30 agosto 2006

Oh mar salgado, quanto do teu arroz...

"Eram dez horas e quarenta e cinco minutos quando os três nadadores solitários se fizeram ao mar. Tinham delineado estratégias para nadar juntos." É. De facto ser-se jornalista não é fácil. Mais a mais quando tenho a boca cheia de arroz e quase sufoco, atrapalhado.

O hálito faz o monge

O Major Stainless estava preocupado. Chamado de urgência a uma inquirição judicial, abastecia-se de rebuçados e pastilhas de vários e intensos sabores não fosse o hálito trair a genuinidade do depoimento. "Oh Senhor Aniceto, você que sabe tudo, quais são as melhores para este efeito?". Não me apanhou num grande dia, a resposta tardou. "O que é que faria no meu lugar?". Iria sóbrio meu caro Major, iria sóbrio. Os olhos, duas pedras de gelo, mergulharam no Jameson amarelo.

É a globalização, estúpido!


Tentem lá explicar a um oleiro do norte porque é que os Galos de Barcelos feitos na China chegam ao mercado a um quinto do preço...

29 agosto 2006

Canoa, por onde vais?

Há algo de sensual na luz que se espelha num Tejo sossegado ao fim de um dia quente e abafado. Há algo de embalo no dançar do barco em que atravesso esse mesmo rio rumo a Lisboa, uma Lisboa que é sempre um encanto de cidade quando se deixa espreitar de ângulos que não são ainda banais. Talvez seja esta mesma sensualidade que se escapa dos corpos que ali jazem, quase abandonados ao balanço suave do casco sobre as águas e que me faz semicerrar os olhos num princípio de sono que se anuncia devagarinho. É de olhos fechados que somos levados a ouvir os diálogos que nos não dizem respeito, coisa socialmente reprovável, mas que nem sempre podemos evitar. Ela, de ar afogueado, enleada nos braços do namorado, fala da jornada quase completa, enquanto ele, de enlevo a carinho, faz os possíveis por ser compreensivo. "Ai fofo, fartei-me de andar, hoje. Devo ter feito umas três horas a andar. Estou toda assadinha...". Ele, tentando fazer humor e insinuando a perda da consoante, comenta "Ai 'môr se isso em crú já é tão bom, o que fará assadinho." Reabro os olhos reprimindo o riso e é aí que percebo que a maioria dos meus companheiros de viagem não estavam tão adormecidos quanto isso, pois mergulham os olhos em vários pontos, todos eles partilhando um sorriso cúmplice.

Estava-se mesmo a ver...

Na passada semana recebi um cartão de débito bancário todo amaricado esteticamente e publicitando a inovadora inclusão de um chip patati patatá. Juntamente com o cartão, uma carta avisava dos graves perigos e inconvenientes de utilizar o dito cartão em ATM's sem o activar previamente, operação que poderia ser efectuada em qualquer agência do Banco ou através da sofisticada linha de atendimento telefónico que a instituição providencia. Optei por esta última e depois de ter facultado uma série de dados pessoais que permitissem ao operador certificar-se de que era eu mesmo que estava do outro lado da linha, fui informado que teria de aguardar setenta e duas horas úteis para poder usar o pedaço de plástico (agora com um chip modernaço patati patatá). Achei um absoluto exagero, mas de nada me serviu protestar junto da criatura que pacientemente me ouviu até ao final. "Caramba, setenta e duas horas úteis mais o fim de semana dá tempo para mandar um mensageiro a pé avisar todas as máquinas do país...". Hoje, ao consultar o meu extracto percebi a razão de tão inusitada espera. Dá-lhes tempo de sacar sete euros e meio de anuidade...

28 agosto 2006

É muita competência!

Catorze anos depois, repito, catorze anos depois, o Tribunal de Cascais declarou-se incompetente para decidir o "Caso Bolama". Deve ter sido uma decisão madura e bem reflectida. Tiveram tempo, o tempo que as famílias dos mortos no naufrágio usaram para trabalhar no intuito de alimentar os seus. As companhias de seguros continuam a escudar-se ao pagamento de indemnizações por alegarem que ao navio faltavam os certificados de navegabilidade. A Capitania do Porto de Cascais que deixou sair o navio da barra diz não se sentir no dever de esclarecer a questão. Lá vem a Nau Catrineta que tem muito que contar...

Aristeu o Multi-Usos


Cortesia Francis Augusto Medeiros.

I don't get it...

