31 janeiro 2006

Quem vê, Senhora, claro e manifesto

Luís de Camões deve ter contraído um empréstimo para aquisição de habitação. Não há outra forma de justificar estas linhas...

Este me parecia preço honesto;
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e a alma por querê-los,
Donde já me não fica mais de resto.

Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, tudo é vosso,
E o proveito disso eu só o levo.

Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que quanto mais vos pago, mais vos devo.

Estás melhor agora?

F. não resiste ao jogo. Está-lhe no sangue e com o sangue não se luta, quando muito permitem-se algumas escaramuças, mas a rendição é certa sem ser necessário chegar-se ao segundo round. Um desafio para uma sueca, dez cêntimos a vasa já chegam para adormecer F. e fazê-lo esquecer obrigações, devoções e outros rituais diários. O local pouco importa, seja na roda de velhotes sentados à mesa do jardim, na viagem de barco para Lisboa, ou até na sala de espera do Centro de Saúde. Já foi um problema sério, agora não passa de uma compulsão semi controlada. F. disciplinou-se, continua a jogar mas sem o fulgor de outrora. Falta-lhe a vista e falta-lhe a memória. atributos fundamentais para se dominar os prodígios da sueca a dinheiro. Agora, idos já os tempos da glória lambida, diverte-me vê-lo ensinar aos mais novos algumas das manhas e truques do carteio, ardis da troca de sinais.

Embevece-me (e estarrece-me) ver que dois jogadores profissionais podem comunicar por sinais inimagináveis. Vejo F. mostrar à jovem assistência que dois parceiros podem pedir um ao outro um determinado naipe através do copo de cerveja que ambos bebem, dando golos mais ou menos prolongados num líquido cuja espuma há-de marcar o copo em sequências de anéis brancos. É verdade que nunca fui grande jogador de cartas, mas estou absolutamente absorto na explicação. É quando entra na conversa um outro ex-jogador, cúmplice e parceiro de F. em muitas ocasiões. "Oh F. tu lembras-te uma vez que ganhaste um galo a um gajo do Montijo?". A plateia agitou-se, F. sorriu meio constrangido. "Pois é, este melro um belo dia desafiou um tipo para uma jogatana... A parada foi subindo, o outro não tinha muito dinheiro, mas tinha um galo!". F. agitou-se na cadeira. "Lá ganhou o galo ao outro..." Não percebi o espanto, o parceiro calou-se, F. ria baixinho. "Oh meus senhores, isto a quem sabe nunca esquece, vocês nunca se deixem entusiasmar pelas histórias deste melro porque agora ele só conta o resto se lhe pagarem uma imperial!".

Sinto-me apanhado. Aceno ao empregado que por detrás do balcão não perde pitada. Parece um leilão, um aceno afirmativo faz subir o meu débito no balcão mas garante-me a continuidade da história. "Era uma estampa, o galo!". Um gole na cerveja, a língua que passa a limpar a espuma. "Aqui o F. tinha vindo de bicicleta e atou um baraço à perna do galo mas o raio do bicho não parava quieto e de cada vez que batia as asas fazia voar as cartas de cima da mesa...". "Houve mais um jogo e as coisas não estavam a correr lá muito bem, começámos a perder que nem uns anjinhos e o F. já estava a ficar chateado; era o galo que dava galo, dizia ele! O bicho não parava quieto um segundo e o F. pediu um saco de plástico à dona do café e meteu-o dentro do saco e atou tudo ao quadro da bicicleta...". "Aquilo correu mesmo muito mal! Perdemos um bom bocado de dinheiro, até tive de meter algum pelo F.". "Quando chegámos cá fora, o bom do galo não se mexia dentro do saco, o F. desatou o baraço e não é que raio do galo estava morto?". F. levantou-se ligeiramente irritado pela memória. "Estás melhor agora? Eu teso e tu morto!"

29 janeiro 2006

Conta-me só os finais felizes...

