28 março 2013

Entrevista a José Sócrates

Posso sofrer de muita coisa mas não sofro do Síndroma de Estocolmo. Foi com esta máxima na cabeça que me sentei ontem à noite para ver a previamente famosa entrevista a José Sócrates. Tentei não fazer juízos prévios, tentei ser neutro sem pensar na carteira e em todos os aborrecimentos que me têm infernizado a vida económica nos últimos dois anos. A verdade é que queria ver, em primeira mão, como gerir uma imagem queimada. Sim, são os exemplos de gestão de imagem em pleno incêndio que me interessam e onde se pode beber algo de verdadeiramente proveitoso. José Sócrates, usando uma metáfora futebolística, entrou a pressionar, deixou estabilizar o meio campo e acabou o jogo em cima dos adversários. Dominou, diria. Com a matéria bem estudada, com os números a sair fluentemente sem hesitações de ar convicto (não posso dizer "ar seguro" sob pena de me começar a rir sozinho). José Sócrates não é (creio que nunca foi), um entrevistado dócil. Não se deixa interromper (notei uma única vez em que tal aconteceu) e patenteou um ar sereno (apenas por duas vezes se impacientou a ponto de demonstrar alguma irritação). Ajustou as suas contas com Cavaco Silva? Não. Ainda não. Revenge's a bitch! Mas creio que fez esse ajuste com o Partido Socialista. Discretamente, queixou-se da falta de apoio durante estes dois anos. Gostei mesmo bastante do modo como definiu a seu bel-prazer o curso de hora e meia de conversa. E não gostei mesmo nada do ar de quase intimidados dos dois entrevistadores.

Creio que existiu nesta entrevista um momento menos feliz por parte de Sócrates. Sei que as pessoas têm a memória curta e que amanhã terão esquecido mais de metade do que foi dito, mas, ou muito me engano ou alguém terá de engolir a frase "Não tenho quaisquer planos de regresso à actividade política". Nesta afirmação eu não acredito. Ponto.

6 comentários:

Miguel Garcia disse...

"Não tenho quaisquer planos de regresso à actividade política"

Esta frase dele, logo no inicio da entrevista, é uma resposta salvo erro, a uma pergunta do género: Pretende voltar à vida politica... concorrer a Belém, ou ser PM?
Ele responde, ao AGORA, ex: "Agora não penso nada disso" não exclui nada para o futuro ;-)

Luísa Cortesão disse...

não vi tudo. irritei-me com os jornalistas e não sou masoquista. continua o encarniçamento contra o homem. houve "manifestação" ou só petição? ao ferro arrumaram-no com uma falsa acusação de pedofilia e ainda quiseram fazer o mesmo ao sampaio. este é mais duro de roer. haja sócrates!

Ana Ferreira disse...

Dominou... e marcou? Domínio sem pontos não serve de nada. Vi no Jornal da Tarde que havia grupos de manifestantes à espera do dito cujo à porta da RTP, uns para protestar e outros para lhe entregarem flores. Folgo muito em saber que ainda há em Portugal quem tenha dinheiro para gastar em futilidades, eu nem para o funeral dele mandava flores.

oficina grotesca disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
oficina grotesca disse...

"Não tenho quaisquer planos de regresso à actividade política" é uma "santanidade": é claro que vai voltar! esperem pelo próximo congresso do ps. nessa altura, alguns saudosistas, "preocupados" com o estado da nação, vão pedir-lhe de joelhos para que regresse ao activo. e socras, magnânimo como nós o conhecemos, mas contra sua vontade, vai aceitar regressar.

por alguma razão lá puseram um fantoche seguro para aparar os golpes enquanto ele se recompõem e afina a narrativa do sebastiânico regresso.

na práctica é indiferente estar lá ou não estar: o PS faz parte da troica deste governo, mesmo não tendo representação ministerial. utilizando a tua gíria futebolística, está neste momento no banco dos suplentes

mluisbrown disse...

Concordo com o nosso amigo Miguel Garcia. "Não tenho quaisquer planos de regresso à actividade política" quer dizer que ele não tem planos, AGORA. Planos mudam-se :-) Se ele regressar à política, isso em nada invalida a resposta dada nesta entrevista.