"Sabes quantos anos eu tenho?" perguntou-me A, que frequentemente me coloca a questão. Decido brincar com ele, o meu coração tão apertado, que o miúdo perdeu o pai há poucos dias e a tenra idade não lhe deixou ainda entender toda a dimensão da tragédia. Ali, sentados no muro, A.e B., apenas amparados pelo braço da avó, vêem o mundo passar sossegado e calmo. Pus-lhe o dedo no nariz, assim ao jeito de "Estás a ver, roubei-to!", truque em que há anos não cai já. De dedo esticado a pressionar-lhe a ponta do nariz, os meus olhos semi-cerrados fingi adivinhar: "Tens seis anos". Arregalou os olhos, espantado com o meu acerto. "Como é que sabes?". "Sei porque tu me dizes que tens seis anos quase todas as semanas. Olha lá, estás bom?". "Estou" respondeu ele enquanto a avó continuava o amparo, uma braçada larga capaz de defender os netos de todos os perigos deste mundo, a névoa nos olhos que não levantou ainda as marcas da recente mágoa. Eu sabia que A. não se calaria, nunca o faz, há sempre mais uma pergunta, uma revelação. "O meu pai foi para o céu...". Olhei para ambos, neto e avó, encurralado pela frase fria e vi a avó fechar os olhos complacente, quem sabe a pedir clemência do que viesse a seguir. "Eu sei A., eu sei. Estamos todos muito tristes". "E sabes que os avós costumam ir primeiro para o céu, antes dos pais?". Não consegui responder de imediato, os meus olhos percorreram o vazio no fundo do muro da casa e acabaram por fixar-se no rosto adulto por detrás dos miúdos sentados no muro. Ela fechou os olhos, apertou-os mais no abraço, não me disse nada mas eu senti-lhe no rosto e na expressão sofrida que facilmente assentiria na troca de lugares. "Nós não escolhemos essas coisas, A., não escolhemos, acontece quando acontece" disse-lhe eu enquanto ele fugia dos braços da avó atrás de uma bola que estava esquecida no jardim.
31 julho 2008
30 julho 2008
Ora toma (e unicamente)
Não é uma descoberta de hoje, mas existe no mercado uma nova classe de antibióticos ditos de "Toma única". Nada de horários de oito em oito horas, mas sim uma única toma com determinada frequência (que pode ter dias de intervalo). Um tipo engole x comprimidos de acordo com a prescrição médica e espera sossegadinho pelas melhoras da maleita. A primeira vez que um medicamento deste tipo me foi receitado foi motivado por um problema de irritação cutânea e foi trigo limpo com o diagnóstico e prescrição a serem acuradas e tremendamente eficazes (um abraço, Luís e boas férias!). Ontem, e a propósito de uma infecção num ouvido que me assalta com uma regularidade impressionante voltei a ser brindado com a toma única. São dez comprimidos, engulam-se dois tijolos daqueles de cada vez durante cinco dias. Admirou-me bastante o facto da farmacêutica que mos vendeu não saber o que é a "Toma única". Abri a boca, espantado, quando ela comentou "Isto agora é uma chatice, receitam-lhe dois comprimidos mas a caixa é de dez. Vai o resto para o lixo, é um desperdício...". Tentei explicar-lhe que não era bem assim mas ela fez um ar sério e disse-me "Está aqui na receita, toma única!".
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Biografia
José Perdigão (Fados do Rock)
Ponham os olhos e ouvidos neste disco: Fados do Rock de José Perdigão. Uma voz de fado, da qual gostei mesmo bastante) a cantar temas que talvez nunca tenham pensado em ser arranjados para fado. O single de lançamento, Fácil de Entender dos The Gift é uma excelente amostra de um disco produzido por José Cid.
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Faits Divers
A mula da cooperativa
Um documento valiosíssimo sobre a memória do trabalho ferroviário em Portugal foi o que a TSF me ofereceu (em reprise) quando ontem me permitiu que escutasse a magnífica peça "A cidade do baú", uma reportagem baseada no centro ferroviário do Entroncamento. Uma autêntica delícia que, estando em arquivo (não confirmei) permite reviver sons e saberes de outros tempos. No meio deste trabalho, uma revelação. A letra da canção popular "A Mula da Cooperativa" imortalizada pelo cantor madeirense Max nasceu no Entroncamento por via de um desfalque praticado pelo tesoureiro da SCAFA, uma cooperativa local. A letra original menciona um muar utilizado pela SCAFA para transporte de abastecimentos e o nome do próprio tesoureiro: "A mula da cooperativa, a mula da cooperativa, deu dois coices na gaveta". Quando a popularíssima melodia se tornou um ícone nacional a letra seria alterada para aquela que toda a gente hoje conhece.
