29 junho 2006

Salão Mundial

"Vá, como se fosse uma pena. Com jeito caramba!", Eu não sei o que será feito do velho Lopes, de cigarro no canto da boca, duas mangas de alpaca e um taco reluzente na mão esquerda (sempre na mão esquerda), ele que nem canhoto era mas que insistiu comigo até à exaustão para que eu aprendesse a jogar bilhar à esquerda. Para mim o Lopes vivia no Salão Mundial, ele estava sempre lá e era a ele a quem recorríamos para discutir regras (éramos demasiado pequenos para chegar ao quadro de leis do jogo que havia dependurado a meio da sala). O Lopes zelava pelo silêncio necessário à inspiração da tacada nem que para isso fosse preciso puxar umas orelhas, mas sempre à socapa, sempre em silêncio que o Salão Mundial pedia meças a uma igreja em luz e falta de som. "Tens dinheiro, puto?". Era sacramental a questão, a malta remexia os bolsos, puxava de vinte e cinco tostões e alinhava as moedas na dobra do pano verde, junto à tabela, sabendo que se jogasse bem o milagre da multiplicação das moedas haveria de acontecer, e exceptuando algum "prego" ou bola fora do pano era-nos concedida a graça de levar mais dinheiro do que o que tínhamos trazido. "Vai para o primeiro andar, acende a luz e limpa a mesa". A protecção era a regra, a nenhum dos miúdos era perguntada a idade (cresce e aparece, pá!) se estivesse com o Lopes. "Levezinho, como se fosse uma pena. Com jeito caramba!". "Não sabes como fazer um efeito? Já perguntaste ao teu professor de física porque é que há efeitos?". (Levámos lá uma vez um professor, mas não era de Física, era de Carpintaria e o Lopes não ficou nada satisfeito). "Tu ainda não tens idade para saber, mas a bola tem de ser levada como as mulheres, com jeito e como se fosse uma pena...". Quando há pouco li que o Salão Monumental vai fechar para dar lugar a uma loja chinesa, lembrei-me dos sons, dos cheiros e do Lopes. E fui ali à prateleira olhar para um cubo de giz azul. Ao lado, deixei uma moeda de vinte e cinco tostões. Com jeito, como se fosse uma pena.

Li algures...

Um grupo de adeptos argentinos, ansiosos por assistir ao Argentina x México, quando confrontados com a inexistência de bilhetes e com os bárbaros preços do mercado negro, optou por um engenhoso expediente, o de arranjar várias cadeiras de rodas que lhes deram acesso a bilhetes destinados a lugares de deficientes. Se bem o pensaram, melhor o executaram e os doze "hinchas" assistiram ao almejado jogo. Tudo corria bem até ao golaço de Maxi Rodriguéz que fez com que dois dos adeptos saltassem literalmente das cadeiras de rodas, chamando a atenção dos "stewards" que foram implacáveis. Faltou-lhes, quem sabe o jeitinho português de gritar "Milagre! Milagre!" que teria talvez obviado a expulsão do grupo de dentro do estádio...

28 junho 2006

Às ordens

"E no Sábado, como é? Ganhamos?". Não sei, não quero arriscar palpites, tenho medo de me decepcionar. Vamos devagar, devagarinho, as coisas têm corrido bem, se eu não me mostrar demasiado interessado talvez ganhemos, quem sabe? Não foi isto que eu lhe disse, apenas pensei, torci o nariz mostrando a minha falta de crença, quem sabe os deuses contrariam-me e ganhamos só para eu ficar contente contra a corrente do pensamento. À minha frente está um homem de noventa e três anos, que para mim só tem noventa e três anos desde as oito e meia de Domingo passado, porque não acreditei que apesar da bengala, do olhar baço e da notória dificuldade em mover-se, aquele corpo tivesse já quase um século de vida. "Ganhamos, Domingo ganhamos!". Despediu-se da forma costumeira, a mão na pala do boné surrado, mas voltou atrás para justificar a crença. "Quando eu era rapaz novo, mestre de um batelão em Alcântara, a malta ganhava muito mal. Doze escudos à semana! O que nos safava, o dinheiro que rendia, aquele que se via vinha das horas. O patrão dizia Oh Manel, esta noite ficas às ordens e a gente não sabia quando despegava do serviço. Nos fins do mês era um problema. O dinheiro faltava e eu calhava-me sonhar que no dia seguinte ficava lá às ordens. Era certinho, no dia seguinte calhava-me a mim e que ladino eu ficava!". Pergunto-lhe se já sonhou esta semana. "Não, mas garanto-lhe que Sexta Feira vou para a cama mais cedo para que o sonho me encontre, não queira ele aparecer e eu ande na vadiagem...". Ele sai do meu espaço e eu fico a pensar que não podemos perder com tamanha fé.

