03 janeiro 2009

Steve Jobs e o porteiro do Musée d'Orsay

"Pedem-me que redija um artigo sobre Steve Jobs, Que posso eu dizer que não tenha já sido dito sobre o mentor do Macintosh? Que não tenha já gasto toneladas de tinta ou sido reciclado em electrões? Que o admiro, que idolatro a forma visionária como gere, dizem que com mão de ferro, a companhia detentora da marca com que trabalho? Ou das épicas narrativas de mau feitio, algumas das quais se confundem já com as brumas que envolvem as lendas...

Digam o que disserem, Steve Jobs é um homem que fez amigos em Portugal quando não era ainda mais do que uma promessa da indústria. Quando em horas menos boas se viu apenas rodeado por aqueles que não o abandonaram, fez justiça a essas amizades dos momentos menos bons e a sua única presença "oficial" em Portugal até à data deu-se para a despedida de uma dessas amizades. Mas voltemos à minha escrita...

Esta história não começa exactamente à porta do Museu d'Orsay, mas muito, mesmo muito longe dali, do outro lado do mundo, no hall do Moscone Center de San Francisco. Corria um dos dias da MacWorld, um dos maiores eventos mundiais da Apple, palco dos maiores anúncios de produtos Apple, local para onde convergem milhares de utilizadores e profissionais da marca.

Uma MacWorld é, com a devida escala, e onde quer que a mesma se realize, a Meca da maçã dentada. A feira, as actividades paralelas para o público consumidor ou para os colaboradores da companhia proporcionam momentos ímpares de atracção e o difícil é mesmo conciliar a agenda planeada quase seis meses antes, com as entradas de última hora de clientes ou colegas de profissão provenientes de quase todo o planeta.

E ali estava eu, quase no último dia da MacWorld San Francisco, carregado de pastas, catálogos e merchandising diverso, ajoujado que nem um almocreve de feira, procurando com o olhar um local onde pudesse colocar em ordem algum material, quando alguém grita o meu nome alguns metros atrás de mim. Volto-me subitamente e dá-se a desgraça, a generosa mochila, os sacos e pastas e demais tralha estão espalhados no chão e no meio daquele círculo de papel está um homem agachado a esfregar um tornozelo num esgar de dor.

Baixo-me para o ajudar a levantar e pedir-lhe desculpa e sou eu que fico seriamente preocupado quando reconheço a pessoa a quem involuntariamente acabei de agredir. Era Phill Schiller, um vice-presidente da Apple, aquele a quem apelidamos carinhosamente de "braço direito d'Ele"...

Não me parece que seja muito boa política de Public Relations travar conhecimento com vice-presidentes de qualquer companhia, aplicando-lhe uma valente bordoada, mas tratou-se de um acidente e assim espero que ele o entenda. Trocamos palavras de circunstância, reparo num olhar dele no badge que me pende do peito numa fita e enquanto recupero os meus pertences desejo ardentemente que ele não tenha conseguido ler o meu nome ou o meu país de origem.

Já a caminho do hotel onde pernoitarei, não consigo deixar de pensar no assunto. Imagino o que seria se o acidente tivesse sucedido com Steve Jobs. Amanhã toda a Internet teria parangonas sobre "o tipo que agrediu Steve Jobs" ou qualquer coisa de ainda mais aterrador...

Ainda assim, e apesar de um episódio fortuito, a história conheceu-se internamente. Pelo menos um dos meus superiores manifestou preocupação no sucedido e quis saber pormenores da reacção de Schiller. O assunto acabou por morrer de causas naturais.

Até ao dia em que, dois anos mais tarde, a Apple organizou um evento europeu para colaboradores. No final de um esgotante dia no Palais de Congrés, depois de uma Keynote de Steve Jobs e largos quilómetros percorridos em pavilhões e stands, é-me entregue um convite para um jantar no Musée d'Orsay, um evento de celebração de um qualquer aniversário europeu da companhia.

À hora marcada lá estou, na companhia de milhares de colegas europeus, enfrentando numa fila ordenada o intenso frio que se faz sentir no Quai d'Orsay. Sou surpreendido à porta do museu por uma dupla do Board que não esperava. Ali estão Steve Jobs e Phill Schiller, cumprimentando um por um todos os que chegam, e são como já disse, milhares de pessoas. Vou retendo pormenores mentais desta operação de marketing interno. É inesperado e não é algo que aconteça com regularidade. É um Steve Jobs informal que contrasta com a encenação de uma Keynote, não é esta a imagem que temos dele. A seu lado o habitual Schiller, o bonacheirão simpático que nos habituámos a ver brincar com produtos da concorrência.

Já deambulando de prato na mão, em pleno jantar, volto a encontrar a dupla, fugazmente frente a um Monet. Aceno e estranho não estarem rodeados da habitual equipa de PR's. É Schiller que olha para mim e diz para Jobs "Hey! this guy wanted to kill me once...".

Steve franziu o sobrolho, nada percebendo e eu aproveitei a oportunidade para me escapulir. Eu pensava que este assunto estava morto..."

O texto acima foi publicado em Janeiro de 2008 no Portal VER

4 comentários:

pomaceous disse...

Postei um link para este texto aqui:

http://pomaceous.wordpress.com/2009/01/03/hey-this-guy-wanted-to-kill-me-once/

Diogo disse...

Caro Pedro,

Na qualidade de jornalista (que sou) deixe que lhe diga que a intensidade do texto é excelente, para além da forma como está escrito. Parabéns!
Um abraço

Diogo OM

Pedro Aniceto disse...

Obrigado Diogo!

Márcio Veiga disse...

Excelente história :)