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Faits Divers
Fatal como o destino!
Para quem já leu o meu resumo curricular pessoal não se trata propriamente de uma novidade, é apenas a confirmação de que por onde quer que eu passe, nasce a ruína e o caos... (Na foto a ex-Escola Secundária Dona Maria I que frequentei durante três anos que deixaram alguma saudade).
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Biografia
Bartoon
O grande Luís Afonso, pai do meu muy querido "Touro de Barrancos", cartoonista emérito, mais Mac user do que eu sou capaz de ser benfiquista e uma das pessoas que me faz o favor de ser mais do que um cliente, veio numa das suas visitas a Lisboa visitar-me o que é por si só um prazer. Creio que nunca o terei publicado neste blog mas o Luís Afonso permitiu-me um dia ter o prazer de ver assinado "a meias" um dos seus cartoons, que como não poderia deixar de ser, é sobre Mac.
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Biografia
Esta estranha vontade de ser espanhol
Porque é que eu tenho a inabalável suspeita de que no dia em que houver uma emergência numa estação de Metro e a turba rompa em estampido em direcção à saída, vai haver uma desgraça maior nas cancelas do que na emergência propriamente dita?
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Cidadania
Prova de vida
Ontem tomei um medicamento novo para mim. A bula recomendava que os tomasse antes de dormir para prevenir distúrbios visuais e ou perdas de consciência. Esta gente devia tomar em consideração que depois de ler uma coisa destas um tipo não dorme à espera dos distúrbios e quando finalmente adormece não sabe se pegou no sono ou desmaiou...
P.S.- Foi o primeiro post feito a partir de um iPhone. Não recomendo a experiência.
P.S.- Foi o primeiro post feito a partir de um iPhone. Não recomendo a experiência.
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Biografia
29 julho 2008
De pé oh vítimas da fome!
Como é que é possível que o Director de um grande projecto comercial português não saiba o que é uma factura vencida? Como é que é possível? O defeito será meu?
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Pérolas
28 julho 2008
O Gaspar
Descobri no blog do Neca a história do Gaspar, um roaz corvineiro que se tem divertido que nem um mamífero a socializar com meia Europa atlântica e lembrei-me do Agostinho, um rato que vivia numa fonte de alimentação de um CPU de um cliente. Isto foi no tempo em que uma fonte de alimentação de um CPU tinha espaço para albergar uma família de humanos (se tivessem leques no Verão e se se apertassem um bocadinho) e os clientes tinham tempo, grão e paciência para pegar no Agostinho e metê-lo no bolso quando os técnicos de hardware tinham de fazer manutenções programadas. Lembro-me de que o Agostinho durou três anos e que era preciso avisarmos das visitas de serviço e levar bocados de queijo. O sacana nunca me mordeu, talvez pelo queijo ou pelo bom feitio. No dia em que lhe retirei o cadáver electrocutado de dentro da fonte, tive pena do Agostinho e do seu tratador. Nunca mais tive um Agostinho na minha vida, mas tive muitas baratas em fontes de alimentação. Só que nunca lhes levei queijo.
