29 setembro 2005

Dou-tou-ra Rosalina if you please

Deixem o mundo rodar sobre si mesmo durante uma enormidade de tempo e coisas haverá que evoluirão por si só até ao ponto de não mais poderem mudar-se a si mesmas, ou se por uma acaso da evolução isso acontecer, transformar-se-ão em coisas inauditas e incríveis que a nossos olhos de simples mortais se assemelharão a milagres do alto. Ou isso ou algum cientista obscuro provará que era pura e simplesmente esse o destino físico das coisas, e como sabeis, contra o destino físico das coisas há poucas manigâncias que se possam fazer, a não ser, claro é também, que sejamos crentes no alto ou cientistas, benesses de que todos gozamos um pouco, uns um nadinha mais gozões que os outros e isso traduzir-se-á no escalão do IRS.

Estava nisto o jovem informático sentado na cadeira frente à sua secretária, olhando com comiseração para os números da facturação do mês, baixos, para não variar muito e estragar os gráficos que gostava de afixar na corticite do escritório, quando o telefone tocou. Acontece muito isto dos telefones tocarem quando se está sentado na cadeira frente à secretária, dá imenso jeito ao desenrolar das histórias, acontece bastante na realidade, muito mais quando se está na banheira é um facto, isto para não falar dos milhões de toques telefónicos que se dão quando não há ninguém no escritório mas que infelizmente não aproveitam a ninguém, seja aos narradores de histórias, seja aos empregados de escritório que por lá não estarem assentam com isso mais uma fiada de tijolos no muro da falta de produtividade nacional.

"Olá Pedro, tens de cá vir beber um copo...". Era L., que sempre que telefonava saudava o interluctor tentando vender-lhe um automóvel ou prenunciava o cravanço de um favor. Ora, como eu mesmo tinha comprado a L. um automóvel no passado mês, estava-me destinada a segunda hipótese. "Pá, comprei um computador para o bar de Benfica!". O jovem informático recostou-se na cadeira em frente da secretária, interrogando-se a si mesmo das razões porque não teria L. comprado o computador ao próprio jovem informático, mas, lá está, essa é apenas mais uma das coisas imutáveis com que hão-de lidar todos os jovens informáticos de ontem, de hoje e de sempre, ou seja, participarão da cópula, mas estão-lhes vedados os preliminares. Roerão os ossos mas não comerão a carne. Sentirão a picada mas não terão prazer de coçar a comichão e por aí fora, desenvolva o leitor o resto do tema que há-de ir longe no prazer solitário e se for longe, mesmo muito longe, até ao finzinho, não se esqueça de fumar um cigarro que sabe sempre bem.

Pedro não fazia ideia de que L. tinha um bar em Benfica. Minto, fazia. Já lhe tinham sido revelados muitos dos negócios de L. mas daquele apenas vislumbrara uma pontinha ao ouvir falar de orçamentos de veludo negro e de um princípio de incêndio a meio das obras, coisa pouca, três latas de tinta para o lixo, nem uma chamada de orelha na página três do Correio da Manhã.

"E para que queres tu um computador no bar?" Parece a pergunta um tudo nada imbecil lida à luz dos dias de que gozamos hoje, mas isto faz tempo que foi perguntado, faz mesmo muito tempo, quase vinte anos o que dá uma realidade nova à pergunta, numa altura em que só meia dúzia de cientistas obscuros à cata de provar teorias milagrosas possuiam semelhantes caixas produtoras de milagres de cálculo.

"Tens de cá vir. Tens mesmo de cá vir. Isto é para controlar a caixa e as comissões das miúdas". Ora, controlar a caixa eu percebo que se queira, é normal que os donos dos bares queiram todos controlar as caixas mas esta da comissão das miúdas era-me estranha e não fosse o jovem informático estar distraído a enrolar o cabo do telefone e a pensar no que ia almoçar no final da manhã e talvez tivesse vislumbrado o alcance da coisa, mas não ligou, preferiu passar à frente e falar a L. do carburador entupido cuja reparação haveria de ser por conta dele, entre outras coisas, umas mais precisadas da intervenção do mecânico que outras. "Abrimos amanhã, por isso aparece depois das vinte e duas, se não tiveres carro - bela tanga que compraste - eu mando alguém buscar-te". Que assim seja, tá bem abelha, amen ou o que for mais conveniente a crentes, descrentes ou outros a quem a carapuça não sirva. Estejam por cá às nove e meia e não me deixes à seca como de costume e aos costumes não respondeu nada, apenas se limitou a esperar educadamente que do outro lado desligassem que a boa educação é uma coisa mesmo muito bonita.

E foi o jovem informático transportado em carro de luxo, ao invés do lixo a que estava habituado ou do outro lixo que tinha comprado a L., reveses da vida de jovens informáticos com carteiras magras, as de clientes e a outra, pouco habituados a motoristas mais a mais uma fêmea loura e prenhe de voluptuosidade, qualidade do que é voluptuoso, sensualidade, deleite carnal, lascívia, prazer dos sentidos, gozo espiritual, Novo Dicionário Lello da Língua Portuguesa, língua essa que aparecia aqui e ali entre uns lábios cuidadosamente pintados e uns dentes de tão brancos que o pareciam ter sido. Era de noite e chovia, isto tinha de ser escrito precisamente aqui que no início era o verbo (e o verbo se lá forem ver, é "deixar") e viu-se o jovem informático com o problema de ter de manter o vidro fechado até cima ou morrer sufocado num odor dulcíssimo de perfume com fortes fragâncias de morango, tão fortes que se podiam comer se se mastigasse o ar, coitada da pequena, tão bonita e tão bem feita, logo havia de ter marinado dentro do frasco durante todo o dia iria jurar...

A viagem tinha começado de uma forma inusitada, um "Boa noite, querido!" tão extraordinário, mas tão extraordinário, que de tão inesperado se estranhou o boa noite. Não fazia ainda sequer uma vaga ideia do que o esperava mas que diabo, se isto era apenas a primeira linha, a peça e que rica peça, prometia casa cheia e sessões esgotadas. Haveria o trajecto de se esgotar entre sorrisos e banalidades e algumas confusões com o elevador dos vidros que ora se abria, ora se fechava, que estava o pendura ocasional muítissimo mais habituado a manivelar a sua própria pouquíssima automobilizada janela. Apenas à chegada, um aceno adornado pelo tinir metálico de pulseiras, fios e restante quinquilharia, uma última golfada de morango concentrado e uma voz sussurrante a dizer-me "Rosy, se precisares de alguma coisa o meu nome é Rosy,,," Ora aqui estamos nós perante uma daquelas situações em que a efémera vida de um cartão de visita pode perfeitamente ser poupada, com a cabeça e as hormonas do jovem informático a correr à desfilada de sinapse em sinapse, se bem que quase jure que algumas tomaram atalhos, toda esta correria apenas porque não lhe faltavam "ses" para a miríade de coisas de que se lembrava assim de repente e estaríamos até aqui a noite toda, não a contá-las que o jovem informático não é desses. Ainda terá pensado em retorquir "Aniceto, Pedro Aniceto" mas além de lhe parecer uma cópia descarada de outras cenas não menos cinematográficas, não conseguia, por mais que o tentasse, perceber de que espécie de coisas poderia Rosy precisar que não tivesse já, ou que lhe não fossem facilmente concedidas. A prova provadinha de que o Criador está atento a todas estas coisas é uma bátega mais forte obrigou o jovem informático a refugiar-se no interior do bar e lá vai Serpa, lá vai Pias e Rosy conjuntamente, adeus até um dia, podia ter sido um prazer. Não rima mas não deixará de ser verdade.

Trabalho será trabalho, cognac será cognac, olá estás bom, para mim é um gin, o médico sempre me prescreve doses de quinino quando vou para as selvas e outra coisa não me parece que esteja fazendo. "Então e que tal" pergunta L. ufano do seu smoking de dono de bar, não o tragas muitas vezes que te confundem com o porteiro, não seria o primeiro diz ele que ainda agora me puseram mil escudos na mão para ir arrumar um carro... Por falar em carro, obrigado pela gentileza, mais ainda pela motorista, não disse "chauffeur" que dificilmente L. perceberia outra coisa que não fosse "chófer" e não me parecia de bom tom estar ali com grandes explicações. Que nem sabia quem me fora buscar, disse-lhe de Rosy e do perfume de morango, ah! então gostaste, que ideia, mas que coisa é esta L. abriste uma casa de putas?

"Bar! Isto é um bar!". Ok, chama-lhe o que quiseres, até prova em contrário isto é o que parece mas quem sou eu para te contrariar, bebe um copo e come qualquer coisa que mais logo temos de ver o computador. O jovem informático não resistiu ao sorriso e ao pensamento irónico do "come qualquer coisa", mas eis o Gin e deixemo-nos de disparates e vamos ver as vistas. Poucas coisas haverá mais embaraçantes para o jovem informático do que estar numa casa de meninas (baixemos o tom por respeito a L.) sem conhecer mais ninguém que L. e Rosy e a respeito desta última é tudo o que sabemos, se exceptuarmos a voluptuosidade e a geleia de morango vaporizada. Minto. Mente uma vez mais o narrador que talvez por conveniência de prosa não mencionou o assunto, mas ainda mais convenientemente só se lembrou disso neste preciso momento. Notara o jovem informático uma singularidade além das descritas no pequeno habitat motorizado de Rosy. No momento de se sentar a seu lado, ainda anestesiado quem sabe pelos aromas frutados, fora o mesmo obrigado a deslocar de sítio três volumosos livros dos quais retivera serem dois de Heidegger e um de Keynes, ele há coisas do demo (e outras ainda em beta!), coisa singular não por serem três, piada torpe quem sabe, mas por os achar deslocados no cenário. Depois o leitor já percebeu das razões de tal achado ter passado por fora do centro das atenções, mas voltemos à vaca fria dizia eu que nada há de mais embaraçante que estar de copo de Gin na mão, a olhar em volta sem conhecer mais ninguém a não ser L. e Rosy que ambos ocupado com clientes e amigos não paravam de circular de um canto a outro da sala. Não que a sala fosse enorme, poupariam meias solas, o espaço é absolutamente exíguo e mais exíguo se torna se cheio de pessoas bem vestidas mais por fora que por dentro.

Apesar de apertado e absolutamente povoado da mais fascinante fauna humana, ao jovem informático não faltaram motivos de interesse na observação cuidada de néscios e burgessos sendo que aos burgessos os néscios ganhavam de goleada. Não sendo a primeira vez que lhe era dado observar semelhante espectáculo, era uma premiére em termos de pormenor, da roupa aos maneirismos, dos tiques às expressões de macho de final de dia. Olhou para o copo, já vazio e uma ligeira náusea incomodou-o sendo que este atribuiu ao limão pouco fresco que já vira dias mais viçosos.

"Olha, mostra-me lá a máquina que se está a fazer tarde..." foi a forma de se escapar do sufoco desconfortável.


(CONTINUA)

24 setembro 2005

Ouvi alguém contar...

"...Foi este albergue criado
Por D. António de Robles
com uma generosidade tal,
que criou primeiro os pobres..."

Cool for cats

Sei de um grupo de gatos que devia figurar no Guinness Book of Records. Não deve haver em termos nacionais, quem sabe se europeus, felinos mais informados que estes em termos de economia doméstica ou eleições autárquicas. Diz a dona, que lhes forra o caixote sanitário com folhetos publicitários de super e hipermercados e propaganda política, que o melhor papel é o do Jornal da Região, seguido de perto pela Dica da Semana. O pior, ainda segundo a mesma fonte, é o couché do Partido Socialista, muito pouco absorvente. Os felinos mostram uma absoluta indiferença à mancha impressa não manifestando apetências especiais por uma Dourada escalada Pingo Doce (8 Euros/Klg) ou pelo esparguete de Marca Bellini (1,02 Euros/Unidade). No entanto, depois de urinados, alguns candidatos ficam com melhor imagem. Isto claro, dito pelos gatos que reflectem imenso sobre o assunto.

