30 novembro 2005

Stainless

Tamborilo os dedos na mesa do café, enquanto respiro fundo a tentar reunir alguma paciência para com o meu interlocutor. É um dos tais specimens que me irrita profundamente, principalmente pela arrogância da ignorância que se não cansa se alardear. Não importa a discussão, a conversa, o monólogo, que é mais isto do que se trata porque há muito deixei de responder. Aquilo que me detém é que o personagem não é um qualquer zé-ninguém, mas sim uma figura de relevo na hierarquia militar. Diz disparates técnicos que não devia dizer, rematados por um "está a perceber?" que me deixa interiormente furioso e capaz de ser até mal educado na interpelação. Sou salvo por um dos presentes que sem o saber impede que eu faça ruir a muralha da inteligência artificial que lhe emana dos galões. Há uma dúvida técnica sobre armas brancas e a legalidade do comprimento de determinada lâmina. Sua excelência inverte o rumo da conversa e abençoa-nos a todos com uma prédica sobre o tema, no final da qual aproveito para, delicadamente, pensar em evadir-me da minha própria fúria. O recém chegado não se contenta com o discurso e pede autorização para mostrar o artefacto. Obtido o militar assentimento, do bolso traseiro emerge uma vistosa navalha de ponta e mola que suscita assobios a alguns dos presentes e que é de pronto cuidadosa e cientificamente observada por aquele a quem minutos antes me tinha apetecido esganar. Mira-lhe o cabo delicadamente trabalhado e a esguia lâmina. Mede-a em dedos. Detém-se na inscrição da gola do aço e diz com ar impante. "Hummm... Stêinlésse. Boa navalha! Tenho lá uma da mesma marca...". Levanto-me como se tivesse sido anavalhado. A assistência lá permanece a beber da sapiência do senhor Major...

Estão a ver?

Escangalho-me, sim, escangalho-me (palavra curiosa, esta) a rir perante um texto de Ricardo Araújo Pereira, que, nas páginas da Visão assina uma coluna (Boca do Inferno) que por norma me faz rir um pedaço. Esta semana, R.A.P. escreve "à Lobo Antunes", com todos os tiques e vícios estilísticos do sempre eterno nobilizável. Não fora a assinatura e eu não saberia quem era quem... Não lhe chega escrever com graça, ser benfiquista e agora pretendente a imitador daquele que é, para mim, o génio da pequena crónica suburbana. Agarrem-me senão desato a falar de toalhas de linóleo (que são a primeira coisa de que me lembro quando falo de Lobo Antunes) e de amores gastos e vidas cansadas. Escangalho-me, sim, escangalho-me, perante um texto de Ricardo Araújo Pereira. Estão a ver?

Mas esta semana está já marcada por outra leitura. As intermitências da morte, a última obra impressa de Saramago é um portento. Falava eu acima de génios. Porque não conhecia em Saramago um humor mordaz como quem brinca aos Deuses (havia qualquer coisa disto no Memorial do Convento) capaz de jogar o (e com o) leitor de uma página para a seguinte como quem diz "espera que logo bebes", mostrar aos sequiosos a garrafa e fazê-la voar em pedaços mais duas folhas depois. Estou tão impressionado com esta nova faceta que ainda só arrisquei trinta páginas, um singelo capítulo, que já voltei a reler como quem diz "ora bolas, isto é tão simples, porque é que não escrevo assim?". Provavelmente porque nunca passarei de um imitador estilístico. Assim, como quem tira à boca seca a libertação da água que tudo leva sem se deter. Sede. Estão a ver?

29 novembro 2005

Cabra!

Entro no café esfregando as mãos do frio do corpo e da alma. Uma bica por favor. Reparo em B. que está no fundo do recinto mexendo numa caixa de enfeites de Natal com um semblante absolutamente entediado e aceno-lhe. Vê-me e alegra-se. Larga tudo o que está a fazer e avança, falando-me com voz estridente. "Pedro, Pedro! Vais ver o Manchester ao Estádio da Luz?". Não sei B., acho que não. "Em que dia é?" É dia sete do mês que vem. Conta pelos dedos, repetindo as cabeças dos dedos a cada engano. "Não posso ir, que chatice...". Não podes porquê? A mãe de B. de quem ela herdou uma voz capaz de partir copos a cada nota mais aguda, invade-nos a conversa para justificar o impedimento. "Ela está de castigo até dia 8!". Registo o castigo e aguardo que a progenitora se afaste para tentar perceber o que se passa. Quando isso acontece e B. está ali, empoleirada no banco de bar junto ao balcão a requerer a minha atenção, pergunto de chofre. O que é que aconteceu? Porque é que estás de castigo? "Respondi mal à educadora...". Parece-me pesada a pena para tão leve pecado. "Achas bem? Achas bem? Estive toda a tarde a fazer cópias e ditados". Não me me permite sequer retorquir. "Chamei-lhe cabra!". Não deixo de notar um certo ar de orgulho, de quem se ufana de ter feito a coisa acertada... Decido não perguntar porquê. Ao contrário, pergunto-lhe se achou o castigo injusto. "Injusto, injusto não é, mas..." Mas? O que é que faltou nesse "mas..."? "Só é injusto por causa de uma coisa...". O pai, está atrás do balcão, atento à conversa e B. sabe disso. Baixa o tom de voz e enquanto eu levo a chávena à boca, faz a pequena mão em concha e diz-me ao ouvido: "Só acho injusto porque toda a gente acha que ela é uma cabra e só eu é que fiquei de castigo!".