Pai e filho desciam vagarosamente a escadaria da bancada com o jogo ainda por acabar. Uma olhadela ao relvado de quando em vez e apenas quando o volume do bruá o aconselhava e pré anunciava um milagre, uma esperança no debelar da dor, para logo de seguida baixar os olhos para os degraus íngremes. O miúdo, de cachecol amarfanhado à volta do pescoço, tinha algumas lágrimas nos olhos a misturarem-se com gotas de chuva. Percebia-se que por ele ficaria ali, quem sabe se para sempre. Mas o reboque do pai, entre o nervoso e o zangado, não o iria permitir. "Oh pai, porque é que perdemos?". Faço-lhe uma festa no cabelo húmido quem sabe se por me apetecer chorar com ele. "É muito chato quando perdemos, pai! O que vale é que a gente depois se esquece..."

12 janeiro 2006

A gente não lê

C. está a ouvir ler uma carta do filho que está no Canadá. Obviamente que não sabe ler e isso traz-lhe uma certa humilhação quando tem de pedir a terceiros que lhe façam o favor de lhe lerem a correspondência. Não é a primeira vez que o faço a pedido dele, apenas hoje não temos privacidade e não tenho muito tempo para esperar que estejamos apenas os dois. "Não há problema amigo Pedro, se não se importar leia-ma agora mesmo que se calhar logo não o encontro aqui e pode haver alguma novidade...". A meio da leitura um dos presentes percebe o que estou a fazer e num requinte de enorme crueldade pergunta "Então, ainda não aprendeste a ler?". C. pousa o punho fechado na mesa e pede-me que não ligue. De facto não gostei. C. também percebeu isso mesmo mas continua atento ao que vou lendo até à última linha. Enterneço-me quando beija uma fotografia do filho e da nora que veio no meio das folhas. "Sabe, os meus pais eram pobres, não me mandaram à escola. Tive um vizinho, o Tóino, os pais dele tinham um poucachinho mais de posses e ele foi. Quando foi trabalhar já sabia ler. Um dia, éramos garotos mas já fazíamos vida de mar, a fragata afundou-se. Eu, que não sabia ler, sabia nadar. Ele que sabia ler ficou lá." Acende um cigarro, faz uma pausa e disse bem alto para a personagem que antes o ofendera: "Tu vê lá se sabes nadar, rapazinho..."

11 janeiro 2006

Jornais

Há-de vir hoje nos jornais que num acesso de fúria, ou desespero, ou loucura, ou por outra razão qualquer um homem de setenta e tal anos assassinou um puto de vinte, algures na margem sul. O facto de estar mencionado no jornal que foi na margem sul tranquilizará o leitor ocasional como se a sul as coisas fossem diferentes, os crimes fossem mais graves e a honra se lavasse sempre a chumbo. Há-de vir nos jornais qualquer coisa assim, fria e isenta de emoção. O que o jornal não vai com toda a certeza dizer é que um pai, na impossibilidade de um dos seus se defender de uma vida de maus tratos e violência física continuada, avisou quem o ouviu que nunca mais deixaria que o genro lhe batesse, nele, na sua própria mulher ou na filha como parecia ser hábito. Cumpriu o aviso e selou o seu destino com dois tiros de caçadeira. B. a quem o jornal dará o nome completo na edição de hoje foi detido por uma enorme força policial (estava desarmado no momento da detenção), a mesma força policial a quem, faz hoje exactamente oito dias, pediu ajuda para evitar mais uma agressão e que levou duas horas a acorrer em seu auxílio. Agora, B. tem muito tempo e pode esperar. Amanhã, um qualquer juiz tomará nas suas mãos a segunda vida do homem cujo nome será estampado a negro nos jornais. Faz muito tempo que desaprendi de rezar, mas rezarei por uma decisão sábia.