23 setembro 2005

Um imenso amor azul

C. mora desde que se conhece, e já se conhece há quase sessenta anos, à sombra do Estádio do Restelo, couto sagrado aos seus olhos e consciência belenense. C. era, nos seus anos mais viçosos um "pardal" de Alcântara, no tempo em que Alcântara mais não era que um imenso quintal dos quintais de Lisboa. Pelas palavras de C. sou levado a montes e valados, quintas e casinhas, pomares e pedreiras, como se tudo não fossem já águas passadas, levadas e lavadas por um Tejo ali a dois passos. Ouvir C. falar dos seus tempos de criança é uma imensa viagem e apesar de o já ter ouvido muitas vezes, nunca se cansa a canseira de o fazer.

"Não sei porque sou belenense, não se explica, aliás Pedro, tu sabes que nessas coisas não se deve insistir, um tipo é o que é e pronto, cada barco tem a sua carreira, a minha parou em Belém e está tudo dito, não é?". Pronto, eu percebo, bebamos mais um copo aqui nesta esplanda em que transformaste a varanda do prédio onde vives e onde estamos. E estamos muitíssimo bem, em frente o azul das bancadas despidas a esta hora (e mesmo durante os jogos, acrescento eu mentalmente, porque não teria coragem de to dizer na cara, embora o saibas e isso te desgaste e desgoste), o relvado a gozar as delícias de uma rega de fim de dia, as balizas ali, brancas e impávidas a recuperar momentos nervosos de um e de outro lado. "Sou sócio desde os 18 anos, mas nunca vi um jogo sentado naquelas bancadas". Não me admiro. Aquela varanda vale por uma tribuna VIP, tem lugares marcados e sítios próprios para as crenças de quem ama o futebol, o vaso que tem de estar ali senão dá "galo", o guarda-sol que é arrumado para que o vizinho do lado possa gozar da vista toda, um conjunto de tradições que o teu filho já segue, ainda que se esqueça de um ou de outro preceito de quando em vez.

"Daqui da rua ao Vale de Alcântara não era propriamente perto, hoje um tipo apanha um eléctrico e está lá em dez minutos, mas antes não era assim...". Eu sei, também fui um viajante pedestre de Lisboa nos tempos em que o dinheiro não era para ser esbanjado em bilhetes de carro eléctrico. "O meu pai era serralheiro na Carris, e era eu que lhe levava o almoço. A minha mãe dava-me a lancheira dele pelas onze e eu ia levar-lha às Oficinas da Carris." Também conheci o ritual, não durante muito tempo é certo, mas também por aí passei.

"Almoçava muitas vezes por lá, eles tinham um autocarro velho que servia de refeitório, tinha mesas e cadeiras, aquilo era giro, era diferente e havia sempre uns mimos e umas buchas que me davam. Quando tocava para pegar ao serviço da parte da tarde, eu arrumava a tralha e vinha por aí fora a corta-mato, depressinha para ir para a escola". "Foi por essa altura que fiz a minha profissão de fé Belenense". Como? Conta lá essa que nunca ouvi.

"Espera, acho que poucas vezes contei isto, mas tu percebes-me com toda a certeza...". "Um dia houve em que os colegas me perguntaram qual era a minha equipa... Aquilo era tudo lagarto e lampião, até o meu pai torcia pelo Atlético, que Deus o tenha em descanso que ao Atlético já pouco falta, ai se ele me ouvisse!". "Eles tinham comprado um melão para a sobremesa, quer dizer, não sei se compraram, mas que ele estava lá, estava, amarelinho a rir-se para mim e se eu me pelava por uma talhada de melão. Percebi logo que tinha que dar a resposta certa, senão não cheirava sequer o melão... Aquilo custou-me muito, Pedro, custou-me muito. Quando o tipo me fez a pergunta eu quase estremeci, ia ter de dizer uma grande mentira. Não era pela mentira, era pela traição, percebes? Logo aquele, o Costa nunca mais me esqueci do nome do gajo, que não gostava do Belenenses nem um bocadinho... Mas enfim, lá fui enrolando, enrolando e acabei por comer o melão sem ter traído a consciência, pensei até que ele se tivesse esquecido.

O problema é que ele não se esqueceu. Estava eu a arrumar as coisas para me vir embora, já eles tinham saído todos do autocarro, quando vi que tinham fechado a porta, e eu ali, aflito para me ir embora, que a minha mãe dizia-me das boas quando me atrasava... Eu bem que a tentei abrir, mas aquilo tinha um fecho pelo lado de fora e as janelas tinham rede... E lá estava ele, encostado à porta a perguntar - Qual é o melhor clube do mundo? Qual é o melhor clube do mundo? E eu nada, nem tugia nem mugia e ele a rir-se, o cabrão, sem parar com a pergunta - Qual é o melhor clube do mundo? Qual é o melhor clube do mundo? e eu sem saber o que fazer. Então, mas como é que resolveste o problema? "Então, lá tive de dizer que era o Benfica, mas disse baixinho para ninguém ouvir..." Como é? Não ouvi nada! Benfica. Mais alto, mais alto que não ouço!" Benficaaaaa!. "Mas fiquei lixado, fiquei mesmo muito chateado, aquilo foi uma violência...! Assim que me apanhei livre, corri para o portão, desatei a fugir pela Junqueira abaixo, direito ao Altinho, sabes onde fica, não sabes, acho que nunca mais quis saber da lancheira e quando entrei nas Salésias, senti assim uma coisa pela espinha abaixo, fui ao meio campo, aquilo já estava um bocado decrépito, já nem tinha balizas nem nada, mas procurei o meio do campo, pus as mãos em concha à volta da boca e gritei o mais alto que pude:
"BELÉÉÉÉÉM! BELÉÉÉÉÉM! BELÉÉÉÉÉM! "

22 setembro 2005

Das ervas e das pedras

O tipo tombou pertinho de mim, na valeta cheia de erva seca. Nem fui eu que dei com ele, mas sim o cão que farejava o chão à minha frente. Tombar não será o termo mais correcto, ele "arrumou-se" como um trapo que se enrola sobre si mesmo quando lançado ao chão. Um fato de macaco com um homem dentro, outrora quem sabe, o fato, da Lisnave, do homem nada sei a não ser que está ali enrolado como um gigantesco ponto de interrogação, tão grande quanto a minha própria admiração mais aprumada. Aproximei-me. "Precisa de ajuda?". Pergunta parva, um tipo não cai numa valeta porque simplesmente lhe apetece. "Não, está tudo bem...". É óbvio que não pode estar, o homem está claramente em dificuldades. "Deixe-me estar, deixe-me estar, nunca mais Deus me leva". Apetece-me dizer-lhe que enquanto Deus não arruma o expediente, talvez seja melhor esperar numa posição mais confortável, mas contenho-me pela lembrança dos meus amigos do INEM que defendem a teoria de que o humor subtil não resulta com pessoas tolhidas pelas dores. E são capazes de ter alguma razão. Irrita-me a ideia de seguir o meu caminho e deixá-lo ali. "Ouça, eu posso chamar uma ambulância...". "Não, não faça isso, eu daqui a pouco já estou bem...". Contrariado vou seguindo o meu trajecto. O homem levantou uma das mãos e afagou a cabeça do cão que não mais parou de o tentar reconhecer pelo faro. "Eu não posso ir para o hospital, tenho lá três desses e depois ninguém olha por eles e além disso lá não me fazem nada". Tentei uma alternativa, atravesso a rua e abordo um grupo de pessoas que conversam no passeio. "Não se preocupe, ele nunca quer ajuda, acontece-lhe isto com frequência, é um cancro nos intestinos, ele depois lá se levanta e segue para casa". Sinto-me um bocadinho ridículo. Aparentemente toda a gente sabe o que o atormenta, excepto eu mesmo. "Coitado, é viúvo, o filho não quer saber dele..." Assim como uma maldição, a de se ser viúvo e do filho optar por ignorar a respectiva cruz. Volto a casa, devolvo o cão ao seu espaço mas não passa muito tempo sem que me sinta culpado pela ausência. Volto à rua e abeiro-me do homem que se tenta, a custo, reerguer. "Já estou melhor" diz-me enquanto puxa de um cigarro. Acendo-lhe o isqueiro, gesto que recusa energicamente. "Eu tenho, eu tenho, nunca mais Deus me leva...". "E o seu cão, onde está o seu cão? Não vá ele meter-se aí debaixo de algum carro!". Apeteceu-me dar-lhe uma ligeira palmada no ombro e dizer-lhe "Vá com Deus", mais por hábito que por crença, mas como já sabemos o humor subtil não funciona com estas pessoas e mais a mais pareceu-me um desejo extremamente desajustado.

Lendas suburbanas

No Intercidades Lisboa-Porto, viajava uma formosíssima mulher com um bébé de colo. À sua frente vai sentado um homem jovem. O bébé irrompe num choro e a mulher prepara-se para lhe dar de mamar, apresentando um peito muitíssimo bem fornecido. Mas a criança não dá tréguas e continua a chorar, pelo que a mãe entoa uma cantilena:
"Filho meu, filho meu, mama o peito senão dou-o ao senhor aqui na frente"
O bébé, prontamente mama e adormece, decorridos quinze minutos começa de novo a chorar e a mãe repete:
"Filho meu, filho meu, mama o peito senão dou-o ao senhor aqui na frente"
Há paz na carruagem durante meia hora. Novo acesso de choro, nova recitação da ladainha:
"Filho meu, filho meu, mama o peito senão dou-o ao senhor aqui na frente"
E assim foi decorrendo a viagem, com a repetição de choros e cantilenas. Quando faltavam poucos minutos para chegar ao Porto, a pobre mãe ia começar a entoar o "Filho meu, filho meu" quando o homem à sua frente, explode angustiado:
"Oh minha senhora, veja lá se se decide que eu já devia ter saído em Santarém!"

A angústia do dono da casa face ao cano de esgoto

Tive esta semana um problema sério com um cano de esgoto. O assunto não é simples e exigiu medidas prontas e drásticas. Fui consultar especialistas na matéria e deles ouvi coisas extraordinárias, nomeadamente ao nível de preços e sobre o potencial de destruição que iria em breve atingir a minha casa. Entendi que em teoria tudo se resolveria usando três palavras, a saber, sacar, partir e euros. É bonito e chega a ser comovente que tudo passe por "partir umas paredes" e "sacar fora". Fui confrontado com orçamentos que fariam chorar o ministro das finanças. Alguns dos profissionais que visitaram o local teceram imensas críticas ao sistema, inclusivamente e para meu delírio, o próprio autor da construção que entretanto se esquecera que fora ele mesmo a desenhar e a colocar as tubagens no sítio. Com 80% das instalações sanitárias da casa interditadas no uso, pedi ajuda a C., profissional do ramo. Observou tudo e teceu considerações sobre o que estaria bloqueando a circulação. Abriu e fechou caixas de inspecção, teorizou sobre as coisas indizíveis que se lançam nos esgotos cuja leitura pouparei ao visitante ocasional destas linhas. Encolheu os ombros e virando-se para mim em sinal de franca solidariedade, disse deveras apropriadamente: "Mas que grande merda!".

20 setembro 2005

E os ouvintes, Senhor?

Corre por estes dias, na TSF, um programa chamado ABC da Europa. Todos os dias uma letra é escolhida para um tema que é depois desenvolvido durante dois ou três minutos. Ontem, a escolhida foi a letra H. O headline da rubrica não podia ser melhor, Com voz bem timbrada, o locutor pronunciou: "Agá, à espera da constituição europeia". Só não me benzi para não tirar as mãos do volante.