27 junho 2006

A rolha

... e foi ao abrir da rolha do frasco, um simples frasco de um perfume de cuja existência nem sabia, que me lembrei de ti. Foi como se ali estivesses, abrindo e fechando gavetas dizendo "Eu iria jurar que sabia onde é que as pus...", comigo a gozar o teu despassaramento e a fingir que as procurava, rodando as chaves no dedo, e o despassaramento a vestir-se num lamento "Oh... Podias ter dito...". Já sei onde te revisitarei sem a culpa fria das lápides. Rodarei as chaves no dedo enquanto penso "Oh, podias ter dito...", Depois, quando te quiser guardar, fecharei o frasco de cuja existência eu não sabia e a tua memória vai, a pouco e pouco desaparecer e espalhar-se pelas nuvens que vejo da janela

25 junho 2006

Metadona para viciados em celulose

Se você é daqueles (ou daquelas) que, como eu, recorre a pesquisas em publicações online e que passa horrores para saber onde encontrar um link para jornais regionais que já usou mas não sabe onde o meteu, descanse. Aqui, você encontra até jornais do Burkina Faso.

24 junho 2006

Some like it hot

"Passas-me a fita-cola, amor?" O tom melífluo de um matulão de barba fez-me virar a cabeça, não só pela sonoridade, muito mais pelo insólito do único amor que os meus horizontes abarcavam ser um outro homem, não tão impressivo em tamanho mas não menos másculo pelo menos aos meus olhos, se é que os meus olhos me não enganam. Logo a mim que lhes gabava pelos gestos à distância enquanto a minha cabeça tentava recordar-se de heróicos tempos a colar cartazes. Ui, que há quantos anos não colo cartazes, não que isso seja importante, são outros os tempos, muito diferente o ardor de gritar ao mundo que a revolução estava na rua. Aos meus olhos são outras as revoluções, algumas que professo e subscrevo, outras que nem por isso... Aperto contra o meu corpo o amachucado jornal da tarde, descendo um Carmo que já não é o mar de antanho. Ninguém cola cartazes com fita-cola! Seja como for, acreditem ou não, a revolução está na rua.

...

Ela, de quem eu desconfiei de ser um ele, entrou na estação com um andar demasiado bamboleante. Escrutinei-lhe o cabelo que me pareceu demasiado brilhante, a base quanto baste que me soou a disfarce. Apenas os dois na estação abafada. Sentou-se, alongando em exagero as pernas embrulhadas em meias que noutra pele passariam incólumes. Há uma troca de olhares, se os meus olhos me não enganam, logo a mim, um sorriso esboçado, não sei que te diga não me és confortável, tanto banco, tanto espaço e vens desafiar-me logo a mim, que verdade seja dita aqui não há mais ninguém. Abro o jornal amachucado sem o ler, estou apenas a fugir ao incómodo e os meus olhos acabam por escorrer para a margem esquerda, mente a descrição, procuro-lhe as pernas em busca da verdade que não me é trazida de bandeja. Os pés, demasiado grandes, demasiado apertados em finas tiras do corpo de uns sapatos de salto assinam e carimbam a traição porque nervosamente dobra as pernas e os esconde debaixo do pequeno banco. Agora sou eu a sorrir, enquanto fecho o jornal que nunca quis ler e me levanto. Ele suspira, abre a mala nervosamente dela extraindo um pequeno estojo que penso ser de maquilhagem. Fala sozinho sabendo que o ouço. "Que pena...".

