31 janeiro 2008

Pasta de papel e sementes


Sempre atentos, os leitores deste blog não perdem a oportunidade de informar sobre algo, quando eu manifesto desconhecimento sobre determinada matéria. Foi o caso de Raul S. que me avança a existência no catálogo da DMail das tiras de papel com sementes, que basta plantar e regar. Já é um primeiro passo...

Je vous fais une lettre (Que vous lirez peut-être)

Parece que há actualmente vinte e uma designações para os estabelecimentos hoteleiros portugueses nas suas diversas classes. Parece que isso é demasiado confuso para alguém lá em cima e que uma comissão vai encarregar-se de acabar com quase metade das categorias de pensões, albergues, moteis e outros que teis... Queria aqui apenas lembrar que acabar com a designação "Pensão Residencial" vai mexer com aspectos culturais muito próprios da lusa gente. Para mim, e para muitos dos meus amigos e conhecidos, a simples designação "Pensão" tem uma carga muito forte e esta intimamente relacionada (as palavras não aparecem por acaso) com uma época das nossas vidas. E que nem fosse por isso apenas. Nem me parece moralmente aceitável que alguém possa vir a dizer "Vamos ali ao Albergue Residencial de Turismo promover a troca de fluidos?"

The Art of Motorcycle Maintenance

Quando hoje o médico me perguntou: "Vês?", eu disse que não. Irritei-me, ainda que superficialmente quando ele retorquiu: "Tens de ver!", o que é uma coisa que me tem causado alguns atritos com a classe médica que insiste em dar ordens aos meus sentidos. Ainda meio cego e com um líquido fluorescente amarelo a escorrer-me dos olhos, olhei para a tampa do sofisticado aparelho com que ele esquadrinha os fundos das minhas pupilas e percebi que a tampa estava fechada. "Ver não vejo, mas sinto...". "Sentes o quê?". "A força. Luke, a força!". Não lho disse, mas Yoda velho estar. Ele abriu a tampa da máquina, suspirou profundamente e disse-me que é cedo para respirar de alívio.

30 janeiro 2008

Disse "Frescas"?

..."Seis toneladas de vários tipos de peixe fora de prazo há dois anos, mais de duas toneladas de salsichas frescas que perderam a validade em Setembro de 2006, uma tonelada de batatas congeladas que deviam ter sido consumidas até 2003 e ainda vários outros produtos congelados foram, hoje, apreendidos pela ASAE."

Wake up!

Não coma quadrados de chocolate enquanto trabalha. Agarrar nos pedaços e levá-los à boca enquanto trabalha na cópia de documentos para uma Pen USB pode originar que mastigue acidentalmente a tampa da mesma...

A acidental praia

"-Olha lá, vamos sentar-nos e gravar uma conversa sobre a MacWorld?"
"-Amanhã às três?"
"-Pode ser."
"-Ok!"
"-Olha, às três não dá que tenho um almoço às duas..."
"-Amanhã às quatro?"
"-Tá bem..."

29 janeiro 2008

Marketing para principiantes

Quando na empresa se efectuar uma acção de Team Building CERTIFIQUE-SE de que efectivamente se não esquece de convidar nenhum funcionário.

28 janeiro 2008

Turtley

Nem fui eu que dei com ele, foi S. uma das minhas companhias dos dias da América que lhe acenou à saída de um dos pavilhões de exposição do Centro de Congressos. O puto era giro, diferente mesmo, e nem era o cabelo louro esculpido de gel ou uns olhos azuis claríssimos, nem um imenso balão salsicha desses que alguns génios usam para fabricar sonhos coloridos em forma de cão, cobra, flor ou de tartaruga como era o caso. Uma tartaruga gigantesca entrelaçada em tubos verdes cheios de ar. Uma obra de arte, o puto ali especado a admirar a volumosa tartaruga verde água que usava no pulso como um enormíssimo relógio. A mãe, presumo que fosse a mãe, acabara de lha comprar, eu mesmo apanhara num ápice o elaborado chapéu do fazedor de figuras, ali mesmo, na saída de um dos pavilhões. Eu, que nem sempre me lembro das coisas mais eternas e presentes, lembro-me bem que a tartaruga era imensa e alguém tinha desenhado cornucópias verdes nas curvas do balão salsicha. Cumprimentei-o com um sonoro "Hi there, buddy! Nice turtle you've got there!". Ele esticou-me o pequeno braço, os olhos azuis de orgulho no balão. Perguntei-lhe o nome e ele respondeu-me ainda de braço esticado numa tagarelice que não entendi. Fiz um trejeito com a boca, ele percebeu e encheu o peito de ar e numa onda de perdigotos repetiu "PHI-LI-P!". Ahh! Philip! Does that turtle have a name? O puto encolheu o braço, olhou para o balão, como que apanhado desprevenido. Interrogou a mãe com os olhos que lhe respondeu com um sorriso e eu li-lhe nos olhos a aflição da resposta que não tardou, já prevenida da minha incapacidade de o perceber. "TUR-TLEY!". Eu tinha na mão um saco de chocolates e tentei-o. "Wanna trade your turtle, Philip?". A mãe, presumo que fosse a mãe, riu-se. Os olhos gulosos de Philip mostraram-me que ele já tinha decido fazer o negócio. A mãozita a tentar desapertar o balão do braço, os olhares aflitos à procura da autorização da mãe e eu a agachar-me, envergonhado, para o ter mais perto, a dizer-lhe que não, que já não queria fazer negócio, os olhos azuis aliviados e ao mesmo tempo tristes pela súbita perda de oportunidade. Eu a dizer-lhe com muita calma que estava apenas a brincar com ele. "Are we still buddies?" e ele sem responder, ora toma, bem feito, quem te mandou tentar a tentação ela mesma? Eu ali agachado a encher-lhe os bolsos de chocolates, ele de olhar azul surpreso porque ia ficar a ganhar, não trocava o balão salsicha entrelaçado e ainda cabe mais um aí no bolso das minúsculas calças de ganga. "Are we still buddies?". "Yes, we are!". Ora ainda bem. "See ya, and don't forget to eat all your vegetables", a mãe a rir-se, presumo que fosse a mãe e lembrei-me deles hoje, nem sei porquê, talvez a meio de uma reunião aborrecida de morte, com a conversa às voltas, em espiral, numa sala verde água, tal e qual as cornucópias da Turtley.

What are they for?