Um tijolo, dois tijolos

As aulas começaram e com elas recuperou-se um cenário habitual na época. Os grupos de mães que depois de terem depositado os respectivos rebentos na escola, aproveitam a proximidade do café para uma bica e dois dedos de conversa. É um destes grupos que tagarela animadamente à volta de uma mesa. "Oxalá a professora de português da minha Lurdes seja melhor que a do ano passado. A mulher era uma desgraça!". A maioria parece concordar e a conversa solta-se sobre os erros da pobre professora. "Mandou-me um bilhete pela miúda o ano passado que olhem, eu até o guardei porque tinha cá uma letra...". O volume da conversa baixou, o que me picou a curiosidade, é que por norma as conversas mais interessantes são precisamente as que são mantidas em surdina... "E agora deixem-me cá levar umas gomas para a Lurdes que ela gosta tanto disto...". De pé, frente ao apetitoso expositor de gomas, com formas e cores das mais variadas espécies, a progenitora ia enumerando as escolhas. "Duas destas, duas daquelas, e mais dois destes..." De quais?, perguntam do lado de lá do balcão. "São dois tijóis".

As devidas vénias

A pedido de várias famílias, as entradas deste blog passam a ter um link directo (clique na hora no final do post), o que torna bastante mais simples o envio e a localização de determinado URL, por email ou Instant Messaging. Aproveito a oportunidade para agradecer a todos os que amavelmente colocaram links para as "Reflexões de um cão com pulgas" nos respectivos blogs, (ou o recomendaram publicamente), casos do Há vida em Markl, O Sonasol, Fábio Domingos,Mané Blog ,Careca Online, Ana Ferreira, Sturu, O olhar do Miguel, Sound Dream, MacNotícias, Tónica Dominante e João Vasconcelos Costa. (Se me esqueci de alguém a culpa é do Technorati ou mesmo minha que perdi as notas que tinha sobre este assunto...), facto que contribui decisivamente para o número de visitas que têm "coçado o cão" todos os dias...

Actualização: Adiciono à lista o Diário de Bordo,o Pedrada no Charco e o Deus e outras coisas

Stop the press! Falta o Conversamos!

Dúvida!

Acordei com uma dúvida atroz... A mulher do José Castelo Branco deve ou não ir à manifestação?

19 setembro 2005

S.Jorge

T. era paquete camarário. Cruzava a cidade em demandas requeridas pelo seu ofício e era, por benesses de horário, sempre o primeiro a chegar ao nosso religioso encontro pós laboral de fim de dia, num dos cafés do Marquês de Pombal. Por ser o único que trabalhava na Baixa de Lisboa, T. era o nosso informador preferido das estreias cinematográficas da semana e era da boca dele que sabíamos dos filmes em exibição no Condes ou no S.Jorge. Não que T. fosse um cinéfilo assumido, mas pelo simples facto do autocarro que apanhava de regresso a casa passar perto dessas salas e na época ser absolutamente normal que se expusessem nas fachadas os cartazes gigantescos que detalhavam cenas, prémios ou nomeações. Durante meses T. foi não só o informador, mas também o crítico de serviço e isto tudo apenas baseado nas fugazes observações dos cartazes. Em semanas de sorte e se o autocarro se detivesse nas filas de trânsito da avenida da Liberdade podia até dar-se o caso (raro) de T. tomar nota dos nomes das estrelas do filme para podermos à volta da bica da tarde ou da noite decidir das nossas preferências da semana. Mas um dia houve que ficou célebre para sempre.

-"Malta, está um grande filme no S.Jorge!" Perguntei como se chamava. "Tem um nome estranho..." Sim, está bem, mas sabes com quem é? "Jack Nicholson!". Porreiro, e como é que se chama?
"Doze Óscares voando sob um ninho de cucos".

Bimbo!

A poucos metros de mim um camião desgovernado atravessa a rua e embate com fragor numa árvore e num poste da EDP que fica partido pela base, arrastando consigo os vários cabos que suporta. Afasto-me o suficiente para me salvaguardar de uma descarga cujos efeitos já testemunhei noutra ocasião. O conjunto pendente não fica a tocar em nada por mero acaso. Para meu espanto não vejo no lugar do condutor ninguém sentado, mas percebo que o motorista desce a rua a pé com sentido nervosismo. Certifico-me de que não há ninguém apanhado pelo camião, isto se descontarmos um decorativo (?)leão de cerâmica que ficou sem cabeça, mantendo o resto do corpo colado ao pilar onde sempre esteve.
A altura dos cabos no meio da rua é uma armadilha à espera de vítima. Não suficientemente baixa para um automóvel, mas presa certa para um camião do mesmo volume deste. Pego no telefone e ligo ao 112. "Boa tarde, há um acidente na rua x que envolveu cabos eléctricos em carga e é preciso notificar com urgência o piquete da EDP". "Isso não é connosco!". "Percebo, mas creio estarmos em face de uma emergência, certo?". "O que quer que eu faça? Que ligue para a EDP?". "Provavelmente...". "Mas nós não fazemos isso." Desligo e fico a pensar em quem é que nos protege dos protectores. Um dos cabos, sob evidente esforço físico está exactamente sobre a cabine do camião, onde proprietário e motorista, agachados, conferem os estragos na viatura. "Boa tarde, por favor tenham cuidado que se o cabo se quebra vocês estão num local muito complicado". Tenho a sensação de ter falado chinês. "Ora que porra, isto são seguramente uns três mil euros...". Afasto-me a resmungar com os meus botões e a pensar que há gente que não merece uma só molécula do ar que respira.

Kiss and tell

Tropeço literalmente em R. nas já quase por mim esquecidas ruelas de Cascais. R., companheiro e cúmplice de brincadeiras de anos, está, à semelhança de todos os componentes do nosso grupo, mais velho, mais gordo e mais calmo. Não nos víamos desde o século passado mas rapidamente nos actualizamos. Em minutos alinhamos as perguntas regulamentares sem que pareça não esquecermos nenhuma. As que querem saber da saúde do próprio, dos pais, das irmãs e do irmão e do que é feito, cá vamos, mais velhos e mais gordos pois, isso já nós sabemos, meu menino há séculos que te não via. Deixo para o final a inevitável pergunta sobre o estado do stock. Não que R. seja corrector, longe disso. Apenas que é importantíssimo perguntar-lhe, em tom de ironia (e sempre em tom de ironia) pelo stock, já que R. está ligado ao import/export de "matérias primas" de Leste e consequentemente a uma das mais prósperas indústrias deste país. Para bom entendedor, meia eslovaca basta... Nenhum remoque, nenhum juízo de valor que cada um sabe de si e Deus saberá de todos se estiver atento e com os ficheiros devidamente indexados.


R. ficará para sempre nas minhas memórias de adolescente. Capaz de trajar sempre a rigor para a época e isso significava invariavelmente a bela botinha de cano, mai'la bela calça de ganga branca acompanhada da camisinha da moda, preferencialmente amarela com golas com pano que hoje, supervisionado o corte por um técnico chinês, era capaz de produzir outro exemplar. Era um dos "bonecos" do grupo, cabeleira farta penteada vezes sem conta no reflexo das montras ou no retrovisor dos carros estacionados. Era assim uma espécie de vestido para matar, mas no bom sentido. R. era dos pequenos machos em vias de o ser, na glória dos nossos quinze anos, o mais dançarino e até o mais ousado nas galanterias e namoros isto para não falar da sua veia futebolística. Poucas coisas ou figuras do sexo oposto lhe escapavam fosse em lábia ou imaginação. Veio então a dar-se o caso de nos encontrarmos todos numa festa de aniversário. Coisa encenada a rigor como era dos costumes dos anos 70. O lustre da sala recoberto de celofane vermelho (ah l'ambiance!), uma bola de espelhos desviada algures (vocês não vão querer saber...) e o som. O som! Um pickup Sylvania, mono, gerido com maestria pelo melómano do grupo (estás bom, Francisco?), munido da emblemática mala de LP's e alguns singles de 45 r.p.m., vejam lá como são as coisas, sem um único scratch (quem arranha paga uma agulha nova!), os tempos mudaram muito oh se mudaram...

Se bem se recordam os de antanho, as festas dividiam-se em três tempos religiosamente marcados, a saber, shakes, morfes e slows. Ah pois é! Tão certo como o cão ter pulgas, eram assim mesmo as operações, sendo que no caso os shakes não podiam ser muito agitados pois corria-se o risco de desabar a sala mais os celebrantes no terceiro andar ou, mal menor, saltar algum prato da cristaleira. E isto de mudar a arrumação das salas de visitas dos pais dos amigos tinha muito que se lhe dissesse. Alguns de vós saberão do que falo, outros mais do que os uns propriamente ditos.

Os morfes eram, regra geral, rápidos não só porque a juventude é deveras garganeira de hábitos, mas também porque pela familiaridade entre convivas conhecíamos já de gingeira os dotes culinários da mãe do aniversariante, fosse ele ou ela quem fosse, e era então mais simples planear as marcações cerradas a croquetes e rissóis, mousses ou pudins, bolos ou refrigerantes, asas de frango ou fatias de carne assada. Para o fim (e nisso os tempos não mudaram nada, não é?) sobravam sempre as famosíssimas sandes triangulares de queijo e fiambre e um outro pão de leite, prontamente refundido aqui ou ali, que a tarde era sempre longa e nunca se sabia o grau da fome temporã.

A grande novidade dessa tarde era a presença de S. Louríssima, espécie absolutamente extinta à nascença nesse bando de foragidos juvenis, era uma recente aquisição desse ímane de seres e haveres do grupo. S. era extraordinariamente bonita e despertava suspiros aqui e ali, fazendo bater mais acelaradamente os corações dos descomprometidos muito embora os comprometidos de quando em vez se confessassem atentos às partidas e chegadas do aeroportos sentimentais. R. não perdeu tempo e foi avisando logo ali dos limites territoriais que estava disposto a impor aos amigos. As cumplicidades masculinas funcionaram desde logo, alguns houve que não foram sequer avisados por ser absolutamente desnecessário devido ao absurdo número de borbulhas que tentaram esconder com montanhas de bisnagas de Clearasil e assim se passou parte da pausa alimentar com trocas de olhares e consequentes assentimentos de cabeça.

Levantados os pratos, arrastada a mesa, entrava-se assim na recta final da festa com o necessário fecho de portadas e janelas para que o cenário se compusesse. Por vezes era necessário montar uma delicada rede de subterfúgios que levasse os adultos a refugiar-se na cozinha e noutras divisões da casa, nem que para isso alguém tivesse de se sacrificar e passar o resto da tarde a discutir receitas de croquetes e rissóis com um grupo de velhinhas e menos velhinhas que acediam de imediato a tão extraordinário e inusitado pedido. Gente houve que repetiu a graça durante anos e ainda hoje não saiba estrelar um ovo, o que prova que certos pecados há que não têm salvação.

Quando tudo se compôs, R. estava pronto para pedir a S. a honra da dança, sucesso que alcançou de imediato. O que não se esperava de todo, excepto R. evidentemente, é que as danças se sucedessem interminavelmente, levando ao desespero o restante grupo de aves rapaces que se entretinham noutras caçadas sem nunca perder o sentido de uma eventual oportunidade. Que nunca veio. De olhares cúmplices depressa se passou à fase do comentário brejeiro, sempre em surdina como convirá na ocasião. Mas nada. R. estava em absoluto, imparável.

O aproximar dos finais de festas deste tipo levavam sempre a rapaziada a conluiar-se para um encontro fora dali, onde se pudessem apreciar façanhas e conquistas, ou tão simplesmente carpir mágoas de amores nem sempre correspondidos. Depressa me chegaram os planos detalhados de um encontro nos esconsos de uma ruela próxima, a que nenhum de nós faltou, nem mesmo o aniversariante.