Visito a Repartição de Finanças do meu Bairro Fiscal. Entre alguns outros assuntos pretendia um esclarecimento sobre os critérios de avaliação de um imóvel no que diz respeito à respectiva avaliação para efeitos de Imposto Municipal sobre Imóveis. Um simpático funcionário atende-me e presta-se a responder a algumas das minhas perguntas. "Não entendo", digo-lhe, "Não entendo que duas casas absolutamente iguais, literalmente encostadas uma à outra, tenham valores de avaliação e imposto diferentes...". Ele também não tem explicação. "Não quero revelar-lhe qual o número da Matriz daquela com quem comparei os valores, não quero prejudicar ninguém, muito menos quem me mostrou a documentação...". Ele entende, a conversa é informal e ele tenta explicar-me que as avaliações eram (e segundo entendi continuam a ser) virtuais. "Pode sempre pedir uma reavaliação, mas desde já lhe digo que corre um risco de ver o seu imposto agravado...". Deve ser a isto que chamam justiça fiscal.

27 agosto 2006

Importam-se de repetir?

Dinheiro, dinheiro a rodos!

Cansado de ter constantemente a caixa de correio electrónico de ofertas mirabolantes de tipos que querem à força toda fazer de mim um tipo rico, passei a ripostar. Quem sabe um dia encontro um tipo simpático que avança sob as minhas condições.

*** VERY IMPORTANT NOTICE REGARDING YOUR MAGNIFICENT PROPOSAL ***

Dear Sirs,

First of all I must thank you for choosing my email account within the multitude of zillions of email addresses of all the internet world. It's not only just because it's a gorgeous email address, but certainly because of the very favourable financial information you gathered from the hundreds of companies and banks that my corporations deal with.

Thanks again for having chosen my person and my corporation to establish a two sides profitable operation, as I am sure that your intentions are good, beeing yourself a nigerian Oil Company CEO, cousin (or any other family member) of the late Jonas Savimbi or the son of a cancerous canadian lumberjack.

As you may well understand, my corporation didn't reach where it stands today by dealing without security. I do not deal with Companies or private people without beeing sure about their rock solid financial background. So, in order to establish a confidence relationship between business partners (I hope you don't mind beeing treated as "partner"), please proceed by going through an insignificant security check routine that we've implemented for this kind of outstanding contacts.

- Deposit a sum (non refundable) no less than 300.000 USD (Three hundred thousand US Dollars), small, non marked bills, on our Cayman Offshore account, whose number will be supplied on demand.

After having cleared the security routine, we will go through the initial round of talks and our Finance CEO will appoint a personal interview in order to analyze further actions to be taken regarding your proposal.

Awaiting further contacts.

Yours faithfully,

Pedro Aniceto

26 agosto 2006

Era o que faltava!

Era o que faltava, um homem não poder ver pornografia no trabalho durante as horas de serviço...

25 agosto 2006

Um desafio linguístico

"Maria toma banho porque sua mãe disse ela pegue a toalha."Esta frase, que não faz qualquer sentido, poderá ganhá-lo apenas com a utilização de um ponto e duas vírgulas. Faça o favor de se entreter e deixar as suas hipóteses na caixa de comentários. Segunda Feira darei a resposta.

24 agosto 2006

Plutão

Dois mil e quinhentos astrónomos andam, desde há oito dias a tentar desmontar o que sempre tomámos como certo no sistema solar. Entre mil e muitas diabruras de nomenclaturas e reclassificações, Plutão vai ser despromovido e deixa de ser planeta. Claro está que se perguntassem a Plutão a sua opinião sobre esta revolução classificativa, ele encolheria os ombros (se os tivesse) e responderia: "Não tem qualquer gravidade..."

23 agosto 2006

Juro, por minhas "honras"

Na Antiga Roma, quando de uma declaração de juízo em tribunal e como forma de atestar a verdade de um facto, em vez de jurar sobre a Bíblia, como em certos países ainda é hábito, os declarantes faziam-no apertando os testículos com a mão direita. Provirá deste estranhíssimo costume a palavra "testificar".

