25 julho 2012

O homem da cara


Os meninos crescem, tornam-se homens, alguns, poucos, serão forcados. Poucos os que aspiram à cara do touro, alguns só em sonhos lá chegarão, outros nem por isso, passam de meninos a homens, se acharmos que chamar menino a um latagão de um metro e oitenta e cem quilos de peso será apropriado, e o mais das vezes não o é. Falo de Zé, o filho do coxo, como disse atrás, dois passos e dois ajudas, Zé chegou à cara do seu primeiro touro na semana passada na Praça da Póvoa de Varzim, poderia ter sido noutro lado qualquer que dizem os que sabem destas coisas que não há touro como o primeiro ao qual se agarra a barbela com dois braços como toros, e a alma, sabe-se lá como vai a alma na viagem.

Diz-me o coxo que todo o forcado tem medo, acredito, quem sou eu para o contrariar que nestas coisas dos touros pouco risco embora aprecie toda a estética, a que se vê, mas ainda mais a que se sente na electricidade que corre nas trincheiras e na arena.

O coxo, como não poderia deixar de ser, está na praça, às escondidas de Zé, o filho, que o proibiu de ir à corrida, mas sabe-se como são estas coisas, eu mesmo já desobedeci a ordens de filhos que me disseram "Não vás" uma frase em que a palavra "Vai!" estava apenas mal escrita.

Resolvido o problema com o abraço cúmplice, o filho avistou o pai na bancada, selaram a desobediência com ambos de olhos húmidos, um aceno, "Anda cá..." e abraçou-o como raras vezes se vê um filho abraçar um pai ou vice-versa. Enquanto durou o abraço, a cara de um junto à boca do outro, houve ali em Praça um momento que ninguém conseguiu escutar (e eu só sei dele porque me contaram) em que o filho segredou ao pai "São seiscentos e cinquenta quilos, meu pai..." e que o coxo, homem experimentado que já provara dúzias de vezes o sabor desse mesmo medo à boca da arena, quando o Cabo do grupo dá o barrete, esse símbolo máximo de comando sobre a areia e diz "Fulano à cara!", retorquiu com o amor que só dois forcados conseguem entender:
"Mas não o vais levar ao colo, pois não?"

Podia esta narrativa terminar aqui, era um final digno, uma estocada certeira e fatal, mas não seria justo. Nem para o leitor, nem para o coxo que à beira de uma mini me chamou hoje mesmo para me dar notícias de outro assunto e a quem, a ferros, arranquei esta historieta. "Como correu a pega?" não pude deixar de perguntar. E ouvi, enternecido e a visualizar o momento, a pose recolhida de Zé, o barrete dobrado entre dedos a brindar ao pai, o coxo,  e a dedicar-lhe a pega, e este último à beira de se debulhar em lágrimas, inchado pelo orgulho do filho, sangue do seu sangue em Praça com a voz a falhar-lhe descaradamente, respondendo como é tradição desd'El-Rei: Saúde! Saúde e sorte!

3 comentários:

Luísa Cortesão disse...

lindo!

Patricia Lousinha disse...

Uau…

blimunda sete luas disse...

Pois que da próxima vez que me calhar entrevistar um forcado, dou-te a tarefa a ti de bom grado! Mas agora o meu texto já está feito, paciência, fica para a próxima... ;-)