R. viu-se de súbito engolfado por um bando de curiosos sedentos de novidades e detalhes, muito mais de detalhes do que do resto. Nas memórias do grupo nunca se apagará o diálogo desse princípio de noite, digno de figurar em qualquer manual de "kiss and tell"...

-Então?
-Então o quê?, retorquiu R. inchado de orgulho e disposto a fazer render o suspense.
-Então, pois, conta lá...
-Eh pá. foi bom, muito bom!
-Mas muito bom, como?
-Pá, só te digo, foi muito bom...
-Caraças, mas bom só não chega, tens de contar!
-Eh pá, eu conto, mas foi muito bom!
-Mas fizeste alguma coisa?
-Eh pá, fiz!
-Mas fizeste o quê?
-Eh pá, apalpei-lhe as costas todas!

Vida dura a de um adepto...

O Glorioso lá ganhou, se bem que a uma equipa deveras fraca. Não há grandes motivos para comemorações... Bem vistas as coisas, até o Tiago Monteiro tem mais pontos que o Benfica...

Horticultura para principiantes

Porque é que toda a gente se refere a um pimento verde pela comum designação de "pimento", mas se o mesmo vegetal estiver maduro e consequentemente encarnado, passam a chamá-lo de "pimentão"?

17 setembro 2005

Encontrei-te na paragem, no descer e no subir

Na frente do comboio parado na linha, um amontoado de curiosos e mirones de ocasião fazia lembrar um enxame de abelhas pendurado de um ramo de árvore. Na longa fila de carros quase parados na estrada paralela à linha férrea, muitos pescoços se viravam para a esquerda no ensejo de conseguir perceber, quem sabe até entender o porquê de tamanha confusão. Obrigado a parar, baixei os vidros na tentativa de mobilizar para mim um pouco da brisa que se fazia sentir como forma de lidar com o stress da imobilidade. Calhou-me o lugar da primeira fila no espectáculo, com a cabeça do comboio ali mesmo pertinho. Uma ambulância de porta traseira aberta, quase encostada à linha, privava-me de encontrar o que os meus olhos procuravam entre os pés do cacho humano que se apertava entre a ambulância e a máquina. Um homem de bata branca claramente retinta de vermelho, tentava furar entre os presentes. Ao meu lado direito, a fila oposta de trânsito tinha também desistido de circular. Uma família apinhada dentro de uma Ford Transit, quase a conseguir sair em grupo pela janela do condutor, fazia previsões do número de mortos no acidente. O homem da bata branca e manchada passou entre os carros para voltar logo de seguida com um telefone na mão, Num grito histérico que quase me provocava uma síncope, a matriarca da família apontava para o homem como se o mundo fosse acabar naquele instante enquanto gritava "Coitadinhoooooo! Ai coitadinhoooo!". Censurei-a com o olhar mas de nada me valeu. "Tadinhooooo! Está cheio de sangue, tadinhoooo!". O homem da bata e de telefone na mão, olhou para o local da origem do grito e sorriu. Havia algo de estranho naquele sorriso. Depois, ziguezagueou entre os arbustos da berma e abriu a porta de uma carrinha de caixa, em cuja porta e em letras de vinil recortado se podia ler "Transporte de Carnes".

Esquadrão G.

Que eu saiba nunca matei ninguém, mas se um dia um grupo de pessoas me invadisse a casa a dar palpites sobre aquilo de que eu devia ou não gostar, não respondia por mim...

16 setembro 2005

Je vous parle d'un temps que les moins de 20 ans ne peuvent pas connaitre

Acabo de passar à porta do que resta do Dramático de Cascais. Lembrei-me do velho Estádio da Luz, da minha adolescência e cheguei à conclusão de que os putos de hoje vão escrever em blogs daqui por 30 anos como se sentiram tristes quando passaram perto dos restos do Pavilhão Atlântico...

15 setembro 2005

O Homem que escreveu o cão

..."Fui convidado (e aceitei) escrever um texto sobre a minha relação com os canídeos para o livro da campanha SOMOS PELOS CÃES, da Pedigree Pal, que vai reunir textos das mais variadas figuras sobre o tema. O dinheiro das vendas reverte para a Sociedade Protectora dos Animais, por isso comprem - até mesmo os que não vão à bola comigo"...

Já sou de há longa data, cliente dos produtos Pedigree, mas mesmo que o não fosse, pela escolha do compincha Nuno Markl para esta participação, passava a ser... Eu gosto muito de cães, mas perco de goleada para o Nuno.

O Coelhinho Gestor

"Era uma vez", e todas as histórias que se prezam, começam por era uma vez, a não ser que se trate de um arranque de Windows 98 em que as histórias começam por "era duas, três ou mais vezes", uma floresta. Uma floresta aprazível que não envergonharia um catálogo de venda de florestas se os houvesse. Ervas verdes, flores silvestres, árvores frondosas, abelhas zumbindo de corola em corola, esquilos aos saltos como adeptos do Benfica (trata-se, não esquecer, de uma história bastante antiga!) enfim, um autêntico paraíso.

Nessa floresta, a nossa floresta para efeitos desta história, viviam inúmeros animais. Veados, pássaros de toda a espécie, javalis, toupeiras e todos aqueles de que agora não me lembro e que sendo bastos os que ficam por nomear, enfadariam por decerto o estimado leitor.

Só muito de quando em vez esta harmonia era quebrada, quiçá por algum caçador que de arma em riste entrasse no perímetro florestal, ou por alguma família que resolvesse armar um picnic numa das muitas agradáveis clareiras. Mas era uma floresta muito calma. Qualquer das excepções de que falei atrás, aconteciam apenas por regra à Quinta-Feira ou ao fim de semana e os restantes dias eram absolutamente pacíficos.

Uma simpática família de coelhos, figura central desta história como mais adiante se verá, vivia a sua feliz existência no tronco oco de um carvalho, sendo que compete ao narrador nesta fase da história, certificar-se inequivocamente de que todas as teclas estão funcionais, principalmente o "v", sob o qual tinham escavado as suas luras, que no total era um autêntico T4, com sala, cozinha, casa de banho, dispensa, cenouródromo (que é assim uma espécie de Home Cinema para coelhos) e quartos em profusão.

O problema habitacional não se punha, bastava Mamã Coelha fazer cara feia e bater as patas traseiras, para não falar em greves de sexo (e os coelhos são criaturas bastante peculiares nesse capítulo) para que Papá Coelho tivesse de largar as folhas do "Floresta Times" ou interromper um episódio do "Notícias da Caça" (Papá Coelho apreciava bastante o género de filmes de terror...) e ir cavar mais uma divisão. Parece simples, é simples e garantia-lhe o sossego (e o sexo!) por mais quinze dias.

Pois foi precisamente numa dessas pausas entre pressões psicológicas que Quincas foi concebido. Não estranharemos o nome, afinal Quincas é nome de coelho célebre, segundo Papá Coelho nem terá sido dos mais difíceis de escolher com a excepção talvez do primogénito, nascido por alturas do primeiro filho do Duque de Bragança, ao qual Mamã Coelha resolveu clamar de sua graça Joel Manuel Gabriel Rafael Ezequiel Pimentel Destroce Destroce Que Já Bateu, mas isto são outros contos que nasceu perfeito de orelhas e com óptimos dentes que é o que interessa ao comum dos florestais habitantes e que hoje, já crescido e casado é consultor de Tecnologias de Informação em Nova York por causa de uma infelicidade com um cesto de almoço de uma família de emigrantes nos Estados Unidos.

Ainda hoje Papá Coelho se vangloria "Dou quinze enquanto Mamã Coelho diz o nome do ganapo", mas isto claro, em surdina e entre amigos machos, que Mamã Coelho lhe não permitiria tais liberdades assim às escâncaras. E estávamos nisto, a vida corria doce, Mamã Coelho grávida mas coelha trabalhadora, vigilante num Centro Comercial, com horário fixo graças a Deus e ao sindicato, casa trabalho, trabalho casa, uma rápida surtida às compras, uma ida ao cabeleireiro de quando em vez para compor as orelhas, Papá Coelho, encarregado da construção civil, ocupado com a edificação de um Centro de Dia para morcegos que coitados toda a gente sabe que não têm onde cair mortos quando o sol rompe a copa das árvores da floresta, apenas às Quartas-Feiras interrompia o rame rame para uma partida de cartas com os amigos, paradas baixas, 3 cenouras por jogo, é apenas um jogo entre amigos.

Bem, mas dizia eu a vida corria doce e sem sobressaltos, agora há que fazer avançar o tempo, nestas histórias nem é difícil adiantar ou atrasar o relógio temporal, já se gastou um ror de linhas só para dizer o que toda a gente sabe, era uma família de coelhos e tal. Nestas histórias como nos filmes, basta meter uma transição iPhoto tipo Droplet, um pequeno clip com sininhos e pimbas um tipo atira com dez anos para a frente, número exageradíssimo para coelhos, convenhamos que cinco bastavam, vamos lá, imaginem que o texto treme e se desfoca, ouvem-se os inefáveis sininhos e avançamos uma carrada de anos.

O cenário não mudou muito. Papá Coelho no sofá, desfolhando o jornal enquanto a TV debita em volume médio a narração de um jogo de futebol, os locutores dizendo que Pinilla ainda se esforça bem aos cinquenta anos apesar de só marcar de dez em dez, Papá Coelho está a cinco anos da reforma, merecida segundo o próprio, queira Deus e a Comissão de Inquérito dos Assuntos Florestais se não intrometa por causa de uns fumos de corrupção que ultimamente têm grassado na empresa, que onde há fumo há fogo e a coisa pode tornar-se dramática se não nos tivermos esquecido de que estamos numa floresta.

Papá Coelho baixou o jornal por uns instantes e está nesta altura a observar Mamã Coelha debruçada sobre a máquina de lavar louça, pompom proeminente, capaz de entusiasmar o velhote que ainda se sente ali para as curvas, as da vida e estas. Deixa escapar um valente assobio galante (imagine-o leitor que ao narrador ninguém paga para que faça milagres linguísticos), Mamã Coelha soergue-se, censura-o com o olhar e deixa escapar "Vê lá se te cai um dentinho!" Isso é que não, isso é que não, para um coelho é pior que uma disfunção eréctil, bem não exageremos, mas que a escolha não é fácil, lá isso não é.

"Olha que o miúdo está a ver!" O miúdo é, adivinharam, Quincas. Cresceu, está um coelho juvenil saudável, apenas o trivial sarampo e duas crises de mixomatose, tomara muitos, ah isso tomara!. "E temos de falar por causa dele, vamos ter um problema, agora que se lhe acabou o coelhário e falta um ano para ir para a Escola, não sei bem o que vamos fazer..." Ora, cria-se como os outros, fica em casa durante o dia, espaço não falta, não ficará enfezado porque pode correr por aí à vontade!".

Papá Coelho não entendia a preocupação e mais apreensivo ficou quando lobrigou uma lágrima nos bigodes de Mamã Coelha."O que é que se passa, mulher?" Que sim mais que também (era um velho anseio do narrador introduzir no texto uma expressão portuguesa tão parva quanto esta, foi agora, não ficou mal de todo), e tu homem para que lês tanto jornal, não sabes o que por aí anda nesses bosques, todos os dias se ouve falar de desgraças, raptos, violações, tu vê lá que ainda há um mês um Porco Espinho foi violado à luz do dia, era um bando, um gang. "Um gang?" Sim, um gang de cágados. Coitadinho, borrou-se de medo. "Queres dizer que ficou sem o assento ou sem o acento?"

Francamente, só pensas nisso, ainda só apanharam dois, um carro patrulha com duas lesmas ao volante deu com eles mas ainda não conseguiram deitar a mão a todos, talvez daqui por um mês, mais coisa menos coisa. Mamã Coelha. emocionada, limpou mais três lágrimas que faziam dos seus bigodes uma espécie de candeeiro Made in China à medida que lhe desciam pelas capilosidades e foi com o focinho no avental que a custo escondeu um soluço indisfarçável.