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Faits Divers
27 julho 2008
Uma coisa em bom
Tenho uma memória auditiva extraordinária. Assim, sem peneiras, classifico-a logo de extraordinária para desanimar qualquer pessoa que se apresente à compita e ainda dou de avanço caso seja necessário. Sou capaz de falar com alguém por telefone e depois de o escutar uns míseros segundos reconhecer-lhe a voz e tratá-lo pelo nome próprio sem me enganar mesmo que não fale com a pessoa há cinco anos. Nunca percebi de onde veio esta habilidade que nunca a treinei mas que isto é fora de comum, lá isso é, não me lixem, a prová-lo estão muitas pessoas que me perguntam "Sabe quem fala?" e a quem eu respondo que sim, mesmo que todas as rodinhas dentadas do cérebro estejam à beira da desintegração física por sobreaquecimento. Deve ser para provar a teoria da compensação universal de qualidades e atributos também conhecida pelo "Deus fecha uma janela mas abre logo uma porta" e se assim não é será porque o Criador odeia correntes de ar o que me parece demasiado picuinhas para um ser que bem podia ter inventado o ar condicionado universal. Tenho uma memória visual péssima. É rara a semana em que não há alguém que me cumprimenta com ar de enorme familiaridade e ali estou eu, tacanho, a tentar ler-lhe os sinais, a conferir fichas mentais, a transpirar por dentro e por fora, porque raramente consigo atinar-lhe com a graça, mesmo que seja a Graça ela mesma, que diz o fado que é tão bela que é tão boa, que até é pecado um tipo não conseguir consumar a identificação. É péssimo, faço interiormente imensas figuras tristes mesmo que cá fora mantenha a serenidade dos sábios e lhes faça uma festa como se o meu interlocutor tivesse sido resgatado de perigos mil e eu estivesse fartinho de lhe conhecer o primeiro e último e quem sabe todas as outras partículas do assentamento baptismal. É uma pena que assim seja. É aborrecido. Quase sempre só para mim que em trabalhos mil me vejo por vezes, tentado quase sempre a mandar cumprimentos a pessoas que ou já morreram ou nunca existiram, dizia apenas tentado que a prática destes momentos de interrogação suprema já me calejaram para múltiplas situações do género. Procuro que seja a pessoa com quem falo e não consigo reconhecer a dar-me pistas. Pareço um burlão primário desses que nada sabendo sobre a vítima a levam a entregar os pontos, o ouro e a informação. Resulta na maior parte das vezes mas alturas há em que o resultado roça o desastre. Como um tipo que encontrei centenas de vezes num dado ano e que no primeiro encontro me inquiriu com particular detalhe sobre o estado de saúde de noventa por cento da minha família que parecia conhecer com enormes pormenores. Que sim, que estavam todos bem, mesmo uma tia que haveria de falecer poucos dias depois em condições que haveriam de me fazer pensar no assunto durante muitos anos. Despachei-o, despachei-o literalmente em poucos minutos, respondendo com evasivas e frases neutras pensando sempre que ele haveria de se perder nos caminhos das nossas vidas e que dificilmente o voltaria a encontrar. Azar dos Távoras, acabei por me cruzar com ele durante centenas de outras vezes, o festival miserável da minha figura a perguntar-me quem seria a criatura, dia após dia venham de lá esses ossos, eu a desfazer-me em banalidades e frases curtas, a fugir para os últimos lugares do autocarro na esperança de que ele não me seguisse e a tortura assim terminasse. Inquiri a família, fiz retratos robot, levei ao local habitual uma pessoa de família na esperança de auxílio ou solução para o puzzle, mas desgraçadamente nunca consegui saber quem era o gajo. É claro que esta situação só se gera porque eu me sinto absolutamente incapaz de confessar à primeira a minha ignorância sobre a pessoa, parece-me mal, assim como assim são só uns minutos, longe de imaginar estava eu que aquela alma haveria de apanhar durante um ano inteiro o mesmíssimo autocarro que eu, capaz de levar um tipo à loucura, assombrar-me os sonhos ou fazer repercutir o trauma pela vida fora em aspectos onde menos se espera que surjam. E convenhamos é muito chato ao terceiro ou quarto encontro confessar-lhe que afinal não tenho a mais ténue ideia de com quem falo, é uma espécie de armadilha que eu mesmo monto e na qual enfio não o pé mas a cabeça e ainda sou mocinho para apertar o nó. Todos temos os nossos esqueletos no armário, aqueles que dizem não ter é porque os arrumaram muito bem, é apenas uma questão de procurar com mais cuidado. Acabei de voltar do café onde fui cumprimentado por um tipo que me interpelou como se tivesse feito a tropa comigo mesmo levando em conta que apenas fiz oito horas de serviço militar. Tratou-me pelo nome, pediu-me desculpa de não me cumprimentar com a mão direita porque a tinha suturada com largas dezenas de pontos e foi capaz de me contar a história da operação, da anestesia ao dreno, o que levou à vontade vinte minutos. Durante todo esse tempo, enquanto revolvia o açúcar no fundo da chávena e poucas vezes um café foi tão bem mexido, eu perguntei a mim mesmo "Mas quem diabo é este cromo?". Quando dei pelos vinte minutos lembrei-me de que o ponto de não regresso já tinha sido ultrapassado, já é impossível dizer a um tipo a quem conhecemos os tendões por dentro "Desculpe lá, mas você chama-se como?". Uma vez mais fiquei danado pela minha própria impotência mas principalmente por ele me ter dito "Eu ainda não fui lá levar-lhe aquilo. Não é desleixo, mas é porque quero levar-lhe uma coisa em bom...". Assim seja.