The flying dutchmen

Second hand smoke kills

23 junho 2006

British humour

E se um dia, um tipo viciado em Football Manager se candidatasse a um cargo de Manager de um clube profissional inglês (Middlesbrough) com um CV absolutamente delirante e recebesse uma resposta não menos brilhante?

Li algures...

"Every morning in Africa, a gazelle wakes up. It knows it must run faster than the fastest lion or it will be killed. Every morning a lion wakes up. It knows it must outrun the slowest gazelle or it will starve to death. It does not matter wether we're a lion or a gazelle. When the sun comes up, we better start running."

Beba-me, o meu texto é piroso!

"...Consta que, em tempos longínquos, um cavaleiro percorreu terras lusas a caminho de Santiago. Enfrentou perigos e tormentas, bandidos e homens de má fé dedicado a seguir os caminhos da cruz (fico sem saber quem é que ia seguir os caminhos da cruz...). Cansado e doente, terá encontrado um velho eremita que lhe disse: Sei o que procuras; vai ao lado norte, ao fim do vale e planta estas sementes no Monte Maior; e dos seus frutos nascerá a escrita da própria vida. O cavaleiro assim o fez, e ainda hoje se cultivam as vinhas dais quais se elabora esta bebida privilegiada, que agora trazemos até si."

O que é que se passa com as empresas de vinhos e com os tipos que escrevem textos para os rótulos? (Monte Maior 2004 - Rui Nabeiro)

22 junho 2006

Let's rock!

Pode parecer estranho, mas é muito bem pensado...

21 junho 2006

Volta Dulce, estás perdoada!

À saída de Lisboa de mais um voo charter para Geiselkirchen, um adepto da selecção nacional declara à RTP: "É uma oportunidade única a de assistir ao vivo a este jogo. Ainda para mais com a selecção do México, pois poderemos ver a famosa onda mexicana".

Conversa de bombeiros

"Eh pá, o homem estava mesmo mal! Fiz-lhe um torniquete para estagnar o sangue e fartou-se de levar comprensas!"

Fugir ao lugar comum

Primeiro pareceu-me uma mera impressão passageira, mais tarde veio a confirmar-se. A febre dos artigos "light" sobre o Mundial de Futebol começou na televisão (há horas de programação para encher, não é?). derramou para a imprensa escrita (até me benzi quando vi as primeiras crónicas de A Bola), mas a coisa generaliza-se com prosas de bom gosto e fino humor. Esta é um belo exemplo. De João Ubaldo Ribeiro

E já que aqui estamos, tomem lá outra peça que "foge" à geografia regional do respectivo blog, o Little Boots and Friends

20 junho 2006

Não o acordem, por favor

Devo ser, apesar de já não ser nenhum jovem, a pessoa mais nova que está sentada no auditório da Academia da Marinha ao final da tarde de hoje. Oficiais reformados, historiadores, técnicos de hidrografia e simples interessados na matéria ocupam as confortáveis cadeiras do espaço, atenciosamente gerido por praças fardados de uma impecável brancura que pediria meças a qualquer anúncio de Skip. Equipas multidisciplinares vão tentar expor uma brevíssima apresentação, que aqui noticiei em devido tempo, sobre os trabalhos de exploração submarina do espólio do U-963. Poupo ao leitor as penosas citações de títulos académicos com que o presidente da mesa brinda os presentes e fico-me apenas com as minhas dúvidas e com algumas questões levantadas não só pelo documentário (pobrezinho e a saber a muito pouco...) produzido pela SIC e com outras dúvidas mais prementes com material que desconhecia e que não fora apresentado em 2002 no dito documentário.