De manhã que medo que me achasses feia

"Fugiu... Fugiu de casa e de nós como a areia que se escapa entre os dedos...". Tenderá o narrador a polir a lamparina, a clarear o escuro da frase, quem sabe a encanar a perna à rã. "Fez as malas e desapareceu...". Não é fácil, nunca é fácil sobretudo se for a primeira vez para o declarante que a cara metade emale a trouxa e parta, deixando quem sabe o próprio trouxa e raios a parta. A mim, o narrador da triste memória, apenas me compete alourar a ficção e verter em escrita a voz que escorre do lado mais palpável do desgosto. "Dezanove anos, um dia um homem percebe que acabou, ela foi-se e não volta..." Compete-me testar várias maneiras verbais de dourar a pílula e se não é a mim que me toca a desgraça alheia, algo há que sempre salpica e que por sua vez é minha obrigação fazer chegar ao leitor, nem que seja uma pinguinha. Fazer-lhe chegar um misto de vergonha e dor, umas résteas de desânimo e alegria, burilar palavras e frases para evitar o inevitável. "Foi-se embora, a vaca!".

21 agosto 2006

E uma voz veio do alto...

Grande poeta é o povo

"...Na praia da Nazaré
houve grande burburinho,
os turistas de roupão
e D.Fuas de Roupinho..."

20 agosto 2006

Publicidade enganosa


O ponto mais alto da Serra da Estrela tem 1993 metros de altitude segundo as informações do Instituto Geográfico do Exército. O Carrefour do Montijo apregoa e tenta vender queijo do único rebanho de ovelhas voadoras de que alguma vez tomei conhecimento... A coisa mais parecida com uma ovelha que é possível encontrar no topo desta serra são aqueles pirosíssimos coletes de lã. O resto é lixo e turistas sendo que por vezes é complicado distinguir uma coisa da outra.

18 agosto 2006

Adolf?

17 agosto 2006

KIss me Kate

"Olha, pagas-me um gelado? Pode ser daqueles grandes com chocolate e amendoins?". Joana olhou-me nos olhos com a reserva mental de uma criança de quatro anos e sacudiu o porta moedas de plástico onde minutos antes guardara religiosamente algumas moedas escuras, "Tu tens tanto dinheiro, Joana, bem que podias pagar-me um gelado enorme. "Não sei, não sei se e'tas moedas chegam...". "Chegam, claro que chegam, b'ora comer um gelado?". Tá bem, mas primeiro preciso de ir ali fazer uma coisa. Eu, que nunca tinha querido o gelado, apenas provocar-lhe o desprendimento material e apreciar o resultado, dei com ela, minutos passados a jogar matraquilhos com a irmã, as moedas escuras a alimentar a fenda da máquina, gulosa, a fenda e ela a sorverem o prazer dos varões de ferro e das bolas de madeira. "Vamos lá comer o gelado, Joana...". As mãos nervosas, o fecho da carteira de plástico a abrir-se e a mostrar o vazio de onde antes havia moedas. Os olhos a ficarem molhados. "Ga'tei o dinheiro todo...". Então e agora? "Não tens dinhei'o, tu?" Não, não tenho, tu tinhas-me dito que pagavas o gelado. Mais lágrimas. Uma mão em concha e um segredo no meu ouvido. "Deixa, amanhã comemos um dos ba'atinhos, mas preciso primei'o de ver a minha avó, qu'ela dá-me mais moedas..."

Ouvi algures...

A mãe, oferecia à sua filha adolescente uma jóia. Uma jóia de valor relativamente baixo mas de grande valor sentimental e humano. Jóia essa que nunca era exibida no exterior da indumentária, fosse ela qual fosse, conservada junto ao corpo em bom recato e ordem. Três moedas; os três vinténs. A filha, em idade de sair de casa sem a companhia de familiares, prometia então a sua mãe conservar a dádiva em boa ordem e assumia o compromisso moral de nunca perder "os três vinténs".

C'um senhor de certa idade
Fui casar uma sobrinha
Ele tinha os três vinténs
Ela, nem isso tinha...

16 agosto 2006

Disse irracionais?


