua cara, encimada por uma sempriterna bóina negra. O Acácio (Senhor Acácio quando alguém lhe dirigia a palavra), estava longe de ser popular entre a criançada da aldeia e quando dirigia a palavra à miudagem, e só o podia fazer àqueles que, por uma razão qualquer se não tivessem conseguido escapulir a tempo, gerava autênticas crises de choro e ataques graves de ansiedade. Falo por mim e tenho a certeza de que por todos os outros...

Sendo comerciante de adubos, numa aldeia onde os automóveis ou meios de carga motorizados se contavam pelos dedos da mão de um lançador de foguetes que tivesse perdido o treino, Acácio estava constantemente a transportar enormes sacos de 50 Klgs. de adubo (Foskamónio, para verem como nunca o esqueci), ajoujado ao peso, subindo e descendo ladeiras, sempre com a sua capa ou sarapilheira. Fugir da presença do Acácio era bastante mais simples nessas alturas por razões que são agora óbvias. Acácio percorria atalhos que conhecia como a palma das suas mãos e a maioria dos meus percursos pedestres era calculado de forma a evitar-lhe as rotas ou os caminhos prováveis da próxima entrega de adubos.

Todo este medo me foi incutido pela Maria Fernanda e Maria de Lourdes, minha mãe e minha tia respectivamente, e servia de arma perante as minhas relutâncias em engolir feijões, couves ou saladas. Não era uma ameaça qualquer, ambas estas queridas criaturas se serviam do mesmo tema quando havia problemas à mesa.

"Não comes isso e eu chamo o Senhor Acácio!" era, digamos, a bomba atómica dos problemas de nutrição. Garfadas de comeres menos apetitosos eram manejadas com destreza, gorgomilos abaixo, colheres de sopa menos eleita entre os deliciosos líquidos que faziam (e que ainda hoje fazem, Deus lhes dê anos e anos de panelas de ferro!) desapareciam pelo esófago, fosse qual fosse a temperatura do menu.

Éramos constantemente avisados dos perigos que corríamos ao não comer tudo até à última migalha. Lembro-me muito bem da Maria de Lourdes de colher em riste na mesa da casa do meu avô, me informar com um ar absurdamente sério dos graves riscos que corria...

"Tu sabes o que é o Senhor Acácio leva dentro daqueles sacos?" Não me lembro de lhe ter respondido, nem ela esperava resposta porque ainda agora a minha desgraça se iniciava. "Aqueles sacos grandes e pesados vão cheios de meninos que não querem comer!". Devo ter pedido mais detalhes sobre o destino dos bojudos sacos e ouvi-os em absoluto medo. "Ele leva os sacos para Tomar e quando chega à ponte da Praça - quem conhece Tomar sabe com pormenores do que estou a falar - , atira o saco ao rio e os meninos morrem afogados!". (Tenho esta conversa tão presente, e eu devia ter uns cinco anos, que me recordo de ter argumentado que os meninos se livrariam dos sacos, nadando para terra). "Ele cose os sacos! Ele cose os sacos!".

Escusado será dizer que risquei de imediato o Acácio da minha lista de contactos sociais. Sei que tentei verificar a história, com imensos cuidados, perguntando à Mabília, visita regular das lides agrícolas do meu avô se o Acácio era mesmo o transportador de meninos de que tinha ouvido falar.

Deve ter sido o primeiro complot que me moveram... Toda a aldeia usava o mesmo subterfúgio, uma espécie de conspiração do terror. "Uiii! Tu tem cuidado, Pedro, olha que se não comes elas chamam o Acácio". Não me dei por vencido, fui indagando entre amigos e conhecidos e cheguei a provocar uma crise de choro no meu compincha Carlitos que apesar da sua deficência mental me parecia mais lúcido que eu. Parecia ser mesmo verdade e o melhor era não desafiar quem me mandava comer. (Um dia vi o Acácio coser a boca de um enorme saco de adubo, sentado à porta da sua casa e aí devo ter finalmente consolidado a gravidade da situação!).

O Acácio morreu há alguns anos. Que descanse em paz. No dia em que me comunicaram a sua morte, o meu primeiro pensamento não foi para a sua memória, foi para um prato de favas, prato que abomino para lá de qualquer descrição ainda hoje e que a lembrança do Acácio não me conseguirá fazer engolir alguma vez...