O comandante alemão, Rolf Wentz escreveu uma carta à equipa de investigação, pedindo expressamente que se não perturbasse o U-963. "Não o acordem por favor, deixem-no dormir no berço". Isto levanta uma tempestade de questões tendo em conta múltiplas contradições detectadas entre as declarações prestadas durante o documentário e alguns factos expressos na carta de Wentz. Os investigadores querem por exemplo saber (e para isso precisam de um contacto visual com o navio) qual é o verdadeiro estado do casco. Se todas as testemunhas visuais declaram que o navio foi afundado pela simples abertura das escotilhas de ventilação em conjunto com o enchimento dos tanques de lastro (versão corroborada pelo Engº Harry Forster -estranho nome para um oficial germânico) porque razão isso ocupou quatro homens da tripulação quando é comum encontrar relatos de que um único homem o poderia fazer a partir da sala das máquinas? Porque razão o U-963 depois de terminada a sua missão principal, a de lançamento de minas a Oeste da Rota das Ilhas Hébridas e quando se dirigia para a quadrícula de patrulha que lhe tinha sido destinada, invoca uma avaria de comunicações (que não o impede contudo de receber a indicação de que a guerra tinha terminado) para derivar para um ponto (impossível de confirmar) no Golfo da Biscaia?.

Apesar de os investigadores não terem desenvolvido este tema serei eu a colocar algumas questões aos oradores sobre a quase absoluta improbabilidade deste destino. Segundo o Comandante Wentz explicita na sua carta, "Foi no Golfo da Biscaia que descartámos os detonadores dos torpedos". Apesar de ser normal esta medida (o Estado Maior alemão indicara aos seus comandantes navais que deveriam entregar-se em porto neutral - na sua maioria portos da América do Sul, dos quais Lisboa não consta - ou proceder ao afundamento dos navios), para mim é absolutamente improvável que o U-963 tenha estado no Golfo da Biscaia, ponto perigosíssimo porque já varrido pelas ondas de radar instalados em barcos e aviões bombardeiros e um autêntico cemitério de U-Boats regressados das patrulhas do Atlântico Sul. Herbert Werner, o único comandante alemão que conseguiu sobreviver a todo o período da Segunda Guerra Mundial, tem sobre este tema uma passagem no seu livro "Caixões de ferro", uma frase deveras esclarecedora quando diz (e cito de memória): "Do norte da costa portuguesa até sair da Biscaia, ninguém dorme. Nenhum homem quer morrer na cama e só descansa verdadeiramente sobre o betão de Brest". Wentz notificou as autoridades portuguesas da rendição da sua tripulação (veio a terra à Capitania da Nazaré) e foi por elas informado que viriam de Lisboa os meios necessários à revista do submarino. Facto não aceite e que terá precipitado o afundamento imediato? Haveria mais gente a bordo? (Rumores, impossíveis de confirmar sem uma visita ao interior do navio, falam de um transporte de prisioneiros, facto que ocorreu com frequência nos últimos meses da guerra). Pode Wentz estar preocupado com esse eventual facto? O comandante afirma no documentãrio da SIC e na carta que nada de pessoal veio de bordo. Nenhum Diário, nenhuma carta, apenas objectos pessoais. Facto raro, nomeadamente a ausência de menções a material de criptografia (que era nos últimos meses do conflito, um autêntico "livro aberto" para a inteligência britânica...).

Admiráveis as imagens de sonar de feixes laterais que permitiram a localização do casco. Não menos admirável a constatação da presença de uma outra massa ferrosa (torre do submarino?) a cerca de 40 metros do corpo em forma de charuto. Impossível para já de confirmar pois as dimensões de pormenor da torre e de uma mina marítima "escapam" ao sonares do Instituto Hidrográfico. O casco está impecavelmente "arrumado" na base de um paredão calcário com mais de 40 metros e pode ter-se separado na queda do abismo, uma vez que não há relatos de demolição. (Surgiu na sala uma teoria de demolição, mas defendi a opinião da separação por queda, dado que não conheço nenhum registo de auto demolição de navios alemães). A minha opinião não terá sido muito bem aceite por alguns dos oficiais e só terei ganho alguns pontos quando perguntei se algum deles teria a coragem de destruir por explosivos um navio sob o seu comando...).
Não me respondem também à questão da localização do afundamento, pergunto-me se o canhão da Nazaré "entalado" entre o vale de Choffet e o Canhão de S.Pedro (a norte) era já assim tão bem conhecido... Assombrosas são as imagens de quatro milhões de pontos cotados que o Instituto Hidrográfico conseguiu com o estudo de sedimentos e trânsitos do Canhão, com a "fotografia" perfeita da estrutura em U e dos seus braços que descem vertiginosamente da costa para o leito do oceano (a 500 metros da praia a profundidade é já de largas centenas de metros).