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Biografia
23 julho 2008
Lá vai Serpa lá vai Pias
"Então, como está? Gostou de Cuba?". Olhei-o surpreso. "Quem, eu?". Ele acenou afirmativamente e eu fiquei ainda mais baralhado. "Mas eu não estive em Cuba...". "Ai não? Eu nem o quis incomodar uma vez que você estava acompanhado e quando lhe quis ir falar já não o consegui encontrar." Tentei desfazer o equívoco, garanti-lhe que nunca estive em Havana mas ele não estava absolutamente nada convencido. "Aquilo é que são umas mulheraças, pá!" disse-me ele enquanto me dava uma palmada amigável nas costas e me piscava o olho de modo cúmplice.
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Biografia
Modus vivendi
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Pérolas
22 julho 2008
Stercus accidit
Enquanto houver homens e gadgets haverá acidentes insólitos e desesperantes. Em quase vinte e três anos de informática já assisti a múltiplos desastres que só são hilariantes porque aconteceram a outros. Já vi telefones recuperados de sanitas menos próprias, iPods que desceram oito andares em queda livre, filtros de piscinas repletos de aparatos tecnológicos (e três dentes!). Hoje registo um iPhone de primeira geração que foi pescado de dentro de um bidon de gasolina. Funciona, mas ficou com uma bela camada gordurosa no interior do vidro.
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Apple
À morte não se pede que assinale
Na passada Quinta-Feira viajei por estrada para o Porto atormentado pela notícia brutal do desaparecimento trágico, nesse mesmo dia, de um vizinho. Uma ultrapassagem mal calculada, o choque frontal com um veículo pesado e a notícia a engrossar, desabrida, as estradas da informação. Sempre tive temor por ultrapassagens in-extremis, minhas ou de outros e apesar de alguma experiência ao volante sempre considerei esse o momento mais delicado do factor de decisão de um condutor. Hoje, quase por mera casualidade, embora haja casualidades providenciais, pude escutar o relato testemunhal de alguém que sabia os pormenores. Nada mais trivial no nosso dia a dia de volante. Uma ultrapassagem iniciada e logo a seguir abortada, o refúgio na traseira daquele a quem queríamos ultrapassar e sem explicação, sem que haja uma única razão que conheçamos como válida, o regresso à faixa contrária onde o perigo que espreitamos ainda não se desvaneceu para se consumar a tragédia. Ninguém no seu juízo perfeito e são se esquece do perigo que o obrigou a interromper a manobra. Não é válido que assim seja. O relatório de polícia não o diz mas quase se adivinha um esforço brutal de travagem, uma fuga de frente para o lado errado da faixa. Lembrei-me disto.
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Biografia
21 julho 2008
We mean we're serious, dammit!
Atribua responsabilidade a um elemento, dê-lhe força à criatividade, ao desprendimento e ao toque light em comunicação formal. A seguir, quando ele lhe apresentar trabalho, diga que considera o produto extremamente engraçado mas vede-lhe a difusão do mesmo enquanto afivela a expressão séria e rígida que o seu negócio não tem. Perdeu um colaborador, ganhou um macaco de circo. Não tem graça, mas foi você que começou e no fundo no fundo é você quem lhe paga os amendoins.
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Biografia
Examinámos o perigo e o perigo eras tu
Fiz um desvio por conta de umas obras e optei por uma estrada onde raramente passo. À entrada de uma curva perigosa, uma placa esmurrada e amolgada gritava num amarelo torrado "Perigos vários!" coisa que todos sabemos poder encerrar todas as ameaças rodoviárias do mundo. Não contava sorrir como sorri quando ao sair da dita curva vi o jovem Luke a olhar para mim com cara de caso. Tive de cometer uma infracção para fazer a inversão de marcha que me permitiria a foto.
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Faits Divers
20 julho 2008
Que é das penas, que é das mágoas
..."E, se algum dia fores aos Açores, não te esqueças de visitar mais do que uma ilha...", disse-me ela com aquele ar alvoroçado e genuinamente digno de quem traz notícias bombásticas nas cordas vocais. "Sim, que eu visitei quatro e viajei de avião por cima do mar de uma para a outra".