05 janeiro 2006

Das lendas e das capoeiras

Os arguidos eram dois, a fama precedia-os na rapinagem de capoeira e o povo, sempre o povo na ânsia de filar os ratos que pilhavam bicos e restante criação, bem sabia quem eram, como actuavam e por mais de uma vez tinham feito justiça pelas próprias asas, que as mãos essas, eram quase sempre ágeis no afagar de patos, coelhos, galinhas, o que viesse à rede haveria de passar essa mesma rede para o lado de fora e consequentemente para o lado de dentro embora já deglutidos. Uma vez houve em que dois de conluio tiveram o seu dia de azar, um dia da caça, outro do caçador, veio a Guarda e tomou conta da ocorrência como é da praxis, identificando os assaltantes e abrindo mais uma página no longuíssimo livro de história universal do furto qualificado.

Sendo que assuntos de lana caprina (manifesta injustiça será apelidá-los assim quase se fala de bípedes) raramente chegam às varas dos tribunais sendo que o povo, sempre o povo, preferiria de caras usar as varas nos costados dos visados, inocentes ou não, mas coisa certa é que desta vez o roubado não desistiu da demanda e quis levar a coisa até final, mesmo que ali, naquele caso que agora me recordaram a súmula era de doze galinhas e quatro patos que só não levaram descaminho porque como sabemos, veio a Guarda, o coelhinho e o circo, só não consta que os tenham comido.

Fazia-se então a sessão final do julgamento, os réus sentados no lugar competente, os advogados a trocar mesuras, peço justiça e vamos lá acabar com isto que tijolos mais belos haverá para assentar no edifício da justiça. O juiz pigarreou que é uma coisa que não é preciso ser-se magistrado para fazer, eu mesmo quando comecei a teclar assim como que pigarreei com os dedos, por forma a melhor escrever, e terá sido bem claro na lista dos quesitos provados e por provar. Ergueu os olhos do douto papel lavrado. Tomou ar como quem empurra o carro pelos últimos metros da ladeira e terá dito com voz tonitruante: "E aos réus darei as penas...".

Rezam as lendas que o mais novo, que sempre clamara a respectiva inocência no processo, levantou também os olhos e disse "Dê-me Vossa Excelência a mim as penas que outros terão comido as galinhas!". É verdadeiramente lamentável (uma verdadeira pena!) que destas historietas nunca se cheguem a saber os finais. Uma injustiça!

02 janeiro 2006

Bungee jumping (I don't care!)

A fila de utentes da consulta externa da Maternidade Alfredo da Costa serpenteia pelo passeio, escudando-se os muitos enfileirados do vento gélido nos obstáculos que a autarquia semeeou providencialmente na calçada. Escolho uma máquina de bilhetes de parquímetro e tento esconder as orelhas das setas geladas com que o vento me presenteia. Não é fácil ser-se poético às sete e meia da manhã, mas preferi arrostar eu com o gelo, marcando a vez por terceiro. Já sou um habitué deste ritual, já reconheço algum do pessoal administrativo que, à semelhança de alguém que se veja obrigado a trabalhar às oito da matina, não vem com cara de muitos amigos. É a vidinha. Quando a fila se mexe é sinal de que o trinco da velha porta da admissão de doentes se mexeu também, num som sádico como quem quer dizer "esperem lá que isto foi só o trinco, estamos aqui estamos abertos" ao contrário dos rostos circunspectos de quem pensa "estamos aqui, estamos bem lixados". Quando entro no conforto da climatização do hall, tenho de esperar a minha vez para ser presenteado com algo que deveras me intriga. O funcionário da empresa de segurança, pessoa com quem troco literatura diversa ao longo das horas de espera (toma lá A Bola, dá-me cá o Record, obrigadinho a Hola não leio...) estica-me o sacramental crachat de plástico amarrotado, um singelo 33 de que já fui portador em muitas outras anteriores ocasiões. Já o recebi tantas vezes que já lhes perdi a conta, mas este dístico específico intriga-me. Não é um crachat de visitante, não tem nenhuma identificação da instituição, nenhum número de série, nada que o distinga de uma rifa, tirando é claro a mola de o prender na roupa. Não dei nenhum documento de identificação Nunca o usei ao peito, vai por norma para dentro do bolso e só me lembro dele quando me sento pesadamente num dos bancos da sala de espera e a mola me pica alguma parte mais sensível. De outras vezes perguntei-me sobre o seu uso. Nunca tive resposta, mas espantoso seria se a tivesse, quanto mais não fosse porque daria comigo a falar sozinho e isso toda a gente sabe, significa que estamos no fim do mês ou a precisar de falar com o psicólogo. Tenho perguntado em todos os balcões de consulta, ninguém mo pede, é uma pena, um plástico tão catita sem qualquer uso ou préstimo. Mas hoje não me contive. Não era a primeira vez que o levava para casa, não era a primeira vez que ao regressar aqui devolveria um e receberia outro. Hoje não me esquecerei de o devolver, mas tenho perguntas para fazer. E foi já de braço esticado com o 33 entre os dedos da mão direita que interroguei o funcionário da segurança. Afinal, para que serve este número? Ninguém o pede, ninguém o usa. Está a escapar-me alguma coisa?. "Não sei, a minha tarefa é distribuir um a cada pessoa que entra, pouca gente os devolve, daqui por um mês ou fazem mais ou deixo de ter plásticos para distribuir. Eu também acho isto um bocado estúpido, mas a Administração é que manda". O sol entra agora a jorros pelo átrio e uma gargalhada infantil chega-me aos ouvidos. Nem tento localizar-lhe a origem, é com toda a certeza Deus a rir-se das imperfeições da sua obra.