Smart Animals - video powered by Metacafe

13 agosto 2006

Estala a bomba e o foguete vai no ar

Nado e criado no mais arreigado uso das tradições populares portuguesas, aqui o escriba está desde há anos habituado ao uso de manifestações tradicionais mais ou menos peculiares. Uma delas, que eu não entendo de forma alguma é o uso de foguetes em festividades de vária ordem. Eu suponho que o indígena ouve o ribombar de um foguete e rejubila de alegria, escuta-se o fragor de um morteiro e a maltosa sai para a rua aos saltos gritando "Alegria, Alegria!". Com excepção dos foguetes que ouvia quando trabalhava ali para os lados da Pontinha, que tinham um significado muito próprio, o do avisar da clientela da chegada de mais um carregamento de droga vendável, qual é de facto o significado prático de uma dúzia de estrondos capazes de matar do coração metade dos doentes cardíacos portugueses? Como é que é possível um tipo ficar feliz quando acorda estremunhado devido a uma morteirada às oito da manhã, com todos os cães da casa a procurar refúgio no meu colo (um dia destes discutiremos porque é que só os homens é que têm colo - as senhoras têm regaço), em estado de pânico puro? Carago! Eu sei que há festa, foi para isso que engalanaram as ruas e espalharam cartazes. Aquela morteirada matinal (eles chamam-lhe Alvorada e eu nem quero imaginar a que lindas horas se levanta o fogueteiro para estar felícissimo às oito da manhã a fazer tremer os alicerces da aldeia) significa "Sejam alegres" mas dito aos gritos? Ou é apenas a alegria da Comissão de Festas a dizer aos residentes "Agora e que vocês vão perceber onde é que gastámos o dinheiro!"? E no final da procissão da Senhora do Rosário, tinham mesmo de fazer explodir seiscentos e quarenta e dois foguetes? Pensais por acaso que a Senhora do Rosário não recolheria à igreja sem aquele número inusitado de estouros? A santa passou duas horas ao sol, quem ia debaixo do pálio era o prior, desertinha deve ela estar por voltar ao fresco do templo. E era MESMO preciso mais um morteiro depois dos seiscentos e quarenta e dois foguetes? Assim como quem diz, "Pronto, já chega, este é o último"? É nestas alturas que eu penso naquele hábito árabe de agarrar numa Kalashnikov e descarregar um carregador inteirinho para o ar. Se este hábito pegasse em Portugal, nós faríamos exactamente o mesmo, mas no final, quando se acabassem as balas, ainda dávamos mais um tiro de obus, assim como que para sublinhar o efeito...

12 agosto 2006

Steel Magnolias

Tinto Alentejano, Monte da Cal 2003. Um rótulo banal, bilingue, que fala de castas e do solo xistoso incapaz de reter a pluviosidade e mais umas botas. A tragédia apenas acontece no último parágrafo do texto em língua inglesa. "This wine was aged only in steel tanks, therefore the fruit flavours".

Hair Dresser

Malaca, Malaca, a guerra é a guerra

A guerra é uma coisa suja, estamos suados de o saber. E nem sequer é preciso ser-se um Moshe Dayan para perceber quão hipócritas são as diligências americanas e europeias para um hipotético cessar fogo que eu sei, porque a história do Médio Oriente me ensinou, que jamais entrará em vigor enquanto a margem de segurança que o Estado de Israel quer impor não for estabelecida. Olhar para os mapas é fácil e simples e não entendo porque é que os ditos analistas militares que todos os dias se sentam nas bancadas de informação de dezenas de estações televisivas não concluem o óbvio. Israel jamais retirará da faixa para cá do Litani, e muito menos desinvestirá do esforço já feito para devolver ao Hezbollah o terreno perfeito para ataques de artilharia às suas próprias cidades. Israel tem, e terá a faca e o queijo na mão. A hipocrisia de esperar por um cessar fogo imaginário é isso mesmo, uma hipocrisia. Estou do lado de Israel pela primeira vez em muitos anos. Quando me falam de banhos de sangue eu pergunto-me onde têm estado durante todos os anos em que o sangue civil israelita correu dentro das suas próprias fronteiras. Quando me falam de abuso, eu questiono qual é a guerra que os não tem. Quando me dizem que é um disparate militar a tentativa de limpeza do sul do Líbano, eu pergunto aos experts militares o que fariam se chovessem Katiuskas de Ayamonte. Sim, há-de vir um cessar fogo. E a diligência mais mediática e aquela que será aceite com aparente maior honra será a dos americanos. E há-de entrar em vigor quando Israel disser que sim. O resto são tretas.

Happy birthday!

Ela era redonda, literalmente redonda, uma bolinha encavalitada numa bicicleta cor de rosa, cheio de retoques fantásticos, do cesto de plástico branco sobre a roda da frente, ao detalhe de dois póneis do mesmo material a fazer de enfeites ao guarda corrente da transmissão. Na cabeça uma coroa de papel decorada com brilhantes falsos, tão falsos como as faíscas que reluziam ao sol. Pedalava furiosamente, tão furiosamente quanto a sua gordura excessiva permitia. Uma travagem, os pneus de rojo no pó encarnado da estrada de terra. Vejo-a com frequência durante o passeio vespertino, sempre pedalando furiosamente direito a nenhures. "Olá! Eu hoje faço anos!". Parabéns, muitos parabéns, tiveste muitas prendas? "Esta bicicleta e um kilo de Smarties!". E consegues comer um kilo de Smarties? "Ohh, já foram quase todos!". E saiu a pedalar tão furiosamente quanto aparecera, a coroa de papel com brilhantes falsos, tão falsos como as faíscas que reluziam ao sol que se escondia.