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Pérolas
19 julho 2008
17 julho 2008
16 julho 2008
Quase todos os nomes
Chama-se Noel, nome inversamente prosaico à poesia da estação, não raro que só eu conheço meia dúzia deles, rai's parta todos os nomes mesmo que os invulgarmente famosos e só eu tenho uma resma de Lurmelinas, Turíbias, Balbinas, Ermengardas e Pulquérias, marcas que me vão ficando gravadas à medida que avanço na vida e nos conhecimentos adquiridos. Nunca os pus à compita, era uma boa disputa e muitas vezes o disse, nem sempre merecidamente, já cá faltava o trocadilho barato quando não há corda para mais enforcamentos, nunca os medi ou comparei, era um bom exercício e nem agora tenho tempo para isso, hoje só me ocupo dos Noeis ou será Noeles, que se lixe, mas lembrem-me um dia em que não haja assunto para vos falar do nome do Chefe da Repartição de Finanças da Penha de França que conheci quando era menino, num dia em que me achei mais ocioso e decidi ler editais numa Repartição.
Que digo eu? Tergiverso, eis uma boa palavra para farejarem o significado no dicionário, eu próprio tive de lá ir verificar a grafia e sempre enchi mais um chouriço e quase dois parágrafos. Chama-se Noel, dizia eu, mas ninguém o conhece por esse nome. Minto, grande aldrabão me saiste, toda a gente aqui da aldeia diz "Vou ali beber uma à do Noel", à uma que nunca o é e só assim acontece quando se fala de grades de cerveja, aí sim, tem propriedade e cabimento, sendo que a propriedade é líquida e o estado é, na maioria das vezes, etilizado. A taberna é que assim é conhecida, a do Noel, "vou ali buscar o Zé ao Noel antes que ele se desgrace" outra boa tanga, maioria das vezes são as esposas a dizê-lo quando deviam exclamar "Vou ali buscar o Zé ao Noel antes que ele me desgrace", assim sim, alguns já lá estão faz tanto tempo que já dizem "Ah, pois é, pá, estamos quase no Natal", piada subtil que nem sabem que fazem, acontece a excelentes piadas subtis não lhes reconhecerem o valor senão depois de mortas e enterradas, quando já estão no Noel desde a finada Sexta Feira e já hoje é Terça. Ao que consta o Noel quase não fecha, quero dizer com isto que os clientes mais resistentes chegam a não sair e isto não quer dizer que o taberneiro não vá a casa dormir, mas como ele diz a quem o quer ouvir, "Fiquem p'rá aí seus cabrões que eu não acarto ninguém para casa" e eles acabam por ficar, outros nem dão por isso mesmo quando são rebocados por amigos ou esposas mais compreensivas. Cenas da vida familiar e campestre a que não poupo o leitor por conveniência minha que não estou a ver muito bem como engatar o resto do comboio desta história na locomotiva do sentido e da razão. Onde íamos? Ah, na explicação da memória do nome, e o nome é Noel quando na verdade se fala de um sujeito que toda a gente trata por "Unhas". Mesmo o leitor mais azelha que tenha a sorte de entrar por este texto em cima à esquerda e vá na diagonal por aí abaixo saindo no sopé do mesmo pela direita baixa já percebeu que o Noel é o Unhas, Unhas para aqui, Unhas para ali, venha mais um jarro e duas Minis. Porquê Unhas? Pergunta parva de resposta fácil, porque a mão direita de Noel tem duas unhas, que diabo toda a gente tem duas unhas na mão dextra, não é propriamente uma enorme novidade ou morte de d'homem, helás, só pode pensar uma coisa dessas o infeliz que nunca viu as ditas lâminas córneas dignas de um almanaque ou de um circo de mulher barbada, aquilo não são unhas, são chifres Deus e o próprio me perdoem e eu mesmo, tolerante convicto me pergunto como diabo é que a ASAE ainda não marrou, salvo seja, nas ungulas (esta não vem na Priberam mas não se pode ter tudo, não é?) do Noel. Unhas, meus senhores, Unhas, sabeis agora das razões da alcunha, falta-me detalhar e detalharei que estou com a corda toda e sem sono até que o vómito aflore só pela memória das protuberâncias. Uma no polegar, outra no mindinho, coisa de vir no jornal da bizarria, de um tamanho tão extraordinário que só visto, contado por mim ninguém, ou quase ninguém acredita. Eu vi-as, meio distrito já as viu, catorze, senhores, catorze centímetros de unha em dois dedos opostos, dá vint'oito centímetros de unhaca, parece obra do Demo, aquilo são facas, espero por Deus que não sejam mas não era mal pensado para abrir ao meio um papo-seco de uma sandes de torresmos, lá está a história do afloramento do vómito. Rezam-se lendas, meus caros, rezam-se lendas sobre as unhas de Noel, eu próprio da primeira vez que as vi não queria acreditar, também não pedi que o próprio me beliscasse quando não era mocinho para não sobreviver e contar a historieta. Apenas perguntei sem zombaria se se tratava de promessa, ninguém me satisfez a dúvida ou mitigou a sede isso é obviamente mentira que bebi um branco fresquinho do barril só para me refazer do choque. Faz tempo, bastante tempo que não ouvia falar delas, as unhas, e só revivi o assunto porque uma pedra caiu no charco da monotonia e fez ondas, ondas essas que me chegaram aos ouvidos esta semana.