Electric Dreams

O pedido chegou-me num Sábado depois de almoço. Começou por não ser um pedido mas um lamento, uma queixa, coisas de velhos e das suas dificuldades. Disse aos companheiros de mesa que acordava de noite com tremuras, sentindo um formigueiro pelo corpo como se foram cãimbras a tolher-lhe os movimentos. De galhofa disseram-lhe alguns dos presentes que abusasse menos do bagaço, que rápidas melhoras notaria. Coisas de velhos cúmplices num entretém de tempo vagaroso preenchido com estas picardias. São velhos secos, enrijados por anos de sal a sol (não é gralha, foram na sua maioria marnotos e carregadores). Já estou de abalada quando me pede um favor envergonhado. Precisa de mudar uma lâmpada no quarto e já não se sente em condições de subir a um banco ou galgar os degraus de uma escada. "Quando subir a um banco levarei uma corda na mão...". Acompanho-o no coxear vagaroso e pede-me desculpa pela humildade da casa, desleixada e triste, que a mulher partiu "faz pelo S. Pedro quatro anos ou coisa". Trepo ao banco, desenrosco do bocal ressequido como o dono a lâmpada fundida e apoio-me nos ferros (forjados como os de quem nela se deita) da cabeceira da cama. É então que sinto a descarga, os dedos a colarem-se ao metal, as articulações a tremer, o gosto amargo na boca. É um tremendo choque eléctrico e não percebo de onde vem, afinal isto e apenas uma cama... Desligo o quadro e inspecciono ao meu redor enquanto disfarçadamente esfrego os nós dos dedos mais combalidos. Entendo rapidamente das razões do choque. Do alto, sobre a parede do topo da cama, pende uma pêra de passagem com dois fios completamente descarnados que tocam ao de leve na estrutura do leito, entre a mesa de cabeceira pejada de medicamentos e a almofada. Peço-lhe que não toque em nada, que voltarei pouco depois, munido de cabos e ferramentas para remediar o perigo. Corto, desaparafuso, volto a aparafusar. Na azáfama fiz tombar duas lâminas de comprimidos que recupero de seguida, pedindo desculpa pelo desajeito. "Esses tomo-os por causa desta coisa das cãimbras e tremuras quando me vou deitar, são os pequeninos brancos, o doutor diz que me ajudam a dormir, mas não fazem nada...". Vão fazer, juro-lhe que a partir de hoje vão fazer...