A arte da Inconveniência

De há anos a esta parte que me culpo de uma coisa que parece ser sina minha, o facto de de quando em vez conseguir acertar em cheio em situações a que poderia escapar se aguardasse apenas alguns minutos ou horas. Chamo-lhe a arte da inconveniência e passa necessariamente por uma incrível falta de fortuna. São muitas as ocasiões que guardo destes constrangimentos. Perder o contacto com uma colega de há anos e recuperá-lo anos mais tarde pode parecer motivo de alegria, mas deixará de o ser se nos descuidarmos no retomar dessa mesma ligação e formos por qualquer razão adiando a data até ao momento em que agarramos no telefone e dizemos em tom festivo "Então menina o que é feito de ti?" e ouvimos do lado de lá uma voz embargada que nos diz "ela agora não pode falar porque acaba de saber que o marido faleceu...". Ou entrar numa capela mortuária para cumprir uma obrigação moral por alguém, a de dar os sentidos pêsames à família (que não conheço) e enganar-me tragicamente no local do velório onde permaneci mais de trinta minutos, na dúvida se deveria cumprimentar a esposa do falecido pelo nome, coisa que não fiz até me aperceber que estava no velório errado... Já tive mais casos destes de acertar em eventos de forma infeliz. Emprestar um disco a um amigo e por precisar dele tentar recuperá-lo e visitar-lhe o lar sem avisar, para, chegado à porta de casa do mesmo, ser informado que o dito cujo saiu de casa "Para nunca mais voltar" segundo ela. Ainda ensaiei um tímido "e o disco? e o disco?", parece que saiu também mas não pela escada. Enfim infelicidades, azares, coincidências do destino. Acabei de acertar novamente onde não devia. Na passada terça feira em conversa de circunstância no café da aldeia, alguém me pergunta se estou doente porque me tinha visto sair do hospital da região. Pedi desculpa por não a ter então cumprimentado, "mas os meus olhos por ora não me deixam ver ninguém a não ser que venha vestido de locomotiva e terá ainda assim de apitar bastante". Inconveniente a metáfora, a mulher informa-me que tinha ido ao hospital ver o irmão que tinha sofrido uma queda, imagine-se, num comboio. Peço-lhe inúmeras desculpas, envergonho-me por acaso e hábito. É o costume, podia ter usado outra expressão, milhares de outras, mas não, saiu-me aquela, podia ter sido melhor. Não foi. Há pouco reencontrei a senhora. Quis limpar a imagem, cumprimentei-a com a deferência possível. "O seu irmão, como está? Está melhorzinho?". "O meu irmão faleceu na Quarta...". Coro, encabulo-me, rai's parta! Disfarço, olho para o lado, que o café entrou em êxtase. "Olha" digo "foi golo do Sporting!". "Coitado" diz ela "ele era um grande benfiquista..."

27 janeiro 2008

Virtudes

Apareceu há algumas semanas na minha caixa de correio uma lista das sete virtudes que supostamente equilibram a lista dos sete pecados mortais. Estou bem lixado no que diz respeito ao tal do equilíbrio...

-Temperança (Nenhuma!)
- Generosidade (Bastante)
- Humildade (Nenhuma!)
- Castidade (Sim, pois, está claro!)
- Disciplina (Ahahah não me façam rir)
- Paciência (Muita)
- Caridade (Zero, zilch, néribi...)

O pior cego é o que não pode ver

Não é segredo para ninguém que tenho um olho "fora de jogo" que me incapacita nas coisas mais óbvias. Tenho descoberto todos os dias algumas dependências que um tipo nem sabe que tem em relação à visão, mesmo que, como eu, seja um potencial Hubble desde que se conheça. Gestos simples. como o de largar as chaves em qualquer lado, passam a ser alvo de demorada e cuidadosa escolha. Atenções essas que infelizmente só descubro demasiado tarde. Levar meia hora a encontrar o carro das compras abandonado num qualquer corredor do hipermercado é frustrante e demasiado enervante (sim, tenho de meter a cabeça dentro de todos os carros que encontro sem ninguém a empurrá-los...).. Pousar um simples papel num quarto de hotel é uma constante ameaça à estabilidade e sanidade mental. Ontem tentei ver (eufemismo!) o Benfica... Durante noventa minutos só houve, para mim, uma equipa em campo. Sempre a que jogava da esquerda para a direita... Sempre que o Benfica atacava da esquerda para a direita a jogada para mim perdia-se logo a seguir ao meio campo. E se alguém puder pedir ao Cardozo que marque livres com efeito da direita para a esquerda, tanto melhor, que vibrarei muito mais e poupar-me-à a angústia de saber se a bola entrou ou não.

Yael Naim

25 janeiro 2008

Não hei-de morrer... (Everybody's ballgame)

Quantas vezes já disse "Não hei-de morrer sem fazer isto ou aquilo"? Talvez até mais vezes do que aquelas em que acordamos enrolados num sonho? O primeiro que se despedaçou bem à minha frente foi o da caça submarina, no preciso dia em que feito o meu curso de mergulho me disseram (carinhosamente é certo) que eu falhava a Moby Dick caso ela me passasse ao alcance do arpão. Sonhos, sempre sonhos atrás dos quais corremos e em cuja corrida tropeçamos mais vezes do que o esperado. Mas isso nunca me impedirá de ser feliz com as realizações de outros que nunca conheci, seja aos gritos com Fernanda Ribeiro num qualquer sprint final, seja a exclamar Ala Arriba! com este feito que me prova que há sempre tempo.

24 janeiro 2008

The Long Johns

Porque isto é bom demais para ficar enterrado numa caixa de comentários...

23 janeiro 2008

Índice Dow Jolas

Novembro: 2.65
Dezembro: 2,75
Janeiro: 2.89

22 janeiro 2008

A bolsa ou a vida

Com tanto especialista em questões de Bolsa de Valores que anda por aí hoje a palrar em rádios, televisões e jornais, dando com ar sério e convicto conselhos sobre pânico e políticas de investimento, pergunto-mr porque razão nenhum destes especialistas consta da lista dos portugueses mais ricos...