Há muitas questões a responder, assim haja meios de prosseguir o muito que já foi feito...

A small step for man

Deus deveria abençoar os cientistas. Por muitas razões e por mais esta.

16 junho 2006

Sr.Faraday à recepção!

Séculos e séculos de evolução humana levam a que muitos hábitos, crenças e rituais se enraízem a ponto de ninguém saber já (se é que alguma vez se soube) das origens dos mesmos, sejam ou não tais hábitos e crenças apoiadas em explicações científicas que lhes confiram forma de lei.

Durante uma das últimas grandes trovoadas que se abateram sobre a grande Lisboa, foi com algum espanto e admiração que vi um conhecido preparar-se para destruir uma generosa quantidade de ovos provenientes de uma pequena exploração agrícola. Não se tratando de excessos de produção subsidiada, nem nenhuma dessas mágicas alegorias filhas da Política Agrícola a que alguns chamam Comum, inquiri sobre as razões de tal operação, tentando confirmar as minhas suspeitas em atribuir a culpa ao intensíssimo calor que se tem feito sentir. Fui sumariamente informado de algo que desconhecia (e que para todos os efeitos continuo a desconhecer até à confirmação factual): "As trovoadas intensas localizadas sobre as explorações aviárias fazem abortar os processos de gestação de ovos fecundados. Todas as aves que estejam a chocar uma dada quantidade de ovos, parecem saber disso mesmo, abandonando de imediato os ninhos e interrompem um processo absolutamente estudado e natural". Quis ir mais longe, estes fenómenos incomodam-me positivamente, não apenas pelo espanto mas muito mais pelo saciar da minha curiosidade galopante.

A mim parece-me normal que pelo facto das aves abandonarem os ninhos, o calor cesse e o embrião não se desenvolve, acabando por nunca eclodir. Não parece um raciocínio demasiado complexo... "Pedro, não me parece que tenha a ver com o calor, deve ser outra razão porque o resultado é exactamente o mesmo se se usarem chocadeiras industriais...". Devo confessar que apesar de estar medianamente bem informado no que à criação de aves diz respeito, desconhecia tal fenómeno. "Só tens uma forma de evitar isto, é ter na sala dos ninhos ou das chocadeiras um motor velho de uma máquina de lavar ou secar, não me perguntes porquê, foi assim que aprendi, mas não sei exactamente o que se deve fazer...". É este pequeno fragmento de informação que desperta o pequeno físico que há em mim. Apesar de ser um mistério para a pessoa com quem falo, a aparente solução do uso de um motor, faz para mim todo o sentido. A presença de um enrolamento de cobre excitado pelo envolvimento no processo dos dois potentes magnetos (presentes em qualquer motor eléctrico) poderá ser o suficiente para fazer com que a fortíssima ionização do ar seja desviada por indução ao enrolamento de cobre. Mesmo assim, tal solução só poderá fazer algum sentido se o conjunto estiver devidamente ligado a um ponto de terra. Terá o mistério de esperar por mais tarde. Tenho, entre clientes e amigos alguns experts de criação avícola e técnicos de investigação eléctrica a quem importunarei em breve para tentar saber mais sobre tão intrigante questão abortiva. Mas. caro leitor, não se acanhe! Se tiver algum input válido sobre esta matéria, deixe o seu "ovo" na caixa de comentários...