01 janeiro 2006

O Brocas

Apresento-vos o Brocas e gostaria, deveras, que conhecessem bem. Alma e cérebro de criança, aprisionados ambos num corpo de vinte e seis anos de homem feito. Feito por vezes com a brutalidade boçal dos simples mas privado da maldade dos que se dizem evoluídos. De inteligência limitada, diria até marcada a espaços por um relativo atraso de desenvolvimento mental é incapaz de uma conversa que não termine invariavelmente com os olhos aparafusados no chão, por vergonha e derrota antecipada, estigmatizada pelo próprio com um sorriso de auto compaixão. O Brocas , atrevo-me a dizê-lo, só não é um indigente porque o patrão se apiedou dele e o conserva no rol de pagamentos mensais, a troco de alguma serventia, seja de pedreiro, trolha, moço de recados, pau para toda a obra desde que simples e de clara percepção. Digo piedade e sei do que falo pois são lendários os erros e enganos da criatura, que acabam por requerer a intervenção de colegas e clientes, bastas vezes consumindo tempo e dinheiro para salvar a pele do Brocas que consegue ainda assim observar os efeitos do maior dos seus disparates com um sorriso na face e os ombros encolhidos, a perguntar o que diabo aconteceu e porque é que estão todos tão nervosos...

Pois a história que vos conto passou-se nos idos do século passado quando se terminavam apressadamente as obras do Centro Cultural de Belém. Atrasados, para não variar nas lusas empreitadas, os acabamentos do grande auditório, obra imensa da qual me orgulho também de ter participado ainda que na rectaguarda.

Quando entro na sala para conferir do ponto de situação, vagueio entre montanhas de desperdício do forro acústico espalhadas pelas coxias e foyer. Há enormes malas de ferramentas ainda escancaradas, restos das hastes metálicas de cadeiras que não o chegaram a ser, andaimes desmontados entre uma miríade de outras coisas que não aconselho a espíritos sensíveis avistar pelo chão quando faltam menos de duas horas para a entrada dos convidados. Bem lhes bastará o cheiro a cola fresca que emana de alguns sectores das alcatifas e calhas de sinalização luminosa. Sempre assim foi, sempre assim será, venha uma obra portuguesa que isso não aconteça e o mundo desmaiará, não de espanto mas talvez pelo excesso de eflúvios de colas e solventes que queira Deus se aguentem pelo menos duas horas debaixo dos pés de Doutores e Engenheiros.

Há uma vastíssima equipa de montadores de cadeiras ainda a trabalhar, servidos em porcas, estruturas e parafusos pelo Brocas. "Buchas!", "Torna!", "Martelo pneumático!", "Uma dúzia de parafusos de 3/4 de polegada!", são tudo ordens que Brocas cumpre escrupulosamente, fazendo serventia contínua a um exército de metalúrgicos se necessário fosse, sem um erro, sem um queixume. Cumprimento-o cá do alto e sobe a longa ala da plateia em três penadas para me cumprimentar. Se preciso for, deslocar-se-á ao primeiro andar as vezes que forem necessárias mesmo que já me tenha cumprimentado por dez vezes nesse dia, não julguem que por deferência, mas juntará um gesto quase imperceptível a não iniciados da sua convivência, o de juntar o dedo médio e indicador sobre os lábios para requisitar um cigarro que não fumará e que guardará respeitosamente por detrás da orelha, pedindo desculpa pelo acto, sempre, mas sempre em tom submisso. De cada vez que o revejo, o cigarro desapareceu já da vista. (Seria uma outra história a de vos explicar o que Brocas faz aos cigarros coleccionados durante o dia, mas ficará para mais tarde...).

Pergunto ao encarregado dos soldadores se vai necessitar de algum material do enorme camião oficina estacionado no átrio principal, camião que foi intimado a partir pelas autoridades que controlam a gigantesca mole de materiais e de pessoas que por ali ainda circulam. Que não, que falta pouco, que há que começar a limpar os detritos que vão sobrando a cada canto. Dou, pelo intercomunicador a ordem de partida ao gigante camião onde passei os últimos quatro dias a ultimar software que há-de, também ele, fazer parte da minha contribuição para uma obra que aprendi a amar.