11 agosto 2006

Trinta mil


Trinta mil, é, grosso modo, o número de visitas a este blog desde a data da sua criação. A todos quantos contribuiram com as suas experiências ou os seus silêncios, apresento a devida vénia.

Que eu seja ceguinho!

"Mas é que não gostê mêmo nada da cara do mê Tóino!". Ouvida assim, a seco, poderia o incauto espectador da cena que há-de vir, pensar nas maleitas que afectariam um qualquer António, mas não, desengane-se o dito espectador, pode inclusivamente tirar o cavalinho da chuva não vá o equídeo apanhar uma valente insolação que o tempo não está para outra coisa. De desidratação não sofrerá quem proferiu tão intrigante sentença, a de não gostar nada da cara do seu António, já que está com cara de e (atente o leitor nos jogos florais do "de" e do "e" que isto deu muito trabalho e não quereria o narrador que se pensasse ser uma inglória gralha...) poucos amigos, até porque está sozinho com a proeminente barriga cofiando o marmóreo balcão, que já se disse estar calor e sempre se lucra algum fresco no exterior das flácidas carnes. No exterior sim, porque o interior vai sendo regado a jorros e jarros de cerveja. Que se passa hombre, pergunto-lhe eu, nada habituado a ver caras tão fechadas no corpo de P., profissional da construção civil, ramo muito dado a desgostos financeiros e barrigas de malte e lúpulo. "Não gostê mêmo nada da cara do mê Tóino!", coisa que eu já sabia e que me fez ligar os sentidos do registo oral. "Fui ali pedir ao empreiteiro que me pagasse...". Assenti que justo seria. Já acabaste o trabalho? "Já. Cento e noventa metros quadrados de alcatifa inífúga, andei lá dois dias mais o servente". Ignífuga, queres tu dizer. "Sim, isso, inífuga". E não te pagou? "Não, franziu o nariz e disse que não podia". Compreendo. "Compreendes, o tanas! Não foste tu que lá andaste dois dias de cú para o ar, com os rinzes arrebentados!". Compreendo, no entanto não lho digo, apenas penso. Costumas assentar muita alcatifa dessa? O que é que é a obra? "É um infantário, aqueles rolos devem ter algo de especial porque são caros como tudo e se ela é difícil de cortar." E ele paga-te? "Que remédio tem ele, não se fica a rir. Não pagando, rego com gasolina e pego fogo aquilo tudo! Que eu seja ceguinho!"

10 agosto 2006

Francis Obikwelo

Não consegui ver a corrida do novo recordista europeu dos duzentos metros. Em vinte segundos um tipo não consegue ir, fazer o que tem a fazer, sacudir e voltar para o sofá. É por isto que eu prefiro as corridas de fundo.

Ainda há bons empregos

O Senhor Secretário de Estado do Desporto, Laurentino Dias, sentado numa esplanada em Fafe durante uma etapa da Volta a Portugal a bicicleta, disse ao repórter da RTP que o entrevistava "Episodicamente vou a Lisboa trabalhar". Já desconfiava, mas é sempre bom ter a confirmação da boca do próprio...

09 agosto 2006

As vias e o facto

Pela segunda vez na minha vida preveni alguém sobre a forte probabilidade de lhe assentar um par de estalos. Correndo tão bem as previsões como da primeira vez, a coisa cumpre-se com uma regularidade impressionante. Precisamente de vinte em vinte anos.

Starry, Starry Night

Quarenta e cinco por trinta e seis polegadas, aproximadamente dez mil peças de Lego... Tudo isto para construir uma reprodução em Lego de Noite Estrelada, uma das mais belas obras de Vincent Van Gogh.

Adopte uma galinha!

Quando penso que já vi um pedaço de tudo, eis que a fasquia sobe......

08 agosto 2006

Aborrecimentos

Estava aqui a fazer uns textos publicitários quando percebi que me faltava uma boa dose de clichés. Mas depois alguém me disse que era chic ter falta de clichés...