25 fevereiro 2006

After Hours


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24 fevereiro 2006

Today we have no bananas...

Pedem-me ajuda, pedem-me ajuda com muita frequência os alvos de assaltos, roubos, perdas e tresvarios de computadores Apple. Pedem-me um milagre, o da recuperação de bens e dados. Começa a ser uma ocupação de tempo significativa porque são cada vez mais frequentes (sinal dos tempos) estes incidentes, mas ao mesmo tempo começa também a ser frequente detectar sinais de máquinas "quentes". Como imaginam eu não tenho por profissão a de polícia ou investigador, mas, consequência do facto de ser detentor de uma vastíssima rede de contactos de utilizadores Apple e também da especificidade do mercado de tamanho reduzido, começam a ser raras as semanas desocupadas destes assuntos. Foi o caso de hoje. Um Wallstreet e um iPod na mesma "fornada". Alguém que quer saber se há registos de roubo. Há, foi participado há meses atrás. Vou ver a ficha do queixoso e a pessoa nunca se deu ao trabalho de me confiar alguns dados primários que lhe são pedidos quando do registo na Mailing List "O Correio dos Outros". Tenho um email e tento o contacto. O utilizador mudou de endereço e nunca se deu ao trabalho de comunicar a alteração. Não tenho um número de telefone... Procuro no correio electrónico a resposta ao registo inicial na Mailing List e encontro uma mensagem em que o subscritor me pergunta, zangado, "Para que é que você quer dados meus? Acho isto um abuso!". Eu também acho...

A pessoa que me contactou, diz-me que vai tentar ganhar algum tempo com os produtos roubados na esperança de que o lesado se manifeste. Digo-lhe que por mim não posso fazer mais nada e que me desligo do assunto. Com pena, mas milagres não posso fazer...

23 fevereiro 2006

Irmãos?

A revista "Ilustração Portugueza", publicou-se em Portugal de 1906 a 1924. Era um título importante na época e à falta de tecnologia fotográfica (tenho algumas dezenas de exemplares em que as primeiras fotografias apenas foram publicadas no final da Primeira Grande Guerra), as páginas eram profusamente ilustradas manualmente por grandes profissionais do desenho. Hoje, nas minhas rondas de blogs, deparei com uma capa absolutamente surpreendente, numa das entradas do Lisbon Giraffe.

São rosas, Senhor! (Outra vez?)

Elisabeth is perhaps best known for the legend which says that whilst she was taking bread to the poor in secret, her husband asked her what was in the pouch; Elisabeth opened it and the bread turned into roses. Whilst impressive, this story has no basis in fact. This miracle is commemorated with a statue in Budapest, in front of the neo-Gothic church dedicated to her at Roses' Square.

Desiluda-se o caro leitor se pensa que o trecho acima tem a ver com a Rainha Santa Isabel, esposa de D.Dinis. Chamava-se Elizabeth, era Rainha na Hungria e nasceu uns míseros sessenta e quatro anos antes da consorte de "O Lavrador". Está tudo aqui na Wikipedia
e eu estou profundamente decepcionado com o que andei a aprender nos bancos de escola. Qualquer dia dizem-me que o Pedro Álvares viajou em "low cost" para o Brasil...

22 fevereiro 2006

Li algures...

Um homem rico estava muito mal. Pediu papel e pena. Escreveu assim: Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do padeiro nada dou aos pobres.

Morreu antes de fazer a pontuação. A quem deixava ele a fortuna? Eram quatro concorrentes.

1) O sobrinho fez a seguinte pontuação:
Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho.
Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

2) A irmã chegou em seguida. Pontuou assim o escrito:
Deixo meus bens à minha irmã. Não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

3) O padeiro pediu cópia do original. Puxou a brasa pra sardinha dele:
Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho?
Jamais! Será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

4) Aí, chegaram os descamisados da cidade. Um deles, sabido, fez esta interpretação:
Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho?
Jamais! Será paga a conta do padeiro? Nada! Dou aos pobres.

21 fevereiro 2006

You'll never walk alone

The Reds spent the remaining minutes looking for the one chance which could create a pricless equaliser, but time eventually beat them and the sound of the Austrian referee's whistle signalled a disappointing night for the Reds as they lost on the road in Europe for the first time in ten games.