Quando regresso ao foyer, há, além da agitação normal, um vozear altíssimo de vocábulos estrangeiros que me capta a atenção. Um grupo de pessoas chega com enormes engradados de madeira e dele começam a retirar peças de arte, em que claramente algumas são favorecidas pela designação. Eu tenho imensa dificuldade em perceber arte que não passa aos meus olhos de um amontoado de ferro sem sentido e é isso que começa a desfilar diante dos meus olhos. Um enorme estrado raso de madeira tinta de preto é junto em pequenos quadrados no marmoreado chão, como um puzzle gigantesco. O artista, pelo menos a julgar pela pose, dá ordens e gritos à esquerda ou à direita consoante o artífice que lhe passe mais perto, tentando coordenar a junção do estrado na posição pretendida. É um verdadeiro espectáculo multimédia aquele a que assisto e permito-me pensar que se a instalação for tão apelativa quanto a gritaria da colocação da base, a obra promete. O meu intercomunicador crepita e sou devolvido à realidade das coisas. Prometi que iria ao hotel mudar de roupa para estar a tempo e horas no local da inauguração, não vá algum byte finar-se e deixar mal o senhor ministro que há-de carregar no botão, não porque saiba o significado de espetar um dos indicadores no teclado, mas porque alguém lho mandou fazer. A gente gosta deste tipo de gente.

Volto à sala para avisar o encarregado da minha ausência temporária, que é certo e sabido que se o não fizer algo será subitamente necessário, como se os Deuses de conluio brincassem à apanhada com os comuns mortais. Passo pelo Brocas que faz malabarismos com uma fantasticamente comprida mangueira de ar comprimido, escada abaixo aos rebolões, parece-me um rolo de esparguete com pernas. O encarregado diz-me que não vai precisar de nada, que está a poucos minutos de mandar iniciar a limpeza geral do anfiteatro do que ao que não lhe diz respeito dirá respeito. Está a conferir-se a solidez da última fila de cadeiras na qual labutam ainda afanosamente uma boa dúzia de soldadores e tudo parece estar em boa ordem. É já quando saio que ouço uma chamada geral no som da sala com a voz de quem anuncia o fim da guerra a informar que a limpeza geral poderá apenas demorar trinta minutos e que as equipas devem recolher de imediato toda a maquinaria.

Uma ordem de limpeza geral significa, para estas equipas a indicação de que nada ficará visível ao público depois de terminada. Cartões, máquinas, papeis, plásticos, arame, ferramentas, andaimes, volumosas bobinas de cabo serão recolhidas, muitas vezes para locais improváveis, não valerá a pena recolhê-los muito longe, porque no dia seguinte a desordem natural das coisas regressará ao que é hoje como se o espaço não tivesse sido inaugurado apenas para ministro ver. Apenas uma carga de lixo para dissimular separa aqueles homens de uma noite de descanso e isso lê-se-lhes nas faces. "Brocas, assim que tudo estiver limpo podes ir tomar banho, só vos quero cá amanhã às 14".

Quando atravesso o foyer a instalação dos italianos parece estar terminada. Rio-me sozinho do aspecto do conjunto, um mar de desperdício de alumínio, do qual emergem mangas do mesmo alumínio, como um mar no qual nadam serpentes. A instalação não se fica pela tal base de madeira preta, há pedaços de alumínio que faíscam um pouco por todo o lado. O artista está de máquina fotográfica na mão, parece satisfeito. Sorri-me quando passo por ele e interroga-me com um "belissimo?" a que respondo um aceno positivo por mera caridade. Não tenho de facto agora tempo algum para discutir arte moderna e crê-me fratello mio que não ias gostar da minha opinião.

Estou a entrar no hotel quando o telefone me toca na algibeira das calças. Quando olho o visor não deixo de vociferar. Os Deuses deram pela minha saída... Ferreira, o encarregado pede-me que regresse com toda a urgência. Mas o que foi, o que aconteceu, houve algum acidente? Houve sim e não é pequeno, se souberes do camião diz-lhe que é vital que regresse, é provável que precisemos de algumas das coisas que lá vão dentro. Peço-lhe que peça ao Brocas que dê a volta ao Centro, o camião não há-de estar longe, ainda irá para Espanha esta noite, mas sei que o motorista ainda não jantou, logo o carro estará por ai estacionado. Eu levo quinze minutos a chegar aí.