O Unhas, o mesmo é dizer o Noel está perante uma oferta milionária de um navegador holandês que aportou ao Tejo esta semana e que prometeu a quem o quis ouvir mil euros, calculem, mil euros pelas unhas e se estas sairem inteiras, condição basilar pois parece querer levá-las para Amsterdão para as expor num bar, ele há decorações do caraças, meus caros. Perante as negaças do visado em colocar no cepo o mindinho e o polegar para o supremo sacrificio, o montante tem subido, mais gente se juntou ao holandês que nem estava bêbado e o bolo do leilão estava esta noite mesmo em mil quatrocentos e trinta e dois euros, coisa que nem fez abanar as convicções do dono das supracitadas. Aguardemos pois em jubilosa esperança que o holandês ao que dizem, só levantará ferro nos fins do Verão.
Que digo eu? Tergiverso, eis uma boa palavra para farejarem o significado no dicionário, eu próprio tive de lá ir verificar a grafia e sempre enchi mais um chouriço e quase dois parágrafos. Chama-se Noel, dizia eu, mas ninguém o conhece por esse nome. Minto, grande aldrabão me saiste, toda a gente aqui da aldeia diz "Vou ali beber uma à do Noel", à uma que nunca o é e só assim acontece quando se fala de grades de cerveja, aí sim, tem propriedade e cabimento, sendo que a propriedade é líquida e o estado é, na maioria das vezes, etilizado. A taberna é que assim é conhecida, a do Noel, "vou ali buscar o Zé ao Noel antes que ele se desgrace" outra boa tanga, maioria das vezes são as esposas a dizê-lo quando deviam exclamar "Vou ali buscar o Zé ao Noel antes que ele me desgrace", assim sim, alguns já lá estão faz tanto tempo que já dizem "Ah, pois é, pá, estamos quase no Natal", piada subtil que nem sabem que fazem, acontece a excelentes piadas subtis não lhes reconhecerem o valor senão depois de mortas e enterradas, quando já estão no Noel desde a finada Sexta Feira e já hoje é Terça. Ao que consta o Noel quase não fecha, quero dizer com isto que os clientes mais resistentes chegam a não sair e isto não quer dizer que o taberneiro não vá a casa dormir, mas como ele diz a quem o quer ouvir, "Fiquem p'rá aí seus cabrões que eu não acarto ninguém para casa" e eles acabam por ficar, outros nem dão por isso mesmo quando são rebocados por amigos ou esposas mais compreensivas. Cenas da vida familiar e campestre a que não poupo o leitor por conveniência minha que não estou a ver muito bem como engatar o resto do comboio desta história na locomotiva do sentido e da razão. Onde íamos? Ah, na explicação da memória do nome, e o nome é Noel quando na verdade se fala de um sujeito que toda a gente trata por "Unhas". Mesmo o leitor mais azelha que tenha a sorte de entrar por este texto em cima à esquerda e vá na diagonal por aí abaixo saindo no sopé do mesmo pela direita baixa já percebeu que o Noel é o Unhas, Unhas para aqui, Unhas para ali, venha mais um jarro e duas Minis. Porquê Unhas? Pergunta parva de resposta fácil, porque a mão direita de Noel tem duas unhas, que diabo toda a gente tem duas unhas na mão dextra, não é propriamente uma enorme novidade ou morte de d'homem, helás, só pode pensar uma coisa dessas o infeliz que nunca viu as ditas lâminas córneas dignas de um almanaque ou de um circo de mulher barbada, aquilo não são unhas, são chifres Deus e o próprio me perdoem e eu mesmo, tolerante convicto me pergunto como diabo é que a ASAE ainda não marrou, salvo seja, nas ungulas (esta não vem na