"Então Mamã, que é isso?" Mas há mais, Papá, há mais! Diz-se que anda por aqui um lobo! Troquemos neste mesmo instante a turma dos sininhos do "flashback", coloquemos em cena uns trombones de varas para um ambiente de perfeito pânico (não cabem todos, o narrador lamenta-se, não há fosso de orquestra nesta história, que foi desenhada pelo mesmo arquitecto da Casa da Música...) e temos o cenário completo, Papá Coelho com todos os pêlos eriçados, dentes rilhando, e ar angustiado. "Oh pai, parece que viste o déficit, olha para as orelhas dele que até tremem!".

Mal podia Quincas imaginar na sua juventude e falta de experiência das coisas da vida, a paterna preocupação. Um lobo era a derradeira preocupação dos animais felizes, e se se diz derradeira é porque o era mesmo, muitos dos infelizes que foram apanhados não conseguiram fazer mais nada, alguns ainda nem tinham conseguido gritar "LOB..." e eram, num ápice deglutidos, sem dó nem ketchup.

"Temos de fazer alguma coisa!" disse Papá Coelho. Ora, sabemos de antemão que todas as pessoas que não sabem o que fazer nas suas vidas perante a inevitabilidade da desgraça ou ameaça de holocausto, dizem a mesma coisa. E para parecerem decididas e convincentes, colocam por sua vez as mãos na cintura e repetem com ar sereno, martelando as reticências finais enquanto pensam naquilo que efectivamente vão tentar fazer. "Temos de fazer alguma coisa...".

Papá Coelho alinhavou mentalmente o óbvio (coisa que Ronald Koeman, outro simpático láparo de outras fábulas das que metem águias e dragões não conseguiu ainda fazer e já lá vão três jornadas...). "Vamos reforçar a defesa! Trago lá da obra umas tábuas e reforça-se a porta. Metem-se trincos nas janelas da cave e esta lura ficará forte e resistente como nunca se viu". "Então, mas o moço vai ficar trancado em casa durante um ano inteiro?", perguntou Mamã Coelho. "Não há outro remédio! Não podemos arriscar, isto com lobos à solta na floresta, não se pode facilitar!".

E se bem o disse melhor o fez, com uns taipais das obras do Centro de Dia para morcegos se fez um portão praticamente intransponível. As janelas ficaram fortes, os trincos cumpriam os respectivos papéis, tendo até sido testadas pelos amigos e conhecidos. A casa parecia defendida.

"Não abres a porta a ninguém! Só eu e a tua mãe temos a chave, por isso muito cuidado!". Pai é pai, é dos livros que diga estas e outras coisas similares a que é suposto os filhos não ligarem nenhuma, sempre assim foi, sempre assim será. Amen. Mas Quincas era bom filho e durante três meses não abriu a porta a ninguém, fossem demonstradores de aspiradores ou delegados de vendas da Planeta Agostini. Mas não era fácil passarem-se assim quase nove horas por cada dia. Depressa Quincas passou a pente fino a biblioteca de casa, revistas, livros, ordens de serviço do trabalho do pai, pagelas das Testemunhas de Jeová e até as Páginas Verdes, a lista telefónica oficial da floresta. Um tédio! Um tédio que a juntar à falta de luz natural fez com que Quincas entrasse em natural depressão, que isto dos nervos é como a reciclagem, toca a todos...

"O rapaz anda amarelo, Papá... Temos de o levar ao médico, receio bem que a prisão a que o votámos esteja a ser prejudicial". E era um facto, Quincas via o seu aspecto degradar-se mês após mês. Más línguas depressa começaram a burilar a trama, que Quincas passava tempo demais deitado, o que é bom, mas que as naturais pulsões de láparo o levavam a práticas menos recomendáveis, quem sabe se um severo caso de abuso de alguns canais televisivos e não estamos a falar do canal Playboy ou similar, mas sim da RTP1 e da TVI cujo abuso como é milenarmente sabido, dá cabo dos nervos a qualquer um.

E Quincas foi levado ao médico pelos pais, uma clínica privada propriedade de um mocho, que fora já professor universitário, mas sabeis como são atractivas as carreiras privadas face ao serviço público e se somarem a isso ao facto do mocho ter uma amante riquíssima, uma gralha que passou metade da sua vida a surripiar coisas que brilham, estarão dois terços da história explicados. Feitas análises e exames, uns mais necessários que outros, é certo, que isto dos caminhos da medicina são como os da virtude, isto é difíceis e pedregosos, depressa se chegará a conclusões, mais depressa do que o narrador conseguiria reduzir todo este parágrafo à sua mais simples expressão, isto é "O resultado dos exames chegou em oito dias"...

"O rapaz não pode ficar fechado em casa" disse imperialmente a toupeira médica, enquanto equilibrava com as pequenas unhas os óculos na ponta do nariz (então não era um mocho? Não não era, o mocho era dono da clínica, não significa que trabalhasse...). "A Internet e a TV por cabo estão a arruinar-lhe a saúde. Precisa de apanhar ar e sol, precisa de sair e roer coisas por aí, não se pode contrariar a natureza das coisas." Dito isto e passado o recibo (verde), Papá Coelho resmungando que nem um café fora servido enquanto esperavam pelos TAC's, pagou e não bufou, pelo menos ali que dava um terrível mau aspecto.

E lá voltamos à inevitabilidade das coisas, o "Temos de fazer alguma coisa..." dito com as mãos nas ancas, as patas, corrige o narrador. "Não podemos deixá-lo sair, mas ele precisa, meu querido filho, é para isto que uma mãe está guardada, é só agruras, temos de fazer alguma coisa..."

Papá Coelho aconselhou-se com todo o bicho careta e cada sugestão era mais parva que a anterior. Desde construir um parque fechado na copa do carvalho, a mandá-lo estudar para pastagens mais verdes e sem presenças indesejadas, de tudo Papá Coelho ouviu. O pároco da floresta promoveu algumas sessões de reflexão comunitária de que muito pouco adiantaram, bastante por culpa das beatas galinhas que cacarejavam o tempo todo e que impediam até os animais de ouvir os seus próprios pensamentos. Estará decerto o leitor a perguntar-se de que espécie animal era este pároco, que coisa tão estranha, uma fábula com animais sacerdotes, é nisto que dá a liberdade de narração. Pois também o narrador está um bocado aflito com este personagem. aqui metido um pouco a martelo, só se consegue lembrar da simpática figura de um pinguim, cuja morfologia e penugem assentam como uma luva à eminência da função. Mais depressa como sabeis é apanhado um mentiroso que um mocho, mas ficará o pinguim com seu cabeção branco. Apesar de ser absolutamente improvável que um pinguim figurasse entre a florestal população. Socorre-se o narrador de um imaginário édito do bispo, que mandou vir um pinguim da Diocese do Alasca, que já não fica o narrador tão à rasca e resolve-se na mesma penada a crise de vocações sacerdotais.

Sendo uma criatura de Deus, com religiosas funções, era o pinguim bastas vezes dado à contemplação e às sardinhas, sendo que as comprava no LIDL mais proximo, embaladas já em tomatada e a pouco menos de um Euro cada latinha, que é muito mais prático do que arriscar uma queda nas rochas ou um mergulho em águas gélidas, coisa para a qual é preciso ter tomates... E é próprio dos operários divinos lembrarem-se de coisas que nem ao Diabo lembraria como acompanhar sardinhas em tomate com triângulos de queijo da vaquinha, coisa universal que rapidamente foi confirmada.

"Irmão Coelho, só vejo uma saída para este delicado problema. Tens de ir falar com o Coelhinho Gestor".

Nunca Papá Coelho tinha pensado em tal coisa e não fosse ter as patas ocupadas com a pasta do serviço, teria esbofeteado as próprias orelhas. "Mas claro! Que coisa! É isso mesmo!". A figura do Coelhinho Gestor era absolutamente omnipresente na floresta. Eleito por voto secreto em eleições livres e democráticas com baixíssima taxa de abstenção, cabia a tão ilustre figura a manutenção da ordem legislativa em todo o bosque. O Coelhinho Gestor decretava e os outros cumpriam, fossem questões de comprimento máximo de chifres de animais, à normalização da sinalização de caminhos venatórios, era o centro nevrálgico da lei e da ordem. Poucas coisas aparentemente insolúveis se deixavam de resolver depois da sua intervenção, fossem desavenças de esquilos com bolotas caídas de ninhos, ou a elaboração de mapas de despesas de condomínio de formigueiros, coisa que compreenderão não se resolvem sem complexos mapas de Excel ou dois berros bem dados nas concorridas assembleias gerais.

O problema de Papá Coelho passava por conseguir uma audiência na apertada agenda do Coelhinho Gestor, coisa que mereceria o maior empenho e só foi alcançado o desiderato (isto no Scrabble era uma mina, só vos digo...), depois de uma valente cunha de um primo que conhecia um tipo que por sua vez conhecia uma coelha russa que actuava no varão (dizem as más línguas que não era só num. mas toda a gente sabe que são as más línguas que arruinam o negócio do sexo...) de um Strip Club do lado de lá das colinas, já quase no final do souto de castanheiros que por sua vez dava acesso à aldeia mais próxima. Data marcada, um molho de cenouras para pagar o favor da coelha russa despachado por estafeta, Papá Coelho chegou ao escritório do Coelhinho Gestor à hora aprazada.

"Estes tipos tratam-se bem..." resmungou Papá Coelho ao sentar-se nos confortáveis sofás da sala de espera. Aqui e ali ia deitando o olho às pernas da secretária do Coelhinho Gestor, uma espectacular coelha ruiva que parecia atarefada por detrás de um balcão elegante. Parecia apenas, todos sabemos que 90% das pessoas atarefadas por detrás de um monitor não fazem mais do que jogar Solitaire... "Deve andar a roê-la, oh a mim não me enganas, já cá ando há muito tempo...". Estava Papá Coelho nestas apreciações estéticas, quando a coelha, rasgando um sorriso de orelha a orelha (um sorriso imenso, portanto, para os mais distraídos...) lhe anunciou que poderia entrar.

"Muito obrigado, muito obrigado" agradeceu em tom subserviente enquanto lhe observava a esguia figura. O escritório do Coelhinho Gestor não me desmerecia de todo o preço dos pareceres por ele emitidos, que era voz corrente para os coelhos custar o pompom e oito tostões. Fofas alcatifas, madeiras ricas, cadeirais imponentes, que deixavam o consulente semi intimidado. No topo da ampla secretária, a figura do Coelhinho Gestor, tez escura, pelo lustroso, adornado por vestuário condizente com o degrau ocupado na escala social.

"Ora, diga lá então Sr.Coelho, que tempo são cenouras" gracejou o Coelhinho Gestor mirando Papá Coelho de soslaio, enquanto este nervosamente enrolava a aba do chapéu nas nervosas patas. E Papá Coelho contou a sua história, ou melhor o dilema de Quincas e do lobo da floresta, pormenores que o leitor já conhece e trabalhasse o narrador à linha teria de ler outra vez, espero que tomem em consideração esta nobre lembrança quando chegarem ao final de tão trágica história...

"Parece-me deveras simples de resolver" exteriorizou o Coelhinho Gestor enquanto premia algumas teclas no seu portátil. Um ruído na impressora, quase um bichanar (era uma laser, nada de barulhos parvos de uma ink jet) e uma folha tintada de texto assomou na fresta da máquina. (Fosse a impressora do narrador e tinha de a ir apanhar ao meio da sala, desvantagens de não se ser um narrador gestor...). Envelopada a folha, "passe muito bem, e já que falamos de passar, não se esqueça do chequezinho do parecer, quando sair a miúda trata dos recibos e das facturas".