"E julgareis qual ser mais excelente,
se ser do mundo rei, se de tal gente"

There have been plenty of passionate atmospheres this year, from Anfield in the later stages of the European Cup to Windsor Park when England were sensationally beaten, not forgetting the even more unbelievable events in Istanbul. Turkey apart, the most memorable moment was that huge eagle soaring above the excitable crowd in the Estadio da Luz before Benfica v Manchester United 10 days ago. I just wasn't expecting that. It was superb. The Everton toffee lady and that bloke with the hunting horn at Leicester need to be warned: the bar has been raised.

In "Observer Sport's Best Best Moments of 2005"

20 fevereiro 2006

Oportunidade para programadores!

Se você é um jovem programador, daqueles que me escrevem a pedir palpites e opiniões sobre novos projectos, faça o favor de responder a este anúncio! Pode estar uma fortuna à sua espera... (in Jornal do Fundão)

19 fevereiro 2006

O Suave Milagre

Tenho um enorme respeito pelas convicções religiosas cristãs nas suas abordagens mais simples, as da fé. Mas momentos há em que o "nonsense" me faz rir como foi o caso de uma das entrevistas de Helder Reis em plena esplanada do Santuário de Fátima. A entrada da urna de Lúcia de Jesus, a manifestação popular do "Adeus" faz com que os jornalistas tentem arrancar algumas opiniões aos fiéis presentes. Fiéis, que num momento de emoção têm enormes dificuldades de expressão oral. Helder esforça-se e entrevista em rápidos flashes uma meia dúzia de pessoas. À última dirige uma questão: "É difícil ter palavras para descrever o que se sente, não é?". O visado, um homem de alguma idade, esbraceja e emite alguns sons com evidente dificuldade. Desatento, o jornalista insiste. O homem é mudo.

17 fevereiro 2006

Li algures...

Delicioso o episódio relatado ao Diário de Notícias por Waldir Araújo, escritor guineense a trabalhar em Lisboa que numa conversa com o seu idoso pai, lhe disse a dada altura: "Pai, tenho um blog!". Preocupado, o pai respondeu "Diz-me que não é maligno...".

15 fevereiro 2006

Li algures...

O Zé comprou um revólver. Disse-me que não era grande espingarda.

14 fevereiro 2006

A luz e o escuro

"Eu, que depois de ir à casa de banho, dormia que nem um santinho toda a noite, agora não, acordo quatro e cinco vezes, coberto de suor, as mãos geladas, tem sido um inferno...".

Mas já foste ao médico, pergunta V. ainda de sobrolho carregado pela discussão da luz e do escuro. "Não, não fui, creio bem que não valha a pena..."

Como assim, não vale a pena, pergunto eu, tentando conter o riso que ainda me sufocava da conversa anterior. "Tenho exactamente quarenta e cinco dias de vida!".

Ai sim, pergunta V. de olhos arregalados. Isso quer dizer que já cá não estás pela Páscoa e já não pagas o jantar? "Não, não devo estar, é como te disse, os últimos dias de Março vão ser um inferno...". Cheguei a pensar que estava perante uma piada colectiva, mas começo a ter certezas em vez de dúvidas, alguém está profundamente convencido de que vai morrer. "Como é que eu posso dormir se a cama me arde?".

Espera lá, vai lá mais devagar, explica-me lá o que raio se passa. "Foi uma cigana, pá, uma cigana maldita que me disse...". "Eu, há umas semanas ia pela rua, ia almoçar, uma cigana pediu-me ajuda para colocar um caixote grande dentro de uma carrinha. Ajudei-a, ela pediu-me a mão para me ler a sina. Havias de ver a cara dela quando me pegou na mão, disse-me logo que eu só tinha quarenta e cinco dias de vida...". Ah, bom, está explicado, isso foi quando? "Há mais ou menos quinze dias...". V.. não faz por menos, mete a mão ao bolso e da carteira retira um calendário. Pede uma esferográfica e vai traçando bolinhas à volta das datas. "Não estou a brincar", diz V. enquanto me pisca um olho, "Estou apenas a ser teu amigo, vamos ver exactamente quantos dias te restam...". Para meu espanto, aquele que há-de morrer daqui a um mês, chora. Chora. Como se a dor da despedida saisse logo ali, impelida pelas bolas riscadas no calendário.