21 janeiro 2008

Having a ball

Nunca fui à China. Mas hoje passeei sem lentes de contacto por Munich e acho que já sei qual é a sensação de ir à China. Abençoados STOP nos semáforos. A hospedeira da Lufthansa a quem pedi que me levasse ao lugar não sei se era bonita ou feia (mas disse que se chamava Íris) mas devia ser loura porque me perguntou se eu precisava de ajuda com o sistema de entretenimento de bordo quando o que eu queria mesmo era conseguir ver o Boeing. Levei mais de trinta minutos a escrever estas linhas e um médico hoje propôs-me uma operação de implantação de lentes intra-oculares depois de eu lhe ter dito que estou um bocado farto de queratites e merdas que me impedem de ver minimamente. Os meus próximos cinco dias, tempo que espero levar na desportiva sem enlouquecer, vão ser deveras divertidos. Posso não estar a ver, mas ouço relativamente bem e quando numa pausa técnica no aeroporto de Chicago o comandante convidou os passageiros a ir ao terminal fazer umas compras e avisou que no exterior estavam -16º Celsius tive pena de não conseguir ligar o TV Brinca cujo monitor adivinhei pelo tacto incrustado nas costa do banco da frente. Não conseguir ver decentemente é muito enervante mas tem momentos em que me faz rir, já que é a única saída. Uma queratite é uma infecção de uma escoriação no cristalino, já tive dúzias delas mas esta é mesmo em frente da Íris (que não a loura) e deixa-me assim a modos que em Londres em dia de muito nevoeiro. É possível que este texto tenha erros, já corrigi mais de trinta mas não tenho mais paciência. Ah e não acho graça nenhuma ao Jetlag, Comprei um rato da Microsoft mas levei meia hora para o instalar porque não consigo ler as caixas de diálogo do instalador. O pessoal de terra da United Airlines dá informações com ar convicto que são prontamente desmentidas pelo primeiro painel de partidas. Mudei três vezes de porta de embarque no O'Hare e lembrei-me de uma cena idêntica no filme "Aeroplano".

20 janeiro 2008

Jack of all trades

Depois de três horas imerso num mundo paralelo de um projecto profissional no qual estou a trabalhar, senti um inenso e profundo respeito pelo desafio e pergunto-me não se conseguiremos mas quando o conseguiremos e se teremos força e meios para o executar.

19 janeiro 2008

Oh simple things

Aqui.

18 janeiro 2008

Business as usual

Visiting the Mother Ship

The Institute for Backup Trauma

A não perder! Depois agradecem-me, 'tá bem?

17 janeiro 2008

Tem regado o meu cartão?


E uma nova moda em papel tipográfico, a de incluir sementes na pasta que virá a ser impressa. Em teoria, a pessoa rega o cartão de visita e tem plantas a crescer. É uma inovação sem dúvida nos EUA mas na Europa já tive bastantes experiências falhadas nesta matéria, talvez porque aqueles a quem entrego alguns dos meus cartões de visita em vez de os regar, apenas se borrifam neles.Deve ser falta de água... Ainda assim levo daqui alguns exemplares para fazer a experiência. (Se bem que acho um bocadinho peregrina a ideia de provocar a destruição do cartão de visita enquanto elemento de informação e contacto.)

Bless you

A simpatia média de um norte-americano é elevadíssima. Face aos padrões médios europeus é surpreendente mas chega a ser invasiva. Falo por mim que na primeira hora de qualquer dos meus dias tenho algumas dificuldades em falar, por mais bem disposto que possa estar e ter de, por delicadeza, responder a alguém que nunca me viu mais gordo mas que me interpela como se me conhecesse desde pequenino, é um nadinha penoso. Nada a que não me tenha habituado ao longo do tempo. Mas continua a ser divertido perceber que espirrei dentro de um autocarro absolutamente rodeado por estranhos e tenha percebido que seis pessoas emitiram um sonoro "Bless you!".

16 janeiro 2008

Infinite Loop

Embarque para Cupertino a horas impróprias. Vou ali endividar-me e já volto...

Whoever you were

Cultura vagamente inútil

A designação norte-americana para o tradicional "Palmier" é "Butterfly", sendo que o "Croissant" continua a ser "Croissant". Eu sei que você sempre quis saber isto e será a partir de agora um ser humano muito melhor. Como bónus, aquilo que remotamente parece ser o português Caracol tem como nome "Elephant ear".

When Harry meets Sally

Budget worries?

Uma pílula de Excel faz milagres.

15 janeiro 2008

There's something in the air

O que é que faz um português que não conseguiu um lugar na Keynote? Improvisa, por forma a ter. Percebe-se rapidamente como é que esta malta tem ainda muito a aprender em termos de segurança... (E onde cabe um português, cabem logo dois ou três!)

Portela+5

Há seis portáteis debaixo dos dedos dos respectivos utilizadores no Harrods Café no Aeroporto da Portela às nove da manhã de hoje. Cinco são Mac! Go figure.

TransOceanic 815

Revi há dias uma temporada de Lost que tinha sido visionada aos pulinhos. É claro que hoje a sugestão faz com que eu veja o Ben em cada fila no avião e reze para que não me calhe o Hurley como companheiro de cadeira...

Check-in

Porque razão cósmica me acontecerá de cada vez que chego atrasado a um Check-in tenho sempre à minha frente um grupo de velhinhas com centos de malas logo seguido de um grupo com dúzias de pranchas de surf, que por serem bagagem irregular demoram longos minutos a processar e nos dias em que chego ao balcão sem pressa nenhuma, nunca tenho ninguém à minha frente?

12 janeiro 2008

Oh simple things

Imagem por cortesia de Ana Amil.

Macworld Expo (San Francisco 2008)

Por força da minha deslocação a San Francisco durante a próxima semana estarei menos presente neste blog e as edições da Mailing List "O Correio dos Outros" poderão sofrer de alguma irregularidade na publicação. Conto no entanto poder ter nesta página alguns curtos apontamentos sobre aspectos que não façam parte do núcleo central de algumas das matérias que pretendo vir a abordar no próximo número da iCreate. Devido à realização da Macworld, a Revista iCreate terá a sua publicação feita na última semana de Janeiro por forma a poder comportar um significativo número de páginas dedicado às novidades anunciadas no certame. Não deixe de consultar este blog com regularidade.

Havia uma Deusa no meu banco (Revisto)

Dez por cento dos rascunhos gerados por este teclado, textos que anseiam um dia crescer e tornar-se em posts são apagados sem retorno ou jazem para sempre no limbo dos meus Drafts do Blogger. Porque me arrependo e se for verdade que só se salva quem se arrepende, eu cá estou safo por mim e por mais três; porque chego a um ponto em que me embaracei tanto na narrativa que não há volta a dar, ou porque perco a vontade de o concluir por qualquer outra razão. A minha pasta de rascunhos é uma espécie de vala comum da inspiração, um Purgatório onde as almas dos textos que nunca foram e dificilmente serão, vagueiam em apagadas tristezas. Uma das principais razões que levam um número razoável de prosas ao supremo sacrifício leminguístico da rocha Tarpeia é a incapacidade de transmitir fielmente ao leitor algumas emoções e/ou sentimentos. Há parágrafos que são como bifes nervosos, mesmo cortados em pequenos pedaços, sendo moídos e mastigados por diversas vezes. vão perdendo a forma original sem nunca melhorarem, quanto mais embrulhados mais enjoam, a escrita e a leitura torna-se penosa até ao golpe de misericórdia, o dedo médio que se abate sobre o Delete, o criador que esmigalha a obra, brincar aos Deuses com as teclas tem sempre incluída esta massagem ao ego.