Guardados os documentos, posto a salvo o envelope e cumpridas as formalidades, Papá Coelho rumou a casa onde a família ansiosa aguardava pouco serenamente. "E então? E então? Que disse o Coelhinho Gestor?". Papá Coelho recuperou o envelope, desdobrou a folha e começou lendo em voz alta:

"Posto perante os factos, determino que a Quincas seja dada total liberdade de passeio pelos bosques e clareiras, não devendo o mesmo ser alvo de qualquer reclusão domiciliária e não temendo nenhuma ameaça física ou psicológica, pode (e deve) gozar de total liberdade de movimentos na floresta. Sendo que, no caso do aparecimento do lobo, deve de imediato Quincas transformar-se em árvore e com esse simples gesto, passar despercebido e camuflado na paisagem".

"Pronto, parece simples de cumprir, a partir de agora Quincas, já podes passear e brincar por aí e em caso de aflição, basta que te transformes em árvore".

"Olha lá, Papá Coelho, mas que grande disparate! Foste tu pagar uma fortuna para que o Coelhinho Gestor decidir "isso"? Papá Coelho sentou-se, caindo na realidade da dificuldade técnica do parecer. "Pois, de facto não sei como é que o miúdo se transforma em árvore... Mas posso sempre lá ir perguntar, com certeza que não me cobrará de novo..."

E se bem o disse melhor o fez, rumou de novo ao Coelhinho Gestor e invocando uma dificuldade de entendimento encontrou-se de novo face a face com tão douta figura.

"É que há uma coisa, senhor Coelhinho Gestor, que não entendemos, minha mulher e eu, eu e minha mulher, afinal a ordem dos factores aqui é arbitrária, é que não sabemos mesmo como é que Quincas se transforma em árvore. É que pagámos uma fortuna pelo parecer e isto parece complicado de cumprir..."

O Coelhinho Gestor recostou-se no cadeirão e sorriu. Consultou no monitor a decisão, apenas para se inteirar dos factos, pois já tinha aviado 12 pareceres depois daquele e um homem não se pode lembrar de tudo, isto se descontarmos o Nuno Rogeiro que não precisa de portátil.

"Oh meu caro amigo. Eu sou o Coelhinho Gestor. Tomo macro decisões. Se o mandei transformar em árvore o puto tranforma-se em árvore e mais nada. Se você não sabe como fazer, isso já é problema que não me diz respeito, que nós os Gestores só tratamos das grandes linhas!"

14 setembro 2005

Corrijam-me se estiver enganado

"Eis aqui um programa de cinco anos para resolver o problema da falta de autoconfiança do brasileiro na sua capacidade gramatical e ortográfica. Em vez de melhorar o ensino, vamos facilitar as coisas, afinal, o português é difícil demais mesmo. Para não assustar os poucos que sabem escrever, nem deixar mais confusos os que ainda tentam acertar, faremos tudo de forma gradual."

O resto, muito instrutivo, pode ser lido no Copy & Paste

Eu hei-de fumar uma pedra

Bernardino Barros é um "cromo". Um dos verdadeiros "cromos" portugueses que disfruta, embora ninguém saiba como nem porquê, da possibilidade de trabalhar numa rádio nacional de enorme audiência. Bernardino Barros é comentador de futebol na TSF e possui uma habilidade radiofónica para comentários da sua especialidade que eu classificaria "um pouco acima da capacidade oral de Eusébio", o que, convenhamos, é um verdadeiro desastre. O discurso é confuso, a capacidade de pensar e verbalizar em simultâneo é de bradar aos céus.Hoje perdi por completo a paciência com este personagem. Decorria o intervalo do Benfica x Lille quando o seu colega de serviço referiu que Aimé Jacquet, ex-seleccionador francês estava na bancada, comentando as incidências do jogo para o Canal Plus. B.B. não perdeu tempo para uma das suas maravilhosas tiradas:

"O mon ami Jacquet já me cumprimentou. Mas reparem como são diferentes as coisas no estrangeiro. Lá, as estações servem-se de ex-treinadores para os comentários das partidas, ao contrário do que por cá acontece". Faz-se uma pausa. Percebe-se claramente que B.B. se lembrou de que é um ex-treinador... "Bom, hummm por cá também acontece..." Faz-se outra pausa, possivelmente para que os ouvintes se pudessem rir da brilhante dedução.

São incontáveis os episódios deste calibre. O mais célebre que escutei foi já há algumas épocas, numa altura em que o Boavista tinha apresentado a Isostar (bebida isotónica) como patrocinador da equipa. B.B. resolveu abrilhantar o acto, gabando as camisolas axadrezadas, agora patrocinadas por uma bebida "esotérica".

Há apenas duas semanas, a empresa Betandwin, foi apresentada como patrocinadora da Liga Portuguesa de Futebol. B.B. mencionou o facto, comunicando ao auditório que não eram visíveis em Coimbra as tarjas da "Bétadine" junto das balizas..
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12 setembro 2005

Correct me if I'm wrong...

Se a qualidade do ensino da língua inglesa no Ensino Básico for tão boa como a do português, dentro de quinze anos uma geração inteira de alunos falará em Portugal uma língua completamente nova que não será entendida nem por portugueses nem por ingleses...

A caneca

É a ler uma soberba crónica de Lobo Antunes (Lição de Estética in Visão desta semana) e a brandir uma mangueira para lavar um terraço (duvidará decerto leitor que seja possível fazer as duas coisas ao mesmo tempo e duvida muito bem porque de facto o é) que dou comigo a procurar memórias de brinquedos de infância. Creio que um só blog não chegaria para lhes dedicar espaço, não que tenham sido muitos (infelizmente não foram), mas sobretudo pela intensidade de prazeres que deles consegui extrair. As mais remotas recordações provêm de uma caneca de plástico. Não que uma caneca de plástico (vermelha por mera casualidade do destino que as improbabilidades estão assim - fazer gesto de unir os dedinhos de qualquer mão - de casualidades felizes) seja um brinquedo extraordinário, mas porque deve ter sido este o primeiro objecto que me deu efectivamente um verdadeiro sentido de posse. Era a minha caneca! As feiras anuais de província eram uma excelente janela de oportunidades para prendas. Num meio rural, onde as deslocações eram complicadas ou quando aconteciam tinham de ser cuidadosamente planeadas, não era normal ganharem-se presentes fora de época. Uma ida a um mercado, principalmente se a venda fora proveitosa, implicava trazer aos miúdos da casa um qualquer mimo. No caso foram três canecas de plástico, uma vermelha, uma verde e uma outra de que não restou memória, que saberá Deus porquê, resistiram ao triturar do tempo durante mais de trinta e cinco anos. Aquela era "a minha caneca", plástico grosso (uma novidade na época) e uma estampa que não duraria mais de meia dúzia de lavagens de um Santo António de auréola amarela que ainda hoje conseguiria reconstituir. Era a minha caneca, da qual eu era dono e senhor, concedendo apenas casuais autorizações para que dela se servissem e o supremo gozo de perguntar às minhas irmãs "onde é que está a tua?".

A caneca acompanhou toda a minha infância, do pequeno almoço à bebida ocasional de água fresca do cântaro da fonte, tornou-se companheira inseparável principalmente depois de ter descoberto que podia servir de amplificador a cantorias no vão da escada do sótão... (Experimente o leitor encontrar-se sozinho -apenas para evitar o embaraço da explicação a terceiros- e cante para dentro de uma caneca de plástico, e então, apenas então, ria-se de mim se motivo lhe sobrar...). Nunca a trouxe para Lisboa, nunca tive coragem, é ali o lugar dela, no armário da louça da intocada cozinha da casa do meu avô. Reencontro-me com ela de quando em vez, e com ela celebro (mesmo que sem sede!), um regresso à raiz, pelo sabor, pelo cheiro ou pela textura. Uma caneca com uma extraordinária vida de servidão, que honrosamente ainda serviu uma geração de tios e primos antes de ser efectivamente reformada e retirada do serviço activo. (Alguns dos que depois de mim dela beberam - e foram muitos mas não sei se cantaram - e que poderão vir a ler este blog, saberão, muito mais do que os restantes leitores, o que quero dizer com textura e cheiro).

Como se fosse hoje, consigo visualizar a minha tia a desfazer o cordel que unia as três canecas (as outras duas são das minhas irmãs) e dar-me um beijo com o seu inconfundível buço que me fazia cócegas. Maria do Olheiro ou tão simplesmente "Ti'Olheiro" que merecerá algumas linhas por via de histórias extraordinárias que não hão-de morrer comigo e que constituem autênticas fotografias do meu crescimento e descoberta do mundo. Haja tempo e arte para as contar. As mãos desta personagem ainda me propiciaram mais dois objectos de afecto: Um famosíssimo pífaro de folha de Flandres e pistão (do qual toda a gente da família se recorda e não propriamente pelas melhores razões) e um brinquedo de madeira cujo princípio básico de funcionamento nada mudou nos últimos séculos, o da roda de madeira com bicos que ao ser empurrada por um cabo fazia vibrar uma língua de lata. São sem dúvida estes os primeiros objectos de afecto, sendo que de facto não há amor como o primeiro.

Bonus Track (Apenas para quem leu a crónica de Lobo Antunes): Guardei religiosamente o meu espelhinho de bolso do Benfica, que reflectiu milhares de vezes a minha imagem em cuidadosos penteados "risco ao lado", de pente de osso legítimo, e que me ajudou em centenas de horas de brincadeiras solitárias a fazer sinais de luz às oliveiras e aos eucaliptos do lado de lá da ribeira. Muitos "terroristas" (estávamos em período de Guerra Colonial, não se esqueçam) eram "mortos" com aqueles lampejos mortíferos. Não havendo pistolas ou espingardas mesmo que de folha (e se chorei por muitas à porta de barracas de feira!), havia sempre uma enorme profusão de granadas, nascidas de montes de pedras que cresciam como diria o meu avô, em qualquer lado (rai's partisse'). Apesar de ter um amor imenso por um objecto que hoje é puro kitsch, fiquei com vontade de o enviar a Lobo Antunes pelo Natal. Só quem suspirou por um anel de lata, mesmo que do Benfica, poderá dar valor a um espelho de bolso com uma mal garatujada figura de Eusébio da Silva Ferreira.

Sentimental, eu? Pois sim. Mas agora pergunto-lhe: Quais são as memórias mais antigas que guarda de objectos de afecto? A caixa de comentários é sua, partilhe connosco! (Se eventualmente e por mera coincidência o leitor alguma vez tiver cantado para dentro de uma caneca de plástico, pode comentar anonimamente...)

11 setembro 2005

Esplendor na relva

Inês, amiga de Beatriz, quer ser futebolista. A diferença deste sonho para qualquer devaneio infantil é que Inês fala, move-se e pensa como uma profissional de futebol, para desespero do pai que preferiria vê-la em jogos e passatempos mais normalizados para o sexo da filha de sete anos. Tenta conter aquele furacão futebolístico nem que seja nas conversas do friso de homens que está sentado a absorver (ou a sorver, sei lá!) o Sporting x Benfica. Parece conseguir, mas encolhe os ombros a cada comentário, como que impotente a cada falhanço. O que é verdadeiramente interessante é que Inês cilindra os presentes sem sequer perder muito tempo. Dou-lhe corda, puxo por ela e deixo-a, nas breves ausências do pai, tecer considerações estratégicas que me deixam completamente de boca aberta. Inês, o que é que dizes do Carlitos ser titular? "Tem a mania que é rápido, mas joga melhor encostado à linha, aliás não sei porque é que o Ronald (trata o treinador do Benfica pelo primeiro nome, pormenor que por si só já me tinha chamado a atenção) insiste naquilo". A um corte de João Pereira, interrogo-a com os olhos. "Boa! A menina esteve bem!". A menina? Mas a menina não é o que chamam ao Nuno Gomes? "É, tens razão, mas o João Pereira usa tótós e é por isso...". Estou espantado. "Vai à dobra, pá! Estás a dormir mas é!" Anderson deve ter ficado com as orelhas a arder... Ainda mais me rio, sem achar graça alguma, quando, numa falha clamorosa de Luisão, Liedson cabeceia para o segundo golo leonino. "Ninguém explica a este gajo, qual é o timing de salto correcto?". O pai, de cenho franzido intervém: "Que linguagem é essa?". "Desculpa! O tempo de salto". Não sei o que o futuro te reserva, Inês, mas gostava de te ver em dobras, quem sabe como Buarque a costurar a linha em folha seca.