15 junho 2006

O Poeta

"Restam-lhe poucas horas, Pedro. E quando temos consciência de que nos resta pouco tempo, é como se quiséssemos acertar contas com nós próprios, é um balanço apressado em que há mais deve do que haver...". Estou ali, parado, num corredor de uma clínica à conversa com F. um amigo de sempre. "Já viste alguém morrer?". Confesso-lhe que sim, que por duas vezes isso me aconteceu, uma morte inesperada, outra anunciada e trágica. São coisas em que não penso muito, pelo trauma que me reavivam em ambos os casos. "Chamamos-lhe Poeta, é um homem idoso, tem cerca de 90 anos e é um terminal." F. é um profissional de saúde a trabalhar numa das mais luxuosas e requintadas clínicas de Lisboa, daquelas a que só muito dinheiro pode comprar os serviços prestados. F. zela pelo conforto físico dos que sabem que é tudo uma questão de tempo até que a luz se apague. "É impressionante a dignidade deste homem. Sofre pavores físicos há quase dois anos e nunca lhe ouvi um palavrão, uma ofensa, um insulto. Raramente faz uso da aparelhagem de anestésico. E depois é um poeta, tem sempre um galanteio ao pessoal feminino, vai deixar saudades a muita gente, é uma estrela cá na casa". Anda daí, eu tenho de lá ir acima fazer uma ronda, são só uns minutos já saimos. Estou relutante, já o fiz algumas vezes e saio sempre amachucado, lido muito mal com a morte e acabo por achar que há algo de pegajosamente sinistro nos rostos daqueles que estão condenados. "Mas há pelo menos um equipamento que quero que vejas". Falamos desta maquinaria há dias, sistemas de suporte de vida na área da respiração assistida, equipamentos a que me dediquei profissionalmente durante alguns anos e que me interessam de um ponto de vista técnico. É no quarto do Poeta que está a máquina, um ventilador mecânico de fabrico israelita que mudou muito pouco nos últimos vinte anos. "Trago um amigo comigo, vem ver a sua máquina nova". Os olhos do Poeta estão quase baços, mas levanta um braço em jeito de saudação. F. faz um check list visual à parafernália de material que rodeia a cama. "Não há muito a fazer, verificar níveis de anestésico, rolos de papel das impressoras de batimento cardíaco" Duas ou três rotinas básicas que incluem umas palavras de conforto e o questionar de necessidades, do correcto posicionamento dos comandos de cama e luz ao anestésico. "Ora então uma noite descansada!" diz F. ao Poeta que se agita no leito. Deita a mão à máscara de oxigénio cuja mistura é feita pelo equipamento que apressadamente observei. "Precisa de alguma coisa?" Dou comigo a pensar que mandaria F. ir para certa parte se a frase me fosse dirigida. F. alivia-lhe o elástico que segura a máscara. O Poeta sorri e diz-lhe "Ora, Doutor, deixe-se de aleivosias...". Falemos então de dignidade.

14 junho 2006

Catching up on my life


Com a excepção dos profissionais médicos com quem tenho falado durante os últimos oito dias, tem sido profundamente complicado explicar a quem não tenha passado por problemas médicos similares ao que tenho, o quanto incomodativa se torna a mancha que impede o meu olho direito de se portar convenientemente. O agrupamento gelatinoso que normalmente é apelidado de "mosca volante", já ganhou, no meu caso o "petit nom" de B52 volante. A imagem acima dá uma ideia, mas se se imaginar uma mancha cerca de dez vezes maior e com um movimento mais suave, ter-se-á a percepção mais aproximada do incómodo. Não impedindo uma visão genérica normal, é absolutamente enervante a visão em detalhe, principalmente contra fundos luminosos (monitores ou dias muito claros) ou em leitura. O stress nervoso que isto acarreta tem sido a maior provação porque não só é extremamente cansativo de lidar com algo a que não estamos de modo algum habituados, mas acaba por provocar movimentos involuntários na cabeça por forma a fazer mover o B52, sobretudo quando se encontra no centro do campo visual. Os peritos avisam que podem decorrer meses até que os mecanismos de visão aprendam a "ignorar" a mancha, mas acho deveras complicado que uma coisa deste tamanho alguma vez possa ser ignorada. Aguardemos. Foi a oportunidade ideal, pela necessidade, de testar a fundo uma característica do sistema operativo Mac OS X, o Universal Access que permite inverter as cores em negativo e por isso mesmo, evitar que a sombra da mancha importune a retina. Em termos de texto é excelente, mas quando se trata de imagem é absolutamente para esquecer...