Este intróito serviu para duas coisas: a) Comprometer-me com a própria escrita, fazendo-me hesitar no esquecimento a que poderei votar as linhas que se seguem b) Aumentar as expectativas do leitor até um ponto em que não consigo alcançá-las, vulgo "estás a arranjar lenha para te queimar, sarna para te coçar, curto pano para manga tão comprida, fraco pavio para demasiada dinamite". Parece-me derrotada a estratégia e ainda nem montei o cavalo nem alinhei os exércitos.

Voltemos à vaca tépida: Como é que se passa a palavras o efeito que uma mulher bonita, anónima, que nunca vimos, mesmo que em sonhos, mesmo que nesses sonhos, provoca num homem? É difícil, bastante difícil. Os mais simplistas diriam "está ali uma gaja boa", era um facto, estava mesmo, com papas e bolos se enganam os tolos, o dito não é meu, é de um trolha que hoje ouvi conversar com o empreiteiro. Talvez o tenha pedido emprestado a alguém, afinal era um trolha e não se pode construir um post com tão fraca matéria, mais a mais ninguém me daria crédito, mesmo que a gaja fosse efectivamente muito boa e tivesse provocado no trolha uma sensação que estou agora em palpos de aranha para descrever num post, coisa que o empreiteiro faria com outra arte, quem sabe um "está ali uma gaja mesmo boa", o que parecendo que não é uma outra forma de expressar o mesmíssimo sentimento, mas com um pedacinho mais de entusiasmo narrativo.

Penso que já perceberam onde quero chegar: Há instintos básicos que todos temos, aumentos de temperatura que todos sentimos mas que se tornam por vezes um inferno de descrever, mais a mais se nos atrevermos a dar à obra um certo estilo que vá além da forma básica da ideia. A verdade é que estou há imenso tempo a pensar na melhor maneira de vos dizer que hoje encontrei uma mulher lindíssima e não consigo deixar de pensar que era uma gaja mesmo muito boa...

Avancemos: Quando entrei na gelada agência da sede do meu banco, por detrás do balcão deslizava uma Deusa, parece que estou a ver o trolha a salivar, eu mesmo pareço estar a salivar mas mentalmente, estou apenas e por delicadeza com o leitor a ser um nadinha mais discreto, o trolha nem estava lá, se bem se recordam estava a falar com o empreiteiro a grande distância dali, apenas o pedi emprestado, a ele e ao dito, para exemplificar um pensamento. Uma Deusa, repito, a deslizar por detrás de um balcão de uma agência bancária, dir-se-ia que deslizava, não lhe vi os pés e duvido que os bancos admitam funcionários que se desloquem descalços por detrás dos balcões, ainda que sejam Deuses, mesmo que sejam a própria sede da instituição, demos-lhe algum crédito, ao próprio banco ou ao narrador.

Lá fora chovia, lá está mais uma expressão roubada, mas não era de noite nem eu estou sentando à máquina de escrever, lembro-me de ter sacudido alguma água do casaco quando a vi, se bem que uma coisa não esteja com esta última relacionada. Um vestido cingido a realçar as curvas do corpo que se deixavam ver, um despido fingido a realçar as curvas que nem se viam, há momentos em que todos, mesmo todos, temos um trolha dentro de nós.

Disse ao que ia. Ela sorriu nem sei porquê, talvez cortesia profissional, era um pedido difícil e implicava a abertura de um cofre, cá para mim e para os meus botões pensei bem que podia o cofre demorar-se o dia inteiro a abrir, por quem sois. Pois abriu-se-lhe mais depressa o decote que o cofre, cá está, uma frase que precisa mesmo de ser requalificada apesar de ser verdade, ninguém pode escrever assim a cru desta maneira, poder pode, dever não devo, se os olhos também comem, dizem, é feio interromper aos mortais a refeição, deixa-me tirar-lhe os olhos do peito semi descoberto, não tarda estou a salivar e não é só mentalmente. Faço conversa de ocasião, estou ali eu encostado ao mármore gelado do balcão, um festim visual à minha frente e estou propositadamente a esquecer-me do senhor Neves que devia ser um gerente, mas que para aqui não é chamado a não ser quando ela lhe pediu que fosse abrir o preguiçoso do cofre e fê-lo, juro, com voz de Jessica Rabbit com o cio. Coisa capaz de derreter as e o Neves.

Fazemos conversa mole, ocorre-me um trocadilho básico mas resisto-lhe, mesmo quando ele, o trocadilho, me sorri, o descarado, tão provocador quanto ele, o decote, o deslizar, as formas e tudo o mais que não retive. Digo-lhe com sinceridade que aquele banco, a sede não esqueçamos, não parece um banco, três pessoas apenas e tanto mármore. Voltou à cena a voz de Jessica, com menos cio, queixando-se do frio, oh céus, agora sou eu que sorrio, pergunto-lhe pelos clientes, a Deusa faz um beicinho em jeito de espera que logo bebes, basta abrirem-se as comportas clientelares e será um ver se te avias, um fartar vilanagem. Estamos nisto e no abre-te cofre quando as portas se abriram num jorro de clientela, ela a dizer-me em tom mavioso "está a ver? está a ver?" e eu a pensar que não faço outra coisa há mais de vinte minutos, não lho disse, escrevo-o agora que ainda vai perfeitamente a tempo. Da particularidade da clientela não guardei grande pormenor, nunca guardo, não tenho grande habilidade para jogos de memória. Há um senhor africano com ar de administrador, fato de belo corte perlado de gotas de água que lá fora continua a tombar que Deus a dá, fosse a água deste banco e teria um custo certamente. quanto mais não fosse uma comissão pela mudança de gasoso para liquído. Há dois yuppies que entraram a conversar mas estão agora calados, pudera, os homens alinham-se ordenadamente e vão perdendo as capacidades vocais assim que começam a perceber o que vêem, talvez mais ainda quando realizam o que não conseguem ver. Há mais três homens, não são relevantes, se exceptuarmos o ar de basbaques que todos temos ali, fila de pirilau, de seis dos ditos legítimos se a natureza das coisas simples não tiver sido abastardada.