Crueldades

B. fez sete anos. Anunciou há dias aos pais e familiares que deixava naquele preciso momento de querer ser tratada por Bibi para tomar apenas o nome de Beatriz. Que já não suporta ouvir o coro de gozo de colegas de escola que quando a querem irritar cantam em coro " Chia, chia, Bibi da Casa Pia"...

Venham de lá esses ossos

Nunca terei sido muito dado a ter fé em coisas que não compreendo. Com muito poucas excepções e uma delas chamava-se Albano Taborda, uma mítica figura da galeria lusitana de "cromos" difíceis. Albano Taborda, para o povo Tarzan, Tarzan Taborda, foi uma figura do meio desportivo português da década de 60. Arrastava multidões a combates de luta livre, uma espécie de wrestling (mas com mais sangue) que se praticou nas portuguesas cidades ao longo desses anos. Um pouco desbocado, arrogante até, fez render a efémera glória mediática conferida pela sua actividade enquanto lutador, mas também pela sua carreira de duplo em grandes estúdios americanos e pelo facto de ter feito uma ou duas temporadas enquanto bailarino do Lido. Conheci-o já tinha uma respeitável idade, não deixando no entanto de ter uma compleição física invejável apesar do peso dos anos. Tendo acompanhado uma colega de trabalho ao seu ginásio de reabilitação física, não pude deixar de sorrir perante o ar sorumbático do local e a vasta galeria de fotos e recortes de jornais em exposição nas paredes. Enquanto estive sozinho na acanhada sala de um andar da Elias Garcia não pude deixar de pensar em como certas coisas quando bem encenadas podem parecer realidades diferentes. Tudo o que conhecia de Albano Taborda tinha-me sido servido pelos jornais e televisões e não era nada prometedor. Mas ali estava eu, a contragosto, a pedido da tal colega que sofrera uma lesão vertebral e a Tarzan Taborda recorria com frequência e inusitada fé. No final de uma dessas visitas fui-lhe apresentado. Uma autêntica metralhadora verbal, depressa me derrubou por KO técnico com o enumerar de todas as suas façanhas, fossem elas verdadeiras ou inventadas, com datas e nomes de adversários tão fantasiosos como estranhos. "Kim Sangrento" ou "Ronny o Quebra Ossos" devem ter feito as delícias de pintores de cartazes ao longo dos anos...

Estávamos já nas despedidas, comigo a fazer sinais à minha colega (onde andas, Teresa?) para uma retirada estratégica quando Tarzan Taborda me perguntou se alguma vez eu tinha tentado resolver um problema de postura que já na altura me era característico. Não achei nada simpática aquela abordagem. Era quase como dizer-me, chapadinho na cara "Oh marreco e não fazes nada por essas costas?". Que não, que nunca tinha feito nada, muito menos ginástica. "Pois deita-te aí nessa marquesa que eu já falo contigo". Não tive sequer hipótese de balbuciar uma negativa. Em poucos segundos estava em posição horizontal com aquele "armário" a olhar para mim e a dizer-me que bastava olhar-me para o topo do externo para perceber que ali havia muito trabalho a fazer. Fui, durante alguns minutos submetido por apalpação à mais curiosa sessão de observação de que tenho memória. Cada osso foi minuciosamente passado em revista, vértebra por vértebra, apenas interrompido por alguns avisos de possíveis situações dolorosas. Cada articulação foi accionada pelas suas mãos, braços e pernas percorridas com detalhe. O final foi absolutamente surpreendente. Uma lista de mazelas, daquelas que todos sabemos quando e onde temos, foi-me apresentada em poucos minutos. E eram bastantes. Concordei mentalmente com cada uma delas. O joelho que "range" desde os tempos do atletismo, o cotovelo com que tentei (em vão) destruir acidentalmente uma porta de um armário mal fechado, o polegar em tempos forçado numa arriscada manobra de salvação do dedo de ficar decepado, pancadas de vária ordem, vestígios de medalhas de uma juventude pouco desportiva mas bastante, a seu jeito, radical. No fim do "checkup" ósseo, uma previsão peculiar. "Dorme sempre com a tua clavícula esquerda tapada, essa ainda te vai dar umas dores fininhas daqui por uns tempos". Neguei a ausência de qualquer coisa que se parecesse com "dores fininhas" na clavícula esquerda, mas lembrei-me de Tarzan Taborda da primeira vez que a meio da noite acordei com uma sensação de incómodo e em que dias mais tarde me foi diagnosticado um problema a requerer uma intervenção cirúrgica. "Mas o pior nem é isso". Franzi o sobrolho como seria de esperar. "Tens uma calcificação exagerada numa das vértebras e isso vai doer-te agora quando fores andar, mas há-de passar, foi apenas das minhas mãos. Isso foi uma punção lombar muito mal feita!". Voltei a negar. Tinha a absoluta certeza de jamais me ter sido feita uma punção lombar, nome que aliás me afastaria da simples hipótese de a deixar fazer... "Se quiseres marcar umas sessões no ginásio, toma lá o meu cartão e telefona-me". Nunca o cheguei a fazer. Apenas, e por mera reserva mental decidi telefonar à minha mãe para esclarecer a questão da punção. "Olha lá Maria Fernanda, aqui o teu filho alguma vez fez uma punção lombar?". "Sim tinhas três meses, foi feita ainda na Maternidade".

Tarzan Taborda morreu ontem vitimado por um ataque cardíaco. Há pouco mais de dois anos, em conversa com um dos mais fantásticos neurocirurgiões que tive a felicidade de conhecer, o Dr. Martins Campos (lembram-se de Filipe Gaidão?), e depois de umas perguntas triviais de informática, feitas com o paciente dentro de uma máquina de TAC, ele disse-me algo que eu já tinha ouvido antes "Basta olhar para o teu externo para perceber que aí há coisa, mas já não há nada a fazer, essa postura há-de desaparecer um dia, provavelmente quando tu mesmo desapareceres..."

09 setembro 2005

Coisas!

Em 1981 sucederam três coisas (pelo menos!): a) O Príncipe Carlos casou b) O Liverpool foi campeão europeu c) O Papa morreu. Agora notem bem que em 2005 aconteceu: a) O Príncipe Carlos casou-se de novo b) O Liverpool foi campeão europeu novamente c) O Papa morreu. Agora não há desculpas e estão todos informados! Se o Princípe Carlos estiver para casar outra vez e o Liverpool estiver na final da Champions League, AVISEM O PAPA!

Tráfico

Tinha preparado um longo texto sobre tráfico de influências e a minha tenaz oposição a tão vil actividade. Mas passou por aqui um senhor que me ofereceu um emprego e apaguei a entrada.

Adrenalina

À atenção dos condutores de veículos FIAT com sensor traseiro de estacionamento. É possível, principalmente se você for ouvinte TSF, que a sua tensão arterial suba subitamente num dos próximos dias, levando-o mesmo a pensar que um camião vai entrar pela traseira do seu querido carrinho... Passemos à explicação: No espaço publicitário antes dos noticiários, passa um anúncio de uma companhia de seguros que tem a dada altura o som de um monitor de batimento cardíaco que tem exactamente o mesmo timbre do apito avisador do sensor de que há pouco falei. Por isso, olhar pelo espelho e não ver nada nem ninguém, ao mesmo tempo que o apito alerta todos os seus sentidos para uma desgraça iminente, é sem dúvida uma situação peculiar e que recomendo vivamente! Não que isto me tenha acontecido, claro... Ufff!

08 setembro 2005

A "coisa"

Eu tinha doze anos, mais coisa menos coisa, quando um dia no primeiro ano de Liceu descobri que tinha cometido o supremo esquecimento de ter deixado em casa as famosas sapatilhas de ginástica. (Sim sapatilha branca com o belo elástico no peito do pé, nada de modernices Nike ou Rebook, que o mais que havia era uns Sanjo que custavam 450$00, preço que os colocava apenas ao alcance de alguns...). Não achei melhor alternativa do que ir visitar o Professor de Ginástica, dando-lhe uma desculpa do género "não me estou a sentir bem". Ensaiado o discurso, lá fui a caminho do ginásio. Estava tudo muito bem calculado, ainda faltavam duas horas para a aula, mas quis despachar o assunto logo ali. Quando cheguei à sala de professores de ginástica, havia à porta da mesma, uma mocinha que esperava também a sua vez de conferenciar com o professor. "Também vens pedir dispensa?" Lá disse que sim e fui informado de que também ela vinha ao mesmo, invocando "a coisa" como argumento. Fiquei na mesma, como imaginarão. Desconhecia por completo a existência da "coisa" que permitia obter dispensas. O professor veio ao pequeno átrio, a miúda bichanou-lhe qualquer coisa ao ouvido e ele prontamente assentiu à dispensa da aula. Já eu não tive a mesma sorte! O Professor desarmou-me com o facto de ainda faltarem duas horas para a aula e de eu poder eventualmente vir a melhorar, coisa para a qual não me tinha preparado... Fiquei absolutamente danado! Não era justo que alguém invocasse a "coisa" e obtivesse dispensa e eu, coitadinho, não a tivesse com a mesma facilidade! Lá tive de ir a casa, sacrificando dois bilhetes pré-comprados de Metro (dos cor de rosa se bem se recordam dessas antiguidades) e voltando com as benditas sapatilhas a tempo de participar na famigerada aula. Mas não me esqueci da humilhação e picado pela minha curiosidade recorri ao Elias. O Elias era um colega de turma, um daqueles casos de insucesso escolar com que todos nos cruzámos mais tarde ou mais cedo. Tinha já quase 16 anos e ao pé de nós era um adulto, fosse em tamanho, fosse em experiência das coisas da vida. Era uma espécie de "pai" da turma, chamado a intervir sempre que era necessário apaziguar alguma discussão (normalmente era com uns calduços deveras eficazes), ou proteger alguma incursão de gente de outras turmas. O Elias era imprescindível, principalmente nas jogatanas de pátio, e era certo sabido que seria o primeiro a ser escolhido para a formação das equipas e era meio caminho andado para a vitória no caso de termos a sorte de fazer parte da equipa dele. Não me recordo com detalhe de como abordei o Elias. Sei que estávamos numa mesa do pequeno bar da escola e que o Elias não ficou muito à vontade com a explicação. Expliquei-lhe o assunto com todos os pormenores. "Oh pá, elas têm uma "coisa" de vez em quando e não podem fazer ginástica, estás a morder?" (Quem tiver a minha idade, sabe que "morder", "domar a cena" ou simplesmente topar são sinónimos...). "Mas isso é só nas miúdas, nós não temos "a coisa" e foi por isso que não te deram dispensa". Não fiquei absolutamente nada convencido! Ora, se eu tinha em casa as minhas duas irmãs, como é que era possível que "a coisa" me tivesse passado despercebida? O que é certo é que passara. Mas as minhas suspeitas de que o Elias não estava completamente ciente do que me estava a tentar explicar acabaram por se confirmar. "Eu não sei explicar bem, Pedro, mas aquilo tem um nome. Não sei bem como se chama, mas acho que é a "amestração". A coisa agravava-se a cada minuto. De "a coisa", passávamos a ter um nome designativo e definitivamente eu estava "a milhas" dessa tal "amestração"...