Os profundos exames da retina não trouxeram, ao menos isso, piores notícias. Parece estar ainda em condições sem mostrar sinais de descolamento. A maioria das opiniões médicas recomenda paciência, poucos esforços físicos (o que não é complicado de seguir...) e alguma vigilância. A meio da semana, um susto extra da parte do olho esquerdo (em termos práticos o "pior" dos dois) que surgiu com o maior derrame que alguma vez tinha observado em mim mesmo. Aparentemente nada teve a ver com o problema original, mas sim com algumas das dilatações a que a pupila foi submetida, que teve como consequência a ruptura de um vaso. O volume de sangue assustou-me bastante, mas não é nada que o tempo não se encarregue de fazer desvanecer.

As minhas incursões nesta matéria já me levaram a duas conclusões, a de que o B52 pode "encalhar" no emaranhado de vasos sanguíneos constituintes do humor vítreo (isso é que era bom humor!) seja numa "boa posição" ou numa "má posição" e que há alguns relatos de pacientes que investiram em dietas ricas em ácido HA (hyaluronic acid) que potenciam a desagregação e o regresso a níveis normais de corpos opacos no humor vítreo. Tentar não custa, assim eu encontre um fornecedor de Miso, um fermento japonês muito popular, mas com um aspecto deveras estranho ao gosto ocidental.

13 junho 2006

Lâmpadas

Quantos Pedros Anicetos são precisos para mudar uma lâmpada?
Apenas um, mas tragam uma camioneta de lâmpadas.

Isto é um exemplo do que eu chamo "post para o umbigo". Só a pessoa que o publica o entende, só quem está muito próximo dessa pessoa poderá algum dia percebê-lo. É um lixo! É deste tipo de posts em blogs públicos que a cada dia que passa mais encontro por aí. E estou absolutamente farto e cansado de ler este tipo de coisas.

12 junho 2006

Deixem jogar o Mantorras!

O primeiro jogo português do Mundial 2006, soube a pouco. A muito pouco. Aquilo que parecia vir a ser um massacre, terminou numa espécie de sofrimento auto infligido. Fico a torcer (também) pelos Palancas e tinha a sua graça que conseguissem derrotar o México. Nem sequer me parece impossível. Assim deixem jogar o Mantorras...

11 junho 2006

Será "Low cost"?

Uma companhia aérea búlgara. Aqui.

10 junho 2006

É uma casa portuguesa, com certeza

Há coisas em matéria de organização que até uma criança de seis anos entende. Um Hospital Central em Portugal faz a admissão de doentes e as fichas acumulam-se numa mesa designada de "Triagem" onde uma médica, ao invés de fazer jus à posição, a de triar, as organiza por ordem alfabética, actividade que não deixa de ser irónico ver praticada por uma pessoa que ostenta um estetoscópio... Absolutamente cansado de esperar por Godot, arrepiei caminho a pretexto de uma ida ao bar fui directo à especialidade pretendida onde percebi que não havia um único doente em espera. Fui à triagem, perguntei porque esperava há duas horas. "A especialidade deve estar cheia". Levantei a cortina que impedia a "profissional de triagem" de ver o que se passava no mundo que a rodeava e demonstrei-lhe, educadamente, que não era o caso. "Ah, mas tem de esperar...", Esperei. Esperei que ela voltasse costas, agarrei na ficha e fui à especialidade e consequentemente à minha vida. Tenho pena de gente desta, tenho pena que trabalhem sem se colocarem um segundo que seja nos sapatinhos daqueles a quem são suposto dar o seu melhor... Ah, e a ordem alfabética não estava correcta, a minha ficha estava a seguir à letra ésse. A especialidade era Oftalmologia, a dita triagem é mera incompetência. Mas isso, à semelhança dos meus olhos, ninguém vê.

09 junho 2006

À janela uma bandeira


No relvado uma nação inteira.