Humor Municipal (Take II)

Lembram-se daquele requerimento de um munícipe de Marco de Canaveses que pediu o Audi A6 da Autarquia emprestado para levar uma familiar à igreja? Pois, o próprio requerente, Coutinho Ribeiro de sua graça e ainda mais piada, passou por cá e deu novidades sobre a não resposta ao requerimento. Aliás, agora me lembro, neste blog, a terra natal de Carmen Miranda começa a ter alguma tradição no que ao humor fino diz respeito.

07 agosto 2006

Caiu ai rio, caiu ai rio

O primeiro site português completamente dedicado a essa grandiosa civilização animal, as formigas. A formiga no carreiro. Boa malha, Eduardo!

Muito cuidadinho com o sol!

Numa altura em que a inclemência solar é um problema, besuntai-vos bem de produtos protectores não vá acontecer-vos isto.

05 agosto 2006

Tem muito tráfego tem

Sua Excelência o Major Stainless pôs um dos filhos de castigo. "Imagine lá que tenho uma conta para pagar de 63 Euros de excesso de tráfico".

04 agosto 2006

A dog gotta do, what a dog gotta do

São oito da manhã e o trânsito na Estrada Nacional 10 está o caos habitual. A N10, uma das mais divertidas estradas portuguesas, liga Vila Franca de Xira a Setúbal, passando por Lisboa em pedaços autenticamente virtuais, já que esta via tem seguramente uns seis ou sete segmentos, nasce aqui, interrompe ali, atravessa o Tejo para renascer na Cova da Piedade, um dia decerto alguém me explicará esta estranha forma de semear estradas. Não importa para o caso, a ribeira vai cheia e o carro não anda, não tenho um amor lá da outra banda e estou à sombra a aguardar que uma dada loja abra. A procissão de carros, carrinhas e carretas avança dolorosamente em direcção a Lisboa, primeira, uma segunda vá lá que hoje é dia de festa e lá vão eles. Reparo num cão com péssimo aspecto, magríssimo, carregado de carraças que tenta perceber como vai atravessar aquele rio de alcatrão. Um passo à frente, dois atrás que vem lá mais um veículo, está nisto há quase dez minutos, não é fácil ser-se cão, mais a mais um cão peão. Mas o cão não cede e vai metendo o focinho, olhando à esquerda e à direita como quem diz "Vá lá, deixem-me lá passar que tenho de ir não sei para onde". Alguém na faixa mais próxima do cão se enternece e pára. O cão avança uns metros, pára no traço contínuo (deve ser um cão deveras experimentado) e volta a parar. Um camião trava do outro lado, hidráulicos resfolegando, o cão assusta-se e recua dois passos. Está tudo parado, os condutores sorriem, é fácil um tipo sorrir quando se está no fresquinho do ar condicionado, sorriem uns para os outros com piedade do animal, que está ali no meio, tem-te não andes, e não há meio de vencer a restante tira preta. Ninguém sabe bem o que fazer, o camionista chama-o, já vejo uma senhora com ar de quem vai abrir a porta para enxotar o bicho, a fila já recomeçou a andar e está tudo ali, suspenso de um cão que não sabe o que fazer. Olho para o indeciso bicho, que sabiamente está agachado no traço contínuo e toda a gente se ri sem que eu perceba porquê. O cão, continua agachado e resolveu aliviar a tripa, ali mesmo, como quem diz "Eu quero lá saber que vocês tenham pressa..."

03 agosto 2006

No es fácil ser un grande

Filosofia africana



Suponho que seja em S.Tomé e Príncipe, mas ainda vou confirmar. (Confirma-se, S.Tomé e Príncipe, a foto é cortesia de Reto Scherraus).

Holly smoke!

O Lago Peigneur, na Louisiana ia literalmente desaparecendo em 1980 devido a um acidente de engenharia que parece à primeira vista uma impossibilidade. Uma broca da companhia petrolífera Texaco perfurou o leito do lago, invadindo o complexo de túneis de uma mina de sal gema situada precisamente por debaixo do enorme reservatório aquífero. O efeito foi absolutamente devastador e tudo se processou como se um ralo de lavatório tivesse sido aberto... No turbilhão criado pela inusitada fuga de água, desapareceu a plataforma petrolífera, uma plataforma de apoio à perfuração, onze batelões que operavam no lago, casas, parques de estacionamento, estufas e vários hectares de terreno foram deslocados pelas extraordinárias forças de sucção. As imagens falam por elas mesmas.