É nesta fase que o senhor Neves já voltou das catacumbas, presumo que tenha fechado o cofre não vá dar-lhe alguma corrente de ar e se apercebe que tem uma resma de clientes à espera, não me parece embora, 'tás doido?, que nenhum deles queira reclamar a avaliar pelo ar satisfeito que ostentam. Quando Neves se senta na caixa ao lado da Deusa e diz "Podem passar pela ordem da fila..." é vê-los esticar o pescoço e observar os varandins, disfarçar baixinho o assobio que não se ouve. Eu por mim estou despachado, aqui me avio, benza-os Deus, guardo os meus pertences e um último sorriso dela. Importante que não me esqueça das notas que fui buscar, coisa que me envergonharia mas que nesta altura sabemos ser já muito compreensível.

Quando saio, a força da chuva que tomba obriga-me a permanecer debaixo de uma reentrância da fachada. O senhor africano com ar e fato de administrador, atravessou a porta rotativa, piscou-me o olho e sussurrou-me "Mas é que está ali uma gaja muito boa, pá!". Eu, sacudi algumas gotas de água do fato de macaco, e fui-me embora sem apagar o post que nesta altura ainda não estava escrito mas já tinha sido condenado a nunca ver a luz do dia.

iJam

Aqui. Via Onde é que eu estava no 25 de Abril

I like chinese

Isto é uma coisa digna de ser visitada e que agendarei numa próxima oportunidade.

11 janeiro 2008

Há uma primeira vez

Foi a primeira vez que almocei com duas figuras públicas e que, caído dos céus, um admirador de ambos nos invadiu o almoço para obter autógrafos. Senti-me confortável no meu anonimato e ao mesmo tempo espantado pelas situações intempestivas que isto deve causar-lhes praticamente todos os dias... Uma mão estendida, nem bom dia nem boa tarde, um ar de felicidade a reluzir-lhe no rosto, a frase "é um verdadeiro prazer poder cumprimentá-lo", o contentamento de levar para casa um papel autografado por pessoas que por vezes temos como inatingíveis. Uma das figuras com quem almocei confessou-me ser mesmo a primeira vez que dava um autógrafo a um admirador. Tentei contar-lhes a história do meu primeiro pedido de autógrafo a uma celebridade. Para vocês perceberem há quantos anos isto já foi, aconteceu na inauguração do segundo Centro Comercial de Lisboa, o hoje velho, abandonado e estafado Imaviz. (Pausa para se poderem rir um bocadinho). Num dos patamares intermédios do Centro, dentro de uma espécie de quiosque decorado com logótipos Timex, estava Emerson Fittipaldi, na altura a promover a sua própria escuderia, a infeliz e pouco saudosa Copersucar, então patrocinada pela multi nacional americana de relógios. Na fila que se formou para a obtenção do almejado rabisco, consegui ser dos primeiros. Chegada a minha vez, um postal com uma imagem do infeliz Copersucar e um "Para o Pedro, Emerson Fittipaldi" entrega acompanhada de um aperto de mão vigoroso que nunca esquecerei. Ali estava eu, o puto a gazetear a escola, frente a um tipo que eu só via correr a preto e branco aos Domingos ao almoço. Do Imaviz até casa, no Marquês, fui em êxtase. Deitado na minha cama a admirar o postal e a pensar "É mesmo dele, eu vi-o escrever isto!". Só a voz da minha mãe a chamar-me para jantar me tirou daquele encantamento. À questão "Já foste lavar as mãos?" tentei argumentar com o aperto de mão de Fittipaldi. "Ainda cheira, ora vê...". Não tive sorte nenhuma. Não posso precisar, porque nunca lhe perguntei, mas naquele preciso instante em que ensaboava as mãos eu desconfiei que a minha própria mãe era fã do Jackie Stewart...


O mundo é uma aldeia pequenina.

10 janeiro 2008

Qual Reguengos qual Esporão

Macho que é macho bebe vinho branco vietnamita!

Em casa da Albertina abusam da cocaína

Porque diabo a indústria farmacêutica tem sempre anúncios pindéricos, cujas fotos parecem ter sido feitas por amadores e spots televisivos que parecem ser interpretados por actores amadores numa qualquer Sociedade Recreativa? A imagem acima por exemplo, estou convicto de que o leitor acreditaria se eu lhe dissesse que a mesma tem 30 anos. Mas e se lhe disser que é actual? E que se vai enjoar de a ver nos próximos tempos?

A P. que até vai tomar posse

-"Olha lá, o que é que faz o teu pai?"
-"O meu pai é advogado"
-"Sério?"
-"Não, dos normais."

Piada hospitalar

-"O senhor é o dador de sangue?"
-"Não, eu sou o da dor de cabeça..."

09 janeiro 2008

Mãe, sem fios!

Estamos quase quase a roçar a perfeição...

O ar que lhe deu

O sistema de ar condicionado do carro que habitualmente conduzo, avariou. Nem quente, nem frio, nem assim assim, nem gaita nenhuma. Coisas que eventualmente sucedem. Anda assim há um ano e meio, quieto e calado, que não me faz falta nenhuma. Antes que penseis que eu não estou bom da cabeça informo que eu não gosto de ares condicionados. Uso lentes de contacto e o ar seco de um ambiente fechado como o de um carro seca-me as lentes e faz-me sofrer horrores. Só me lembro de o usar quando o vidro frontal está embaciado e uso-o por breves segundos para o desembaciar. Se, e fazendo contas por alto, este ar condicionado trabalhou mais de quatro horas no total, é capaz de ser muito. Aproveitei uma estadia para uma revisão do carro numa oficina da marca e queixei-me da questão. Lembro-me de ter pensado "se calhar é por não trabalhar, amuou...". Quando hoje o recepcionista me informou que o motor do sistema estava avariado, sorri. "Sabe, são motores que trabalham muito é normal que avariem..." sorri ainda mais um bocadinho...

Fosse a menina dos meus olhos puta

Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:

Dido foi puta, e puta dum soldado;
Cleópatra por puta alcança a c'roa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:

Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques, pois, oh Nise, duvidosa
Que isto de virgo e honra é tudo peta.

Manuel Bocage

Há dias em que um tipo acorda com a sensação de que dormiu com todo o batalhão...

08 janeiro 2008

Ukulele Orchestra


Têm-me chegado referências de muitos lados. A bem dizer, de todos. "Já ouviste?" mas ouvi o quê? "A Ukulele Orchestra of Great Britain". E agora que vi uma referência do Nuno Saraiva, cá vai uma amostra com o "You don't bring me flowers". Google por Ukelele Orchestra (demasiado cansado para linkar) e recomendo o Life on Mars e o Satelite of Love.

Coisas que fazem sentido

Chama-se Concha mas nos cartões de visita está grafado Conchita Martinez. Perguntei-lhe onde a poderia deixar em Lisboa depois de uma reunião demasiado chauvinista para o meu luso gosto. Respondeu-me enfadada: "Plaza de España".