"A coisa é séria V., não o assustes mais que não é preciso...". "Depois dela me ter dito aquilo só me têm acontecido chatices, pá!". "Caí da mota, o gajo da Family Frost ia-me matando, o meu patrão deu-me há dias um raspanete do catano e agora é a minha sogra que diz que não anda nada bem...". Tento desfazer o ambiente pesado que se gerou, enquanto V. continua a riscar bolas dos dias já passados. "Agora, só tens de riscar uma bola por dia! E olha que para o fim de Fevereiro já falta pouco e tens menos dias!". Só agora o morto que há-de ser tomou consciência do tamanho de Fevereiro. Continua a chorar, um choro absurdo como só vi neste caso. V. mete-lhe o calendário no bolso da camisa. "Tu não me faças isso pá, tu não me faças isso!". Mete a mão ao bolso para tirar o calendário, mas os nervos não lhe permitem alcançá-lo. Sou eu mesmo que o faço, disposto a terminar a brincadeira. Olho para a face impressa do rectângulo de papel e desato a rir. É um calendário de uma funerária. "Como é que eu posso dormir se a cama me arde?".

12 fevereiro 2006

Como é que eu posso dormir, se a cama me arde?

Esta é a auto-denominada de extraordinária história de um homem a quem só restam supostamente quarenta e cinco dias de vida e de outro alguém para quem os acidentes têm uma fácil explicação. Esta é também a história de gente simples, ingénua mas feliz, à sua maneira, com quem emparceiramos as nossas vidas nem que seja por alguns minutos e que gostamos de registar. Esta é a suposta história de filósofos de balcão, a quem a cerveja alimenta os sonhos e inflama a esperança. Estas são as histórias de quem nos faz num primeiro momento rir, e mais tarde meditar no que somos, no que fazemos e ao que aspiramos. Mesmo que entrelaçadas como espirais de ADN, são as vidas que se nos oferecem. E que aceitamos ou não consoante a vogal disposição.

Um acidente náutico, um barco que abalroa outro, chiar de chapa e fibra em pleno Tejo, esse rio a que regressamos sempre. Para eles, que lhe sentem o frio e o medo, é um mar. Um mar a que teimam tabém eles em regressar, apesar do frio e dos medos. Uma noite de breu, um monitor de radar que não se espreita, vá-se lá saber porquê, o acidente que ocorre sem que as culpas não sejam claras, seja pelo breu seja pelo combate dos mestres das embarcações que há anos se degladiam em tribunal. O juiz da causa, o pobre, que parece tão entalado entre as chapas dos cascos como os pneus no cais de amarração, parece uma bóia maluca a quem partiram o cabo e não é capaz de destrinçar uma manobra mal feita, que as leis da água são um pouco diferentes das dos parques de estacionamento. É isso que irrita V., piloto de rebocador, que não percebe porque é que as culpas não são atribuídas ao outro, enquanto o outro, que não conheço, deve pensar precisamente a mesma coisa com a diferença que quer que as culpas recaiam num. Há dois anos que ouço falar disto e já não passa de um faits-divers da história da navegação marítima.

Mas as histórias recorrentes são como as marés, sucedem-se inevitavelmente e a rebentação sempre nos salpica com a espuma das memórias de marés já vazadas. "Eh pá, quando o vimos no meio do nevoeiro já nada havia a fazer, máquinas a toda a força à ré e rezar para que o outro não se parta ao meio, foi muita sorte que viesse vazio e a meia força, quando não sabe-se lá se estaria aqui a contar-te a história...". Já a ouvi dúzias de vezes, já escrevi sobre ela mas isso agora é de somenos, eu apenas estou intrigado e suspenso da decisão dos tribunais, não que ganhe alguma coisa com a douta decisão, mas se me a dão, venha ela para acabar com o suspense...