A ilha do Enggano

Lá, na pestana do mundo, junto à costa de Sumatra (Ou Samatra dependendo da fonte) existe uma pequena ilha, secularmente baptizada de Enggano, cujo nome não esconde uma mais do que provável origem portuguesa. Mais a mais está em plena consonância com o estreito que forma com a costa javanesa de nome Estreito de Gaspar. Procuram com afã os historiadores navais uma base para tais nomes, sem grande sucesso diga-se, quer para o nome da ilha, quer para o Gaspar (com ou sem amigos...) e pouco se sabe. Algures por volta de 1520 um tal Gaspar d'Acosta (pouco rigor no baptismo do senhor Costa?) andou por ali, tendo perdido alguns navios. Ninguém parece saber quem foi o Costa, muito menos que navios eram estes, os perdidos e os outros. Para o nome da ilha o mistério é maior ainda, mas consta que neste território existe uma lenda que assegura que a ilha é habitada apenas por mulheres e que elas se perpetuam por serem engravidadas pelo vento. Eu, se fosse historiador naval não procurava mais!

Se clicar no link e não encontrar a ilha no mapa, centre a sua busca no centro inferior da imagem.

08 junho 2006

Rigor mortis

Comunicaram a H., um simpático pescador reformado, o falecimento de um antigo colega. Convencionemos que não foi um falecimento normal, já que o infeliz deu entrada no hospital da área sem quaisquer sinais vitais, tendo a equipa de urgência conseguido o recobro. Malfadadamente o paciente não resistiu a complicações posteriores, muito impressionando a família da primeira vez que lhe teve acesso numa visita dominical pela aparente miraculosa recuperação e pelo choque que foi para todos o falecimento quase imediato. H. não perde tempo no comentário e no aproveitar da lição. "Porra, um tipo é dado como morto, chega ao hospital e safa-se, capazes de o enterrarem ainda vivo! É por essas e por outras que eu não quero ser enterrado, quero ser cromado!"

The thin red line


Quais são os sintomas do Destacamento do Vítreo Posterior (DVP)?
Muitas pessoas não sentem sequer sinais de DVP até notarem o surgimento de partículas flutuantes ou luzes que parecem piscar na periferia do campo visual. As partículas flutuantes podem ter diversas formas como pontos, linhas, círculos ou nuvens. É normal após o incidente, a experiência de uma grande particula flutuante que pode ser deveras incómoda e tornar a leitura particularmente difícil.

Os flashes de luz que ocorrem, são na maioria das situações causadas pelo DVP. À medida que a parte exterior do Vítreo se destaca da retina, pressiona a membrana sensível à luz nos pontos de suporte do Vítreo, pontos que estão fortemente seguros na retina. A pressão sobre estes pontos estimula a retina e esses estímulos traduzem-se em flashes de luz, dado que o cérebro interpreta todas as estimulações da retina como sinais de luz.

Pode fazer-se alguma coisa para reduzir o DVP?
Infelizmente a esta data, nada pode ser feito em termos médicos sobre o DVP. O paciente poderá experimentar uma redução de sintomas nunca antes de seis meses da ocorrência, podendo o paciente habituar-se à nuvem de partículas flutuantes, passando o mecanismo cerebral a ignorar a mesma excepto em situação de luz intensa.

Isto é tudo muito bonito, mas a verdade é que estatisticamente só deveria acontecer por volta dos sessenta a sessenta e cinco anos... E todos os meus pesadelos remotos sobre a minha falta de acuidade visual despertam quando toda a informação disponível indica claramente que o processo de DVP acarretará (espera-se que a longo prazo) o descolamento da retina, que confesso era o meu receio inicial. Habituemo-nos pois à ideia pois o oposto significa entrar em parafuso.

A tomada de Bagdad


No dia em que Al-Zarqawi foi reclamar as suas setenta virgens, deixo-vos um exclusivo fotográfico da tomada de Bagdad...

Engenheiros, nunca vos esqueceremos

06 junho 2006

Intermission

Visitei hoje um oftalmologista que me retirou as lentes, me dilatou as pupilas até à exaustão, revistou-me a retina com mais minúcia que um inspector de alfândega e que no final me disse "Oxalá gostes de dormir porque durante os próximos três dias não vais ver a ponta de um corno". Voltarei assim que conseguir vislumbrar o computador...

05 junho 2006

Four long weeks