07 janeiro 2008

Assembleia

Ora ainda bem que coloca essa questão...

Wrong Address department

Estás a levar com uma garrafinha de Chateau Marteau não tarda muito...

A origem das expressões

"It ain't over till the fat lady sings" é um dito usual norte-americano que corresponde ao portuguesíssimo "Até ao lavar dos cestos é vindima", quando se pretende alertar alguém que até ao último momento algo é sempre passível de ser alterado, A origem da expressão está creditada a um comentador de desporto, Ralph Carpenter, que retorquiu com esta mesma frase a um colega durante uma transmissão televisiva sobre o facto do jogo estar a ser renhido e de resultado equilibrado. A expressão baseia-se no facto de muitas obras operáticas terminarem com árias interpretadas por sopranos bem constituídas.

06 janeiro 2008

French humour

A thief in Paris planned to steal some paintings from the Louvre. After careful planning, he got past security, stole the paintings and made it safely to his van. However, he was captured only two blocks away when his van ran out of gas.

When asked how he could mastermind such a crime and the make such an obvious error, he replied,
-"Monsier that is the reason I stole the paintings. I had no Monet to buy Degas to make the Van Gogh"

See if you have De Gaulle to send this on to someone else. I sent it to you because I figured I had nothing Toulouse.

05 janeiro 2008

Marketing para principiantes

Nunca etiquete produtos com a legenda "Preço Campeão" quando for absolutamente óbvio para qualquer comum mortal que cheira intensamente a cartel o facto do respectivo preço de mercado ser absolutamente igual em qualquer superfície comercial e se mantem misteriosamente assim durante períodos de 45 dias até subir cinco cêntimos por unidade.

A anónima vitela

Bom, comecemos pelo princípio e no princípio era o verbo, não foi o caso, há coincidências deveras curiosas mas a excepção faz a regra e apostei comigo mesmo que era capaz de escrever um parágrafo inteiro sem usar um ponto final e descobri (agorinha mesmo) que não consigo. Ponto. Tudo para dizer que no ano passado a malta deste blog foi jantar (coisa que presumidamente fazemos todos os dias), mas há sempre uma excepção para desgraçar a regra, piada parva e torpe assim o julgará o leitor. Nesse jantar tiraram-se fotografias, isto é a a Amil tirou fotografias e isto foi há tanto tempo que vejam lá ainda se fumava nos restaurantes, basta ver o saudável aspecto actual dos não fumadores, o Verde por exemplo não pode dizer o mesmo a avaliar pela imagem nova que usa nos comentários... A Amil foi perguntando pelas fotos, eu fui ignorando os lamentos e tal até ao dia em que não tinha mais desculpas e vai daí trata de fazer o upload das ditas. Basta agora distribuí-las pelos comensais, tarefa que se não revela (ah, o encanto da fotografia) nada fácil. Se você esteve na Maia, ou mesmo no GroundZero, ou se é primo de uma amiga da dona do quiosque que tem um cabeleireiro e que vive em regime de concubinato com o dono da garagem da bomba de gasolina e quer ver as fotografias da Amil, entre em contacto comigo que uma rigorosa comissão de ética analisará o seu pedido e em caso de deferimento ser-lhe-á revelado o local onde as pode descarregar. Se você não esteve no jantar da Maia tivesse estado. A curiosidade pode não ter morto o gato, mas deixou-o a ansiolíticos...

A ter de ser

Saldos!

Começaram os saldos. Mas é preciso cuidado que nesta época há por aí muito refugo...

Memória de Elefante

-"Poxo abraxar o teu cão?"
-"Podes, mas devagarinho..."
(Abraça com força e puxa-lhe as orelhas com manifesta força. O cão rosna)
-"Ele extá jangado?"
-"Está, puxaste-lhe as orelhas..."
-"Mas foi xó um 'cadinho..."
-"Pois, mas não se puxa assim as orelhas aos cães..."
-"Mas poxo abraxar out'a vez?"
-"É melhor não, Rafael..."
-"P'onto, ele esquexe, não esquexe?"

04 janeiro 2008

Tetris

Roubado no Nêsperas

Diferenças culturais

Lembro-me muito bem do choque que senti quando enfrentei as minhas primeiras profundas diferenças culturais e civilizacionais. Há muitos anos eu era, por mero acaso, o único europeu entre os convivas sentados numa belíssima tenda numa festa de aniversário em plena cidade de Rabat. Semi-avisado do que me esperava, aguentei estoicamente doses de chá de menta que dariam para aromatizar pastilhas elásticas de duas ou mais fábricas. Suportei, sem me queixar, o odor intenso dos manás de carneiro que não paravam de entrar trazidos do exterior. Nas longas pausas, o fumo dos cachimbos e de outras substâncias que se consumiam longe da legalidade. Nos breves segundos em que tive de me decidir sobre que ferramentas usar para atacar um prato de couscous não hesitei muito tempo, embora a consciência não me deixasse sossegado nem por um segundo, e usei as mãos, como toda a gente fazia com a maior naturalidade. Só não consegui suportar o sabor de um ingrediente demasiado forte de uns fedorentos pequenos limões a que chamavam de Bassorah, mas aos quais apelidei de Limões do Inferno. Consegui esgueirar-me discretamente e vomitar a mistela e ainda hoje suspeito que as fábricas de detergentes de amónia usam aqueles horríveis frutos para fabricar produtos altamente tóxicos. Mas sobrevivi.