Priberam mas não se pode ter tudo, não é?) do Noel. Unhas, meus senhores, Unhas, sabeis agora das razões da alcunha, falta-me detalhar e detalharei que estou com a corda toda e sem sono até que o vómito aflore só pela memória das protuberâncias. Uma no polegar, outra no mindinho, coisa de vir no jornal da bizarria, de um tamanho tão extraordinário que só visto, contado por mim ninguém, ou quase ninguém acredita. Eu vi-as, meio distrito já as viu, catorze, senhores, catorze centímetros de unha em dois dedos opostos, dá vint'oito centímetros de unhaca, parece obra do Demo, aquilo são facas, espero por Deus que não sejam mas não era mal pensado para abrir ao meio um papo-seco de uma sandes de torresmos, lá está a história do afloramento do vómito. Rezam-se lendas, meus caros, rezam-se lendas sobre as unhas de Noel, eu próprio da primeira vez que as vi não queria acreditar, também não pedi que o próprio me beliscasse quando não era mocinho para não sobreviver e contar a historieta. Apenas perguntei sem zombaria se se tratava de promessa, ninguém me satisfez a dúvida ou mitigou a sede isso é obviamente mentira que bebi um branco fresquinho do barril só para me refazer do choque. Faz tempo, bastante tempo que não ouvia falar delas, as unhas, e só revivi o assunto porque uma pedra caiu no charco da monotonia e fez ondas, ondas essas que me chegaram aos ouvidos esta semana.
O Unhas, o mesmo é dizer o Noel está perante uma oferta milionária de um navegador holandês que aportou ao Tejo esta semana e que prometeu a quem o quis ouvir mil euros, calculem, mil euros pelas unhas e se estas sairem inteiras, condição basilar pois parece querer levá-las para Amsterdão para as expor num bar, ele há decorações do caraças, meus caros. Perante as negaças do visado em colocar no cepo o mindinho e o polegar para o supremo sacrificio, o montante tem subido, mais gente se juntou ao holandês que nem estava bêbado e o bolo do leilão estava esta noite mesmo em mil quatrocentos e trinta e dois euros, coisa que nem fez abanar as convicções do dono das supracitadas. Aguardemos pois em jubilosa esperança que o holandês ao que dizem, só levantará ferro nos fins do Verão.
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Biografia
13 julho 2008
12 julho 2008
Will it blend?
Anda aqui um tipo a mendigar um iPhone e outros a fazer batidos de maçã...
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Apple
Já viu o seu email hoje?
Foi a história mais curiosa que me foi servida esta semana. Fulano responde a um email perguntando "O jantar de dia 29 é a que horas?". O jantar foi há mais ou menos um ano...
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Faits Divers
iPhone 3G
O Francisco Pereira que faz o favor de ser meu amigo e que é um Mac user de (imensa) fé veio expressamente de Leiria Fátima para estar presente no lançamento do iPhone em Lisboa. Encontrei-o na fila que se formou à porta entre tantas caras que conheço bem e outras que só conheço assim assim. Quando hoje folheei a imprensa do dia vi-o em quase todas as publicações. Terá sido dos primeiros utilizadores a manusear o iPhone 3G já que estávamos ambos bem perto da bancada de exposição quando os telefones foram mostrados ao público e eu lhe segredava algo parecido com "Amanhã és uma estrela nos noticiários...". Se eu alguma vez pensei ver o Francisco Pereira nas páginas cor de rosa de um Correio da Manhã. (Foto: Jornal Público).