Li algures...

Turismo Rural

Trata-se de um desporto nacional que antes se chamava "ir à terra". A diferença é que se fores à tua terra, vais de borla, e se fizeres turismo rural vais a uma terra que não é a tua e pagas uma pipa de massa. Para fazer turismo rural não serve qualquer terra. Tem de ser uma Terra "com encanto".

E o que é uma terra "com encanto"? Obviamente, é uma terra que está num guia de terras "com encanto". Está-se mesmo a ver. A estas terras chega-se normalmente por uma estrada municipal "com encanto", que é uma estrada com tantos buracos e tantas curvas que quando chegas à terra estás mortinho para sair do carro.
E quando entras no café tentas integrar-te com os vizinhos.
- Bom dia, compadres! O que é que é típico daqui?
E o gajo do café pensa: "Aqui o típico é que venham os artolas da cidade ao fim-de-semana gastar duzentos contos".

A seguir, ficas instalado numa casa rural ou "casa com encanto", que é uma casa decorada com muitos vasinhos e réstias de alhos penduradas do tecto, que não tem televisão, nem rádio, nem microondas. Em contrapartida, tem uns cabrões de uns mosquitos que à noite fazem mais barulho que uma Famel Zundapp.

Depois apercebes-te que os da terra vivem numas casas que não têm encanto nenhum, mas têm jacuzzi, parabólica, Internet e video-porteiro. A tua casa não tem video-porteiro, mas tem uma chave que pesa meio quilo.

Outra vantagem de fazer turismo rural é que podes escolher entre uma casa vazia ou ir viver com os donos da casa. Fantástico!!! Vais de férias e, além da tua, ainda tens de aguentar uma família postiça.
Se à noite queres ver o filme, eles os documentários e tu perguntas-te: - "Quem é que manda mais? Eu, que paguei 600 euros ou este senhor que vive aqui?" Ganha ele, que tem um cacete.

Ainda por cima, dizem-te que tens "a possibilidade de te integrares nos trabalhos do campo". O que quer dizer que te acordam às cinco da manhã para ordenhar uma vaca. Não te lixa?

É como ires à bomba da gasolina e teres de pôr tu a gasolina, ou como ires ao Mac Donalds e teres de arrumar o tabuleiro. Ou seja, o normal. Então, levantas-te às cinco para ordenhar as vacas. E digo eu: porque raio é que é preciso ordenhar as vacas tão cedo? O leite está lá! Não se podem ordenhar depois do pequeno-almoço? Eu acho que isto é só para chatear,
porque a vaca deve ficar muito contente por a acordarem às cinco da manhã para um estranho lhe vir mexer nas mamas. A vaca olha para ti como se dissesse: "Ouve lá, pá! Se queres leite vai ao frigorífico e abre um pacote!" É que é mesmo só para chatear!!!

Mas o "encanto" definitivo são "as actividades ao ar livre". Como quando te põem a fazer caminhada, que é aquilo a que normalmente se chama andar, e consiste, exactamente, em por um pé em frente ao outro até não poderes mais, enquanto os da terra vão num jipe com ar condicionado. Mas tu, feliz da vida, vais pelo campo atordoado.
Tornas-te bucólico e tudo te parece impressionante: vês uma vaca e dizes: "Ummmmm, que cheirinho a campo". A campo não, a bosta!!! Mas, isso sim, é a bosta "com encanto". E tudo, seja o que for, te sabe maravilhosamente: na mesa pespegam-te dois ovos estrelados com chouriço e tu na cidade não comes estes ovos, nem estes chouriços. E perguntas ao
empregado:
- Este chouriço é da matança?
- Quase, porque o gajo do camião da Izidoro ia morrendo ali na curva.

De repente, ouves umas badaladas e dizes:
- Ah! Que paz! Não há nada como o som de um sino!...
E o gajo do café diz-te:
- É gravado. Não vê o altifalante no campanário?

Nesse momento, perguntas-te se os ruídos das galinhas e dos grilos não estarão num CD: "RuralMix2006", "Os 101 Maiores Êxitos Campestres". A única coisa de que tens a certeza é que os cabrões dos mosquitos são verdadeiros.Pareces um Ferrero Rocher com varicela!!! Eu acho que, de segunda a sexta, as pessoas destas terras vivem como toda a gente, mas ao fim-de-semana espalham pela estrada uns tipos mascarados de pastores e quando vêem que se aproxima um carro, avisam os da terra pelo telemóvel: "hei, vêm aí os do turismo rural!" E mudam o cartaz de "Videoclube" pelo de "Tasca", soltam uns cães pelas ruas e sentam à entrada na terra dois avozinhos a fazer sapatos, que depois tu compras uns e saiem-te mais caros que uns Nike. Enfim, acho que uma montagem tão grande como esta não pode ser obra de pessoas isoladas. Tenho a certeza de que estão implicadas as autoridades.

