17 abril 2010

Oh simple things

Há muitos, muitos anos fui ao Circo. Deve ter sido a única vez que em criança me proporcionaram um espectáculo destes. Não o lamento. Provavelmente foi por isso mesmo que a vida me compensou com a visão periódica de palhaços. Não me recordo de muito, salvo que era no Coliseu e que havia um palhaço que fazia truques de ilusionismo. Um palhaço rico. Invejei-o durante anos. Não por ser palhaço, não por ser rico. E foi provavelmente por isso que periodicamente encontro palhaços, dos ricos, a fazer truques de ilusionismo. Adiante. O palhaço rico pegava numa folha de papel de jornal e fazia um cartucho enorme. Pegava num jarro de vidro cheio de água e despejava-a para dentro do cartucho e para espanto dos presentes desenrolava a folha e de dentro dela nem uma gota de água. Voltava a enrolar o cartucho e a água reaparecia (magia!) e era devolvida ao jarro de vidro transparente. Aquele truque e a sua mecânica perseguiram-me durante anos. Mais do que uma vez a minha mãe se zangou comigo por eu usar o seu jarro de vidro de servir àgua à mesa, porque eu achava, ingenuamente, que ele era peça preponderante do embuste. Mais do que uma vez fui obrigado a secar o chão do meu quarto, eterno palco de experiências de todo o género, da água que teimava em não desaparecer de dentro da folha de jornal. Com os anos, acalmei. Conheci ainda mais palhaços, ricos e pobres, e gente que vive de ilusão. Um dia, já bem mais crescido pude trabalhar com um mágico. Conheci-lhe segredos, desvendei truques e manhas. Li-lhe a arte. Certa tarde, ao vê-lo ensaiar um número similar ao da folha de jornal e do jarro da água, recordei-me de tudo. De tudo. Dos anos de canseira em busca da verdade. E perguntei-lhe. Perguntei-lhe como, propus-me saber tudo sobre aquela ilusão irritante que permanece em mim como uma cicatriz no cérebro. E ele, naturalmente, explicou-me. Foi pena. Depois de saber como, a ilusão desapareceu. Nunca mais houve magia, encanto ou mistério. É por isso que nunca mais perguntarei como. Prefiro não saber. O nosso encantamento das coisas que não sabemos como se fazem é muito mais saboroso do que a verdade. Palhaços!

4 comentários:

relogio.de.corda disse...

Viver na ilusão...
Há quem goste. Mas uma coisa é certa; a vida também tem de ter a sua magia, senão, isto não teria graça nenhuma.

botinhas disse...

Costuma estar na Puerta del Sol em Madrid um tipo exactamente com o mesmo truque.
Qnd quiseres saber como se faz, pergunta-me! ;)

Jorge Laranjo disse...

Confirma-se o que diz o Botinhas. E não é só na "Puerta del Sol" de Madrid.
Há mais pela cidade mas não deixa de ser um truque demasiado simples.

Bernardo disse...

pensando um bocadinho, penso que seja fácil chegar a uma maneira que penso que torna possível este truque. se é assim que se faz é que não sei =p