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Apple
11 julho 2008
10 julho 2008
Hero/Asshole Rollercoaster
"Vivemos para os dias em que somos bestiais e tentamos suportar aqueles em que nos consideram bestas"
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Apple
09 julho 2008
07 julho 2008
Numb

I've become so numb I can't feel you there
Become so tired so much more aware,
I'm becoming this all I want to do
Is be more like me and be less like you
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Apple
06 julho 2008
Tendo apenas medo que o ar lhe faltasse
Lá em baixo, ao fundo da rua está um cão a mijar um poste e eu aqui sentado imerso em solos de piano de auscultadores a aconchegar-me as orelhas e a alma. É como se aqui não estivesse mesmo tendo gente a toda a volta imagino que em alegre algaraviada é como se me tornasse transparente e os meus sentidos entretidos a treinarem-se nas olimpíadas da observação. Há senhoras de vestido domingueiro, ao sol da tarde, a falar uma linguagem que não escuto, apenas tenho o piano nos ouvidos. Há meninos que presumo que berrem, meninas que tenho a certeza que brincam e um cão lá em baixo, ao fundo da rua a mijar um poste. À minha frente encandeada pelo sol está uma mulher que chupa com prazer um gelado e que bem podia ajudar o peito a respirar se vestisse lingerie dois números acima. Há, à minha esquerda, um velho que está sem gelado mas que não parece tirar do quadro menos prazer. Não sei qual deles ficará sem ar mais depressa.
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Biografia
Bruno Aleixo
Os Conselhos que Vos Deixo 07 from Não Alinhados on Vimeo.
Há meses que sigo "Os Conselhos de Bruno Aleixo", talvez a única lufada de ar fresco no humor português depois da aparição de Bruno Nogueira. Textos curtos (curtíssimos) carregados de humor do mais venenoso e nonsense que pode haver. Sou cliente fiel e se algum dia me virem a rir sem sentido é porque provavelmente estou a pensar na bolacha dos Cornetos do Café do Aires. (Ver comentários deste post)
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Faits Divers
05 julho 2008
Leituras de Verão
..."Uma vez ultrapassadas as teorias segundo as quais o único debito laboratoris por parte do trabalhador era a remuneração, é hoje unanimemente aceite que o mesmo goza de um feixe de direitos relacionados com a “ocupação efectiva”, entre os quais o direito à realização profissional, direito esse que pode ser irremediavelmente comprometido com a transferência de entidade patronal. Como é facilmente compreensível, um trabalhador que, entre várias propostas, escolhe determinada entidade patronal - não apenas em função da retribuição ou dos designados fringe benefits mas principalmente tendo em linha de conta a perspectiva de carreira, os meios de trabalho fornecidos, a política de formação, o mérito que aquela goza junto do público ou a sua solidez financeira – e, de um momento para o outro, se vê integralmente “esvaziado” de todos esses elementos e integrado numa empresa que não tem passado e, provavelmente, não terá futuro, sofre um acentuado revés nas suas perspectivas de realização e de valorização profissionais, podendo ainda reflectir-se da sua ocupação efectiva.
É justamente esta preocupação que motiva o presente estudo, por se crer que viola os princípios mais basilares da dignidade da pessoa humana, bem como os ditames da boa-fé e confiança contratuais, a proclamada obrigatoriedade que impende sobre o trabalhador de manter um vínculo laboral com quem inicialmente não contratou."
In "Natureza jurídica da transmissão do estabelecimento comercial" Dra. Rita Garcia Pereira. Publicação Verbo Jurídico
É justamente esta preocupação que motiva o presente estudo, por se crer que viola os princípios mais basilares da dignidade da pessoa humana, bem como os ditames da boa-fé e confiança contratuais, a proclamada obrigatoriedade que impende sobre o trabalhador de manter um vínculo laboral com quem inicialmente não contratou."
In "Natureza jurídica da transmissão do estabelecimento comercial" Dra. Rita Garcia Pereira. Publicação Verbo Jurídico
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04 julho 2008
Pierre the french fighter pilot (and other story)
A do elefante é um mimo de nonsense, a do Pierre the french fighter pilot é um dos exemplos que mais dou quando exemplifico características próprias da língua inglesa.
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Faits Divers
03 julho 2008
Deve haver uma boa explicação

Para o facto da quarta faixa do álbum Keba de Faya Tess se chamar "Anicet Pedro"...
Obrigado ao André Lacerda pela descoberta.
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Faits Divers
02 julho 2008
Failed expectations
Percebi hoje, e apenas hoje porque sou um bocadinho lento em determinadas áreas do conhecimento, porque é que há determinadas empresas que têm exércitos de funcionários de braços caídos, gente que não sabe o que é lutar e de quem não se espera absolutamente nada a não ser que o tempo passe. Porque o merecem.
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You're no longer my best buddy
Pois eu cá ainda sou do tempo em que ia a rua toda e mai' nada. Laranjadas, croquetes e nas casas mais modernaças até havia BB Cola... Era a loucura, era a loucura.
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Faits Divers
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