Imagino o Presidente da Câmara: - "Queridos conterrâneos: este Verão, para aumentar o turismo, vamos importar mais mosquitos do Amazonas, que no ano passado tiveram imenso êxito. E quero ver toda a gente com boina, nada de bonés de pala da Marlboro. E façam o favor de pintar o espaço entre as sobrancelhas, que assim não parecem da província! E as avós: nada de topless na ribeira, que espantam os mosquitos! E só mais uma coisa: este ano não é preciso ninguém fazer de maluquinho da terra, que com os que vêm de fora já chega!

The difference between men and boys

The difference between men and boys it's the price of their toys!

02 agosto 2006

Deixai vir a mim as migalhinhas...

Parecia mal encher uma entrada deste blog com obscenidades. Mas pensar que o meu banco me está a comer uma viagenzita dá-me uma súbita vontade de blasfemar...

Ir ao fundo e voltar, oh minha cana verde

A repórter da RTP visita o Festival Andanças, em Carvalhais, S.Pedro do Sul. Visita múltiplos espaços onde professores de dança trabalham com grupos de entusiasmados alunos em diversas modalidades dessa (pelo menos para alguns) tão complexa arte de dançar. Os monitores são na sua maioria estrangeiros. O primeiro entrevistado, um espanhol de quem não fixei o nome, fala da adesão popular ao aprendizado da dança. As perguntas, colocadas pela repórter num "portunhol" complexo, aproximam-se perigosamente do abismo linguístico, tendo de ser colocadas duas e três vezes até à sua completa percepção. Mas a coisa vai fluindo. Num remate tão espectacular quanto traiçoeiro, a jovem jornalista pergunta "Los portugueses no se quedan embarazados?" (Os portugueses não engravidam?), fazendo com que os globos oculares do espanhol quisessem saltar das órbitas. Acaba por se fazer entender substituindo o "embarazados" por envergonhados, termo que o espanhol não entende, respondendo uma banalidade qualquer que não fixei por ainda me estar a rir. O que é certo e raro, é que a jornalista não terminou a peça sem assumir o erro, explicando-o com simplicidade e eficácia. Conseguiu transformar o pesadelo numa lição pedagógica. O que é sempre de aplaudir.

Manel, pá! Manel é que era!

01 agosto 2006

Era o vinho, meu bem, era o vinho

"Dá-me aí por favor dois copos de vinho branco que é preciso lá em casa para temperar uma carne e eu esqueci-me de o comprar...". Onde é que o levas? "Trouxe-te este frasco", aponto um gordo frasco de vidro que antes serviu de contentor de pickles, os pickles mais amargos que alguma vez me lembro de ter comido. Então posso deitar directo do barril... "Como assim? Como é que medes se não usares o copo?" Fácil, senhor Aniceto, aí no rótulo não diz Peso Líquido: 540 gramas?

AEK 3 - Benfica 1

..."Fernando Santos pediu para esquecer amarguras e disse que o jogo com o AEK de Atenas deverá, hoje, ser já encarado “a sério”, como se fosse uma partida oficial. É tempo de relativizar a falta de automatismos que a nova táctica ainda pode apresentar e compensá-la com empenho e entrega máxima."...

Pois...

Eis Stern

Estou aqui, de colher em punho a olhar para um gelado que comprei na Sexta Feira. O gelado em si não tem nada de extraordinário, excepto quem sabe umas nozes caramelizadas que teimam em ficar coladas aos dentes, mas suspeito que os alemães reciclam o anti-congelante dos radiadores de automóvel para fabricar gelados deste tipo. Não é absolutamente normal que esta mistela não congele depois de 48 horas de frio intenso. Fiquei tão espantado que até voltei à arca congeladora aqui de casa para verificar a temperatura que estava (e ainda está) em vinte graus negativos... Apalpei os sacos gélidos da gaveta, não querendo acreditar no fenómeno. A colher entra na massa como se isto tivesse estado à temperatura ambiente... Somem isto ao mistério das Mini Sagres que não congelam e temos matéria para um Twilight Zone.