E a sentença sai quando? Ora cá está uma boa questão, velha de anos é certo, mas que ponho sempre nem que seja para ancorar a dúvida que a ribeira vai cheia e o casco não anda. "Aquilo não tem nada que saber, a culpa não é de ninguém!". Ora, aí é que deve estar a indecisão do meritíssimo juiz que a esta hora já se perguntou mais de uma dúzia de vezes porque é que não escolheu outra profissão. todas menos marinheiro ou piloto que ainda se veria de novo enredado nesta épica história do rebocador que ia atravessando o catamarã da Transtejo. Como assim de ninguém? "A gente não viu e quando percebemos era tarde!". Não era tarde, era de noite e bem escura rezam os relatos. Alguém haveria de estar de olho no radar, não era? É para isso que fizeram os radares. "Era eu, era eu, mas não o vi. E na ponte do outro haveria de estar também um par de olhos a olhar para o ecran, e estava que o outro mestre é homem de confiança e jurou-me pelas alminhas que estava, mas o que é certo é que também não me viram... Estava escuro muito escuro!". Ninguém quer aceitar a culpa, é disso que se fazem as disputas (e muitos outros insultos) depois dos acidentes, sendo que os do mar têm um sabor mais salgado por via disso mesmo e de uma solidariedade de almas que raramente se encontra noutras demandas. "Já fui ouvido uma porrada de vezes, se soubesses os dias que já perdi por causa disto, as companhias já acordaram que cada um ficava com os seus estragos, mas o Porto de Lisboa não quer dar o assunto por encerrado". Caso será para dizer que águas passadas não movem moinhos, mas alguém de bom senso me virá recordar que não falamos de barcos à vela, mas sim de rebocadores e de catamarãs, coisas que só servem para distrair o leitor do essencial, do homem que diz não teve culpa nenhuma mas que não a quer nos ombros do outro, que a vida custa a todos e esta vida de marinheiro está a dar cabo de mim e do resto da defesa de uma das partes...

"Eu já disse ao juiz: Um tipo que vê bem de dia, também vê bem de noite!". Acho isto extraordinário, alguém devia avisar as companhias de seguros deste pequeno detalhe fisico. Mas onde queres chegar com isso? "É que é mesmo assim, Pedro! Um tipo que vê bem de dia também vê bem de noite!". Venha mais uma cerveja que isto está para durar... "Só o escuro é que atrapalha, o resto é igual!". Venha mais uma cerveja para me ajudar a digerir os pensamentos.

10 fevereiro 2006

Viva o momento! NOW!

Coisas que acontecem quando se pretende cancelar um contrato...

Message

Cancelamento de contrato- telefone 91450XXXX 

Exmos. Senhores, 
Por falecimento da V. cliente Maria Fernanda V**** de M****** Teles, no passado dia 28 de Novembro, queiram por favor proceder ao cancelamento do respectivo contrato, a partir do corrente mês de Dezembro inclusive. 
A mesma informação será enviada por correio, conforme carta anexa. 

Sem outro assunto, 
Alda Teles 
 

RESPOSTA


apoiocliente@vodafone.pt

Muito boa tarde, como está?
Para podermos efectuar a desactivação definitiva é necessário que nos envie uma cópia da certidão de óbito do titular.
Deverá confirmar o nº de contribuinte ou nº de conta Vodafone. 
Boas festas. Viva o momento, Now! 
Paula Santos
Apoiocliente@vodafone.pt 
Nota: Caso necessite contactar-nos novamente sobre o mesmo assunto agradecemos que faça reply deste e-mail. 

NOVO MAIL DO CLIENTE

To:apoiocliente@vodafone.ptSubject
mailto: apoiocliente@vodafone.ptSubject 
Re: Cancelamento de contrato- telefone 91450XXXX

Boa tarde. estou bem, muito obrigada. A minha mãe faleceu, por isso estou óptima e vivo o momento, now! 
Agradecia que me indicasse a morada para onde deve ser enviada a certidão de óbito. 
Boas festas também para si.

09 fevereiro 2006

Surprise!

Era grande a agitação na borda do passeio. As mulheres nervosas, esbracejavam e riam-se à gargalhada. Eu tinha lobrigado parte da cena, uma centena de metros antes sem nada poder fazer. Enquanto esperava que o semáforo abrisse e me permitisse avançar, os gritos tinham-me chamado a atenção. Só vi uma motocicleta a esgueirar-se por entre o trânsito, alguém que se tentava levantar do chão e a mala, ou o que restava dela nas mãos do pendura do motociclista. Mais um episódio de criminalidade urbana a que todos nos vamos, a contra gosto, habituando. Depois de ter estacionado, passei pelo grupo que se juntara em esfusiante confraternização. Havia qualquer coisa de irreal, não é suposto as vítimas rirem-se dos assaltantes. Reparei na manga do casaco de lã rasgada, na mancha suja dos joelhos e perguntei "Magoou-se?". Não me respondeu, ou fê-lo de outra forma, rindo-se a bandeiras despregadas. "Sabe? Eu ia ali à Maternidade entregar umas amostras de urina! A mala deixei-a no carro...".