Com o tempo e com as minhas constantes ligações à cultura árabe, tornei-me mais tolerante. Aprendi a respeitar alguns usos, chego até a considerar alguns mais civilizadamente evoluídos que muitos dos do Ocidente. Fiz meus amigos alguns desses árabes que me retribuiram o gesto. Levámos tempo a aceitar certas diferenças. Num ambiente de trabalho de uma multinacional os contactos eram frequentes e os choques absolutamente constantes. Da zombaria passei à aceitação, sendo que esses pequenos gestos foram sempre mútuos. Deixei de brincar com as festividades que não entendia mas cujos cartões electrónicos me propunham celebrações tão curiosas como o dia do Carneiro ou outra etapa épica da vida do Profeta. Troquei cartões do Dia da Ascensão do Profeta por fotografias de uma sardinhada de Santo António. Deixei, em plena Europa, de beber álcool às refeições por respeito para com os presentes. Consegui convencer alguns dos meus colegas que o facto de se pedir um prato de salmão fumado não me obrigava a ir à cozinha ver com os meus próprios olhos se o cozinheiro não conspurcava os ingredientes com algum pingo de cerveja. Levei muito tempo a tentar entender a subalternidade da mulher árabe (na verdade nunca consegui mas não o discuto). Custou-me muito ver Al-M. em pleno Printemps puxar de uma pequena corda com nós e medir a altura mínima de uma saia de criança com apenas seis anos para aferir "se era decente". Dificilmente El-A. perceberá alguma vez que eu possa censurá-lo por querer ligar à sua mãe às três da madrugada "para saber se ela está bem" e eu perguntar-lhe "Mas ela morre se tu não lhe ligares agora?", o que originou um monumental amuo num homem de quase quarenta anos. Levei muito tempo a entender como natural ser beijado na face por um homem grande e barbudo e aguentar a asfixia de um abraço sincero recheado de beijos que algumas vezes me embaraçaram. Aprendi a tolerar interrupções de reuniões para um momento de oração. Prometi a mim mesmo nunca mais brincar quando um deles se abeirava do recepcionista de hotel para marcar dois despertares sendo um a meio da noite e muito menos voltar a ensaiar a portuguesa piada do acordar de madrugada para baixar os estores do quarto. Aguento, e já o faço com gosto, a regatear preços em Paris, sendo instruído na argumentação por um iemnita. Aprendi a viver com o aguçado espírito negocial dos meus amigos (tudo se compra, tudo se vende, tudo está marcado com margens excessivas). A alguns deles não vejo há anos, mas continuo a receber emails com fotografias de jantares em Ryhad no Nando's um franchise português de frango assado que tem no logótipo "a very nice coloured bird", que viria mais tarde a comprovar ser um imponente galo de Barcelos. Sim, há uma empresa no Qatar que tem exposto na recepção um vigoroso galo de barro pintado que para lá expedi um dia.

Lembrei-me de tudo isto a ler uma entrevista de Nelo Vingada, que está a treinar a Selecção de Futebol da Jordânia. Numa pequena caixa, nelo Vingada conta, deliciosamente um desses choques culturais. A dada altura diz: "Fui convidado para jantar a uma sexta-feira, que é o dia sagrado dos muçulmanos, com a família do vice-presidente das selecções nacionais, Fahad Dahmas. Quando chegámos a casa, de um lado só estavam homens, as mulheres estavam noutro lado e a comida numa toalha estendida no chão. Muita comida, à boa maneira árabe e um carneiro, que é o forte deles. E Fahad disse-me: "Mister Vingada, é uma grande honra recebê-lo. É o primeiro treinador que convido para vir a minha casa". E perguntou-me se queria comer de faca e garfo ou à maneira árabe, com as mãos. Comemos com as mãos o arroz, o borrego e sei quão importante foi esse factor de integração, porque eles sentiram que estávamos a respeitar a sua cultura. (...) Perceberam que estava ali uma pessoa que se juntou a eles, que os respeitava, De tal modo, que um dia em conversa com o príncipe, ele disse-me: "Você é um dos nossos. Só falta uma coisa para ser um homem do Islão, é casar com quatro mulheres. Se quiser casar não tenha problemas, eu pago-lhe os casamentos." E eu perguntei-lhe: "O príncipe tem quatro mulheres?". A resposta foi surpreendente: "Não, só tenho uma, porque mais do que uma dá muita despesa."

iPod no Dakar

Imagem: Rita

Mãe, eu fiz um iPhone

Imagem: Rita

Promoção Exclusiva para subscritores

Se o leitor é subscritor da Mailing List Apple "O Correio dos Outros" pode beneficiar de um desconto especial de assinatura da recém lançada WebDesigner. Basta para isso que faça a sua assinatura neste local, introduzindo o código promocional que está presente na imagem acima. Está claro que eu farei a confrontação de nomes e emails para efeitos de comprovação. Se você é um adepto das tecnologias Apple e quer pertencer à maior comunidade Apple em Portugal, basta endereçar-me um email e pedir mais informação sobre como subscrever.

No comments

Say again?

Via Tux Vermelho

Eu quero ser milionário

Inscrevi-me no "Quem quer ser milionário". Agora é preciso que eles também queiram que eu seja... (Não, não é a primeira vez que concorro a um concurso de TV, até já ganhei um, mas tinha 13 anos e aquilo era apresentado pelo Joel Branco, pelo que não conta!)

Moviflor

A Moviflor em Aveiro tem uns dummies de computador em cima das secretárias e mesas de trabalho. São de uma marca conhecida, pelo menos a avaliar pelo logo... Via Orange Clouds

03 janeiro 2008

Resoluções de Ano Novo

Roubado no Delírios desgarrados.

You shall rise

E agora nunca mais vou olhar para a minha bagagem da mesma maneira...

Ano novo, anyone?

Até que data é politicamente correcto andar a desejar-se "Bom ano" às pessoas? A partir de que mês é que se pode começar a dizer "Bom resto de ano"?

¿Dónde está Wally?


A) Tu deves ser o Paulo e estás em Whangaparaoa
B) Tu és o Fernando e estás em Brisbane
C) Tu és o João e estás em Cabo Verde
D) Papeete, NINGUÉM está em Papeete! (Nem uma carta, nem um postalinho!)

Hoje morro eu

Homero Serpa, jornalista. (1927-2007)

02 janeiro 2008

Tell me lies, tell me sweet little lies


Deve ser um record pessoal. Ainda nem quarenta horas levo de 2008 já me começaram a contar histórias da Carochinha. O drama é que as pessoas ainda não se aperceberam que eu começo a nem disfarçar a náusea que vou sentindo. Dizem que a coisa vai piorando com a idade e são bem capazes de ter razão.

Ah, o cheiro de Ferodo pela manhã...

Foi tudo muito rápido. Uma fila de carros que sai da A5 em direcção a Belém, uma curva apertada e perigosa, o rame rame pegajoso do trânsito debaixo de chuva. Há um acender de luzes de travão no carro da frente, um táxi Mercedes a quem percebo e antevejo que algo de muito mau vai acontecer. O carro chega a meio da curva a deslizar, percebe-se que faz um slide quase perfeito, lembro-me, por razões óbvias de Ari Vatanen o meu mago de Sintra. O táxi rodopia em pião com tudo a acontecer-me diante dos olhos e do pára-choques. Aplico uma segunda que faz gemer as bielas do Fiat (já tinhas saudades destas merdas, pá!) e nos intervalos do rodopio, de cada vez que temos os carros de frente, vejo a expressão apreensiva do condutor, um homem de idade a quem faltou agilidade de mãos para compensar a fuga. Quando o táxi parece ter conseguido o improvável milagre da imobilização sem tocar em nada e ninguém, pensei "Ainda não acabou, pázinho, agora é que vão ser elas". É a velha traição das derrapagens frontais, quando pensamos que o pior já passou. O Mercedes parecia tomado de vida própria e aproveitou a contra-brecagem em chão de sabonária quente e foi esmagar-se de lado contra o rail da Auto Estrada. Quem já por elas passou sabe do que falo, do estrondo do embate, o som da chapa a rasgar e a imobilidade forçada. Encaixou-se perfeitamente entre mim e a vedação. Está à minha esquerda com aquele ar perdido de quem não sabe bem o que lhe sucedeu. Olha para mim que estou à sua direita com vontade de lhe perguntar se está bem, se precisa de alguma coisa quando ele me fita e encolhe os ombros como quem diz "Olha que porra esta" e engata a primeira velocidade fazendo desencaixar o carro amarrotado e seguindo viagem sem um pio. Tal e qual Ari Vatanen mas com mais uns aninhos.