Nunca perdi muito tempo a esclarecer os meus mistérios. Aniceto que se preze vai à luta assim que é provocado e aproveitando a hora de jantar (reunião sagrada da família Aniceto, a que jamais se poderia faltar sem um motivo de força maior) avancei desassombrado.

Posto em revista o dia como era hábito no jantar familiar, a pergunta saltou, dirigida à minha mãe:

"Olha, o que é a "amestração"?"

Lembro-me do ar surpreendido da minha mãe, a ponto de ter deixado cair o talher, o que por si só não prenunciava nada de bom. O meu pai, surdo como sempre foi nem deu por nada, ainda para mais eu nem sequer tinha falado alto a ponto de que me ouvisse. Não perdi muito mais tempo nestas apreciações. Uma dor excruciante na minha canela esquerda, proveniente de um valente pontapé debaixo da mesa, executado com maestria pela Amélia, a minha irmã mais velha, chamou-me à razão. Não sei como, (talvez à força de caneladas!) o assunto morreu ali. Devem ter-me desviado a atenção com outro assunto qualquer e volvidas vinte e quatro horas tive de voltar a recorrer ao Elias. Para meu espanto, o Elias disse-me que eu tinha de esperar alguns dias antes de me dar uma resposta. Não o larguei mais, a ponto de assim que avistava nos corredores me dizer "Calma! Ainda não é hoje". Mas o dia veio em que Elias me podia responder. Da sua mala, uma mochila de lona do Exército que era a inveja de todas as turmas, saiu um álbum reluzente que mais tarde vim a saber ter sido surripiado pelo próprio na Bertrand do Chiado. Título "Educação Sexual dos 12 aos 16", livro que viria a ser lido por quase todo o Liceu nos anos seguintes, circulando de mala em mala em regime absolutamente clandestino, e que deve ter contribuído mais para a educação sexual de toda a Machado de Castro que milhentas conversas familiares sobre o assunto.

P.S.- Acabaram durante meses, os jogos de bilhar no Jardim Cinema nos tempos mortos! Passaram a organizar-se excursões à Bertrand do Chiado somente com objectivos de investigação! Até ao dia em que mudaram o sacana do expositor de um recanto escondido para junto da caixa de saída... Nunca lhes perdoarei!

Decisões a metro...

A linha do Oriente do Metropolitano de Lisboa vai ser prolongada. Duas novas estações, Encarnação e Moscavide, (Aleluia para quem dela vai usufruir, que para mim vem com um atraso de vinte anos...). Ora, num determinado troço a linha cruzará o bairro dos Olivais a céu aberto, votando quatro vivendas à demolição. Dirão que é o preço do progresso. O que não é normal, absolutamente nada normal, é que o Metro tenha escrito aos moradores dessas vivendas pedindo desculpa pelos incómodos a que sujeitará os residentes (eu vi a carta, é isso mesmo que diz) porque o túnel irá passar sob as casas. Mas eu disse ali atrás que as casas iam ser demolidas? Sim, disse. É que de acordo com o que plano operacional que foi ontem tornado público pelo Metro, o troço da linha será a céu aberto e lá vão as casinhas ser visitadas pelo camartelo. Mas creio que o Metropolitano se esqueceu de algo... Avisar os proprietários, por exemplo! Como é que estas coisas são possíveis? O que não aconteceria se a "casita" de um dos Administradores da empresa, fosse alvo da mesma situação?

07 setembro 2005

O hábito faz o monge

Curiosíssima a entrevista do Padre Vitor Melícias ao "Pessoal e Transmissível" na TSF. Melícias abordou, sem grandes fugas, temas importantes para um homem de Deus, como a castidade, a tentação e o próprio pecado. Sendo Franciscano mendicante, despojado de riqueza de qualquer género, explicou como coordena os seus votos de pobreza com a vida profissional. "Não tenho absolutamente nada de meu ou em meu nome, apenas a meu uso". Eu bem tinha a impressão que afinal, Isaltino de Morais é um homem de virtude!

05 setembro 2005

De pequenino se sopra o destino

B. estava atarefadíssima atrás do balcão. Atarefada e orgulhosa da sua missão hoteleira de atender adultos que pedem cafés, águas, whiskies e derivados mas para os quais não tem altura, seja para chegar à máquina, seja para alcançar as prateleiras. Sobram portanto para a sua azáfama as bebidas naturais, as que estão nos baixos do balcão, gomas e gelados muitíssimo mais fáceis de serem agarradas pelas mãos pequeninas. "Duas gomas e um iogurte líquido se faz favor!" pede quase aos gritos o pequeno cliente, como forma de compensar a pouca altura que impede que a sua cabeça loura possa ser vista do lado de lá vidro do balcão. B. agarra no pequeno saco de plástico que há-de servir de embrulho às gomas, na pequena pinça de plástico com que as retirará da caixa-expositor e prepara-se para as servir. Mas os nervos da função são grandes, a caixa das gomas de tão bem fechada também não ajuda, são muitas dificuldades para agarrar tudo ao mesmo tempo, é muito mar para tão pequena nau. Ouço um "Ops!" e vejo a pequena pinça de plástico voar artisticamente em direcção ao chão. Isto é muito complicado para quando se está servindo ao balcão em cima de uma grade vazia de Coca Cola. É preciso descer, apanhar a pinça , voltar a subir, entregar os pedidos, receber o dinheiro, sendo que a registadora está longe, muito longe, arrastar a grade, voltar a subir, fazer o troco, descer, arrastar a grade, voltar a subir e dar (finalmente) a missão por concluída. Deixei terminar a venda e numa altura em que o balcão não tem ninguém digo a B. que preciso de ter uma conversa em particular com ela. B. desce do seu local de trabalho, dá a volta ao balcão e vem ter comigo. Olha, há bocado, quando a tua mana deixou cair a chupeta no chão, e antes de lha dares outra vez, o que é que foste fazer à cozinha? "Fui lavar!" Muito bem, e quando vendeste as gomas ao miúdo, porque é que não foste lavar a pinça de plástico que caiu ao chão? B., corou, sentindo-se apanhada em falta. Mas não perde o ar "profissional" nem por um instante. "Ah, mas as minhas irmãs não são clientes!"

Ouvi alguém contar...

Era uma vez quatro funcionários chamados Toda-a-Gente, Alguém, Qualquer-Um e Ninguém. Havia um trabalho importante para fazer e Toda-a-Gente tinha a certeza que Alguém o faria. Qualquer-Um podia fazê-lo, mas Ninguém o fez. Alguém zangou-se porque era um trabalho para Toda-a-Gente. Toda-a-Gente pensou que Qualquer-Um podia tê-lo feito, mas Ninguém constatou que Toda-a-Gente não o faria. No fim Toda-a-Gente culpou Alguém quando Ninguém fez o que Qualquer-Um poderia ter feito.

Did I mention Everwood?

Tenho muitas dificuldades em falar de uma série de nome Everwood que a RTP1 passa a horas impróprias. Mas recomendo-a. Uma história simples, de um neurocirurgião brilhante e deveras mediático que abandona New York para se refugiar numa cidade de província onde abre um consultório de medicina gratuita. Viúvo, dois filhos, Ephram e Dellia e um mundo que gira à volta de um miúdo recém saído de um coma profundo (Collin) que Andy Brown, o cirurgião, parece ter recuperado para uma vida normal. A série é um carrossel de emoções, com um ritmo de montagem muitíssimo bom e ao mesmo tempo previsível. Se se lembra (e se gostou) de Northern Exposure, não a perca. Ah! E as introduções do narrador são pérolas de filosofia. Algumas, do mais precioso que já ouvi.

O que sabes tu da voz do sangue?

Já aqui falei de T. e da sua peculiar visão do mundo aos oitenta e muitos anos. T. degrada-se, mental e fisicamente e leva-nos a desejar que os corpos e as mentes se nunca destruam ou percam qualidades. Sente-se isso continuamente na raiva da voz, nos trejeitos de olhar mas muito em particular naquilo que fica por dizer, seja vergonha ou mero decoro. "Tenho de sair de casa, eles querem ir de férias e eu tenho de sair de casa...". "Não que eu queira ir com eles, que não quero, eu queria ficar sozinha, com os meus pensamentos, com as minhas coisinhas, aqui no meu cantinho que infelizmente nunca foi meu, mas ela não me deixa...". Combinamos que a irei buscar. T. não me é nada, não partilho com ela nenhum gene, mas deu provas no decorrer da sua longa vida de que não é o ADN que impõe regras nestas questões. Acto falhado, T. telefona-me a minutos da hora combinada balbuciando uma negativa, que não, que já não sai e não me apetece inquirir das razões. Todos nós devíamos ter direito a não responder a questões que não chegam a ser colocadas. Apenas algumas horas volvidas, um novo telefonema. "Podes vir hoje, podes?". Poderei. Mas há algo que está quebrado nestes silêncios cúmplices. As malditas perguntas sem resposta, os silêncios que marcam os minutos e o assustador barulho dos momentos em que não pronunciamos banalidades. Quer mesmo vir comigo? "Que sim, quero", assim tão seco como a paisagem de pinheiros à míngua da água que não chove. Há alguma coisa que me queira dizer? Ou melhor, que não me queira dizer? "Eu tenho de sair de casa, faz-me bem sair de casa, volto com outro espírito. Até ao próximo Verão, até nos aborrecermos outra vez...". Olho de lado, um olhar de incompreensão. Mas se isso está assim, porque é que insiste em voltar?. Só se ouve o vento a soprar pelas frinchas dos vidros entreabertos. Desvio os olhos da estrada para lhe mirar a silhueta magra, punho fechado à volta da alça da mala. "O que sabes tu da voz do sangue?".

Vida por vida

Há uma classe de pessoas neste país que não exige assistência na doença diferente dos sistemas convencionais, que não exige o pagamento de uma hora extraordinária, que paga do seu próprio bolso o equipamento pessoal especial de que precisa para trabalhar. Que não vêem a família durante dias seguidos. Que morre (não poucas vezes) a cumprir um serviço para o qual se voluntariou. Que não discute carreiras. Que nunca se queixam. Chamam-se Bombeiros Voluntários.

O Pianista

Polansky é, ao que dizem, um pulha. Mas um pulha que faz filmes como "O Pianista", uma obra que indecentemente me escapou durante anos, merece algum crédito. Até chorei! E já não chorava assim desde os sete de Vigo... (Escrevi isto antes do jogo com o Gil Vicente!) Já agora, e enquanto estou a arrumar a pasta dos filmes classificados na secção "Oh-que-carago-mas-porque-é-que-eu-falhei-isto", incluam na vossa lista de reminders o "Trainning Day" com Denzel Washington e Ben Affleck. Quer dizer não foram eles a realizar, foi um tal de Fuqua, mas não me apetece agora ir ver...

Mural e Religião

Aqueles que procuram provar a existência divina nas pequenas coisas da vida deviam examinar com a atenção um problema que tive há dias. Depois de me terem emprestado uns CD's de DIVx decidi copiar os filmes. Um deles, "A Paixão de Cristo" deu um erro grave quase no final da cópia e não o consegui guardar porque o sistema dizia que não tinha espaço em disco. Atoardas e calúnias porque ainda havia 7 Gigas livres. Provavelmente foi porque o filme que copiei antes para a mesma pasta era uma coisa chamada "Air Erotica", com montes de hospedeiras libidinosas a vender saúde... Ai é? Decidi punir Cristo, afastando-o da minha selecção. Para ver se aprende.

Deus lhe pague, sim?

Se Deus fosse um tipo organizadinho e tal, enviava a cada um de nós por SMS, uma mensagem semanal com o saldo acumulado. É que o meu deve ser assombroso...