É quando regresso que me apercebo da dimensão do problema. Nada de cadeiras soltas ou filas inteiras tombadas como eu tinha pressagiado. Toda a gente olha para mim com cara de caso e sinto-me responsável por algo que não fiz. O artista italiano está a um canto com cara de quem acabou de ter uma apoplexia, a assistente grita na minha direcção como se o mundo estivesse a acabar num italiano que não entendo tal a velocidade com que fala. Peço-lhe calma. Que alguém me explique o que se passa. Custa-me entender a algarviada, mas parece que desapareceram todos os pedaços da obra de arte que não estavam em cima da base. Ok, já percebi, mas que raio tenho eu a ver com isso? Quando olho à volta verifico que é mesmo verdade, as mangas de alumínio que estavam encostadas às ombreiras das portas levaram sumiço, as longas fitas de metal brilhante que traçavam uma espécie de labirintos também tinham desaparecido. Ferreira chama-me à parte, "Você sabe do Brocas? Eu cá acho que ele limpou tudo o que havia aqui...". Sussurro o nome próprio pela grelha do intercomunicador. "Carlos... Carlos... Chega cá cima rápido!". Tento acalmar o italiano, tento explicar-lhe que tudo não passou de um mal entendido enquanto peço aos Deuses a clemência necessária para que todos os materiais regressem em bom estado. Brocas aparece-me saltitando pela esquerda baixa. "Onde é que está todo o alumínio que levaste para baixo?" Então, onde é que havia de estar Senhor Aniceto? Todo o lixo que aqui estava está dentro do contentor do entulho que está lá em baixo no parque de descargas". Não há tempo para explicar ao Brocas o que se passou, reúne-se uma troupe luso-italiana e vai tudo em amável convívio nervoso rumo ao contentor onde parecemos miúdos na gandaia a vasculhar entre pedaços de alcatifa e enormes cartões prensados. Não me atrevo sequer a perguntar aos italianos se está tudo em condições. É, para mim pelo menos, óbvio que não está. Há alumínio esmagado por todo o lado, muito dele que não pertence à instalação, são restos de caixilharia maquinada e outro lixo metálico avulso. Pelos gestos nervosos do italiano parece-me que ele não conhece assim tão bem a sua obra quando dou com ele a encher uma caixa de aparas de lá de rocha que sobraram do forro das paredes. Não importa, há que remediar a limpeza promovida. Brocas nunca entenderá o que já lhe começaram a tentar explicar. "Mas aquilo era lixo... Não faltaria gritarem-me se eu me tivesse esquecido de limpar de lá aquelas merdas... Sim que aqui ao Brocas mandaram-me ajuntar o lixo todo... E eu alguma vez pensei que aquilo não fosse para deitar fora!?"

Hei-de nessa mesma noite voltar a ver a obra de arte remontada no foyer. Das mossas que vejo nas tubagens nunca virei a saber a origem, se da arte propriamente dita se da viagem ao fundo do entulho do contentor. O italiano há-de beber um copo comigo, mais tarde no bar do CCB. Hei-de pedir-lhe desculpa uma vez mais e a quem perguntarei (a medo) se foi possível recuperar tudo o que parecia perdido. "Si, tutti, grazie mille!". Hei-de finalmente dormir sem intercomunicadores e preocupações.

Hei-de morrer a rir, já tarde na noite quando vejo o Brocas meter dentro do seu saco da roupa uma enorme manga de alumínio flexível. Hei-de encher o peito de ar para o repreender e hei-de ouvir qualquer coisa como "Cabrões! Deitar fora peças tão caras. Sabe quanto custa isto, sabe? Mais de um conto e quinhentos! Há-de servir que nem uma luva na chaminé do meu esquentador, ai isso é certinho! Chaminé, tá a ver Senhor Aniceto?". Hei-de ver Brocas rir-se da sua presa e levar e afastar da boca dois dedos unidos enquanto repete "Chaminé, chaminé, tá a ver Senhor Aniceto?".