Setúbal, Governo Civil

Não lhe conheço o nome. É funcionária da Loja do Cidadão de Setúbal, trabalha para o Governo Civil e entre outras tarefas emite passaportes. Deu-me hoje uma lição de atendimento a público como há muito não assistia. Delicadamente, e sempre com um sorriso apesar da quantidade de gente que tinha para atender, explicou-me que eu iria gastar apenas metade do que pensava na emissão de um documento, usando as malhas da própria lei. Sozinha no pequeno espaço, desdobrou-se em atendimento telefónico em paralelo com o que tinha entre mãos, sempre com a mesma eficiência e rapidez. Sem nunca perder o respectivo norte e compostura. Com tempo para uma piada ao meu colarinho torcido "que vai ficar mal na foto e depois demoram-no mais tempo no controlo dos aeroportos". Quando lhe tinha sido tão mais fácil nada dizer e poupar muito tempo. Tempo que ainda investiu em recomendações sobre como anotar prazos de validade para evitar aborrecimentos e atrasos futuros. "Adeus e até dia 10, não se esqueça do papelinho e do BI". Há dias, mesmo que chuvosos, em que encontramos alguns sóis"

Crime, disse ele

Esta notícia tem sete anos. Enquanto este "Parque de Manobras" era construído, algures espalhados pelo país havia mais dezanove estruturas semelhantes a ser edificadas. Custaram quatro milhões de euros. Uma ninharia! Nenhum dos vinte alguma vez funcionou e estão hoje ao abandono, vandalizados por gente e pelos elementos. Questionado hoje pela imprensa, o Secretário de Estado da Administração Interna não encontrou tempo para responder. Eu também teria dificuldades em fazê-lo. Ninguém responde por estas coisas. Ninguém presta contas. Minto! Hoje vi uma velhota a chorar por causa de uma penhora fiscal de duzentos e oitenta euros. Vae victis!

I don't like Mondays (whatever)

Sendo verdadeiro que no ar gélido os sons se propagam melhor, as minhas orelhas não mentiam. Apesar de enfiadas na gola do blusão eram-lhes perfeitamente audíveis os sons de uma monstruosa birra infantil "Nã qué! Nã qué!". Levantei os olhos sem descurar os abanos e vi Rafa a ser literalmente puxado pela mão e o respectivo pai a tentar convencê-lo a entrar no carro da família. "Nã qué! Nã qué i tabaiai!". Sorri-lhe mas não tive coragem de dizer nada a nenhum deles. Apenas esbocei um sorriso de compaixão enquanto o pai lutava para agarrar de uma só vez a esguia enguia. Minutos depois eu próprio me senti na obrigação de me sentar no meu próprio carro e pensar que é uma violência ter de ir tabaiai. Não esperneei nem um bocadinho é certo, mas lembro-me de ter dito entre dentes "Nã qué! Nã qué i tabaiai".

01 janeiro 2008

Dura lex, Puf Puf lex

Rápidas sondagens in situ aos costumeiros locais de shots de cafeína. Três. A conta que Deus fez e bem divididos pelo dia inteiro que agora ainda a procissão vai no adro e eu venho danado depois de ter perdido quatro horas a desenterrar um Fiat. No primeiro ninguém fuma, mas não devia contar porque só vejo velhinhas a costurar as conversas, pesponto aqui, bainha ali, definitivamente não devia valer por falta de potenciais criminosos. São duas da tarde e ainda é cedo para aferir porque faltam os velhinhos que provavelmente se atrasaram em almoços de novel ano. No segundo e já são dezasseis mais uns picos, ninguém fuma. Alto espera aí, está ali V. ao cantinho do balcão fumando à socapa. "Não fumas?" pergunta-me. Não, agora não me apetece e tenho de ir para Lisboa, fumo assim que sair. São dezoito e trinta quando chego a Sacavém e no próprio café dos meus pais estão cinco clientes, todos de cigarrinho nas mãos. São todos caras conhecidas. Encolho os ombros e digo "Meus senhores, são setenta Euros a cada um se fizerem o favor" enquanto pisco o olho e tento encontrar o meu próprio pai atrás do balcão. Se estás à procura do teu pai, não vale a pena. Pusemo-lo na rua, dá-nos menos trabalho e fumamos mais à vontade.

O caçador de pérolas

"...O maior problema de tudo isto são as altas exferas só pensão em lucros e não em coalidade de serviço prestado ao cliente , nem selecionar funcionarios adequados ao espirito de carteiro (carta á garcia) hoje os carteiros é não teem formação nem para dizerem bom dia ao cliente . A ctt expresso devia era apostar mais na formação e depois veria as performaces dos obejectivos alcansados. A profissão de carteiro precisa de ser mais respeitada feliz 2008"

Feliz 2008 também para si e haja formação!

Early bird

Debaixo do nariz

Ou como basta sair de casa e percorrer quinhentos metros para um safari sendo que é nesta altura muito mais seguro que ir ao Quénia.

Rosário - Dakar

Ou como há três mil maneiras melhores de começar um ano...

Como de costume

Houve esta noite um homem que me mostrou o céu estrelado e me contou histórias de mar ensopadas em medos e alívios do regresso ao cais. Estrela d'Alba, Sete Estrelo, Três Marias. Uma espécie de GPS cósmico. Depois, com a mesma singeleza com que falou, calou-se. Calou-se porque cantavam um Fado que falava de milagres e pintores que afinal eram fadistas. Lá ao fundo, onde há anos que eu pensava ser Lisboa e afinal era Cascais, o céu ribombava numa espécie de orgia de luz e som. "Deixá-los, é deixá-los fazer a festa que amanhã não vão ao mar e ninguém tem medo. Depois de amanhã é que é pior, voltaremos a ser todos como de costume".