Taking no calls unless it's her voice

-E queira desculpar, doutora, para um exame urodinâmico há alguma preparação prévia que o doente tenha de fazer?
-Quando é o exame?
-Nem sequer tem data ainda, mas há alguma preparação prévia que o doente tenha de fazer?
-Mas não sabe a data?
-Não, de facto não sei, mas qual é a relevância dessa pergunta face ao que quero saber?
-Nenhuma, mas o senhor não é médico.

Não respondo. Tento aliás sorrir e agradecer aos deuses por me terem feito português.

08 fevereiro 2006

Ouvi alguém contar...

D. Dinis, filho de D. Duarte, duque de Bragança, pretendente ao trono de Portugal, dirigiu-se ao pai e disse.

- Paizinho! Sou gay.

- Não, meu filho - respondeu D. Duarte. EU é que sou Guei, a mãezinha é gainha e tu és pguincipe.

07 fevereiro 2006

A crise na construção civil

O operário de construção civil meteu enfadadamente a mão na algibeira e sacou de um telefone móvel, não sem antes ter sacudido minuciosamente algumas nuvens de poeira que repousava na pele e na roupa. Postado no passeio, ao meu lado e em voz tonitruante, interpelou o outro lado:

-Disseste para eu fazer um reboco?
-...
-Mas é para fazer como deve de ser ou é aldrabado?
-...
-Ele já pagou?
-...
-Pois... Então vai ter de ser aldrabado...
-...
-O problema é que eu acho que não tenho cá cimento que chegue mesmo para o aldrabado...

04 fevereiro 2006

Exageram

Acho um perfeito exagero quando por vezes me dizem que sou um bocado egocêntrico, mas factos são factos; há pouco estava a gravar um DVD chamado "História da minha vida", o Toast fez "Plimm!" e faltou a luz no bairro todo!

03 fevereiro 2006

Mind if I ask?

-E quanto me custaria o Word em português?
-Lamentavelmente o Word não existe em português para esta platafoma...
-Ai não? Então como é que eu escrevo, que não sei inglês?

02 fevereiro 2006

Euro Saloios!

Imagine o caro leitor que um destes dias saiu de casa e circulou pelas ruas do mundo. Lembra-se que lhe falta adquirir um determinado bem ou serviço e entra num estabelecimento, onde, delicadamente pede o bem ou o serviço. Ciente de que está no local correcto, ouve alguém do lado de dentro do balcão dizer-lhe "Não sei vender isso...". A pessoa belisca-se, quanto mais não seja para ter a certeza de que não está a sonhar. "Não sabe, como não sabe?". "Não sei e pronto!". Eu até posso entender uma falha insólita da parte de quem está de porta aberta a servir (?) o público. Não admito é que se não peça desculpa, que se tente conformar o cliente, que não haja a delicadeza mínima de tentar justificar o injustificável. É a antítese de tudo o que é racional. Aconteceu-me hoje, e garanto ao caro leitor que não estava a tentar comprar urânio enriquecido para o Irão. Era um simples registo de um boletim de Totoloto...

01 fevereiro 2006

The Brenda Stardom Report

Às vezes, quando estamos imersos em pensamentos negativos sobre o meio em que vivemos ou o país onde nascemos, somos surpreendidos por visões de outras pessoas que situadas em pontos de observação diferentes, conseguem ver o que nós, algumas vezes deliberadamente não queremos vislumbrar. Brenda, pelo que sei uma americana a residir em Braga, tem no seu Brenda Stardom Report alguns escritos que por vezes me reconfortam e reconciliam com Portugal.

"The coolest thing I saw was how the homeless were being treated. Humanely and kindly. The government ordered subway stations to be open all night so they'd have shelter from the storm, in addition to some shelters. But, that's the Portuguese. They take care of their own. I remember when Oxnard wouldn't allow the homeless into the huge empty national Guard building until the temperature reached a certain degree, despite